RdI – Capítulo 9 – 3Lobos

RdI – Capítulo 9

A identidade do estranho

 

Amira e o homem desconhecido continuaram parados sem pronunciar uma única palavra, apenas estudando um ao outro. O coração de Amira batia cada vez mais rápido, embora ela não soubesse dizer qual era a exata emoção que estava perturbando mais: Surpresa? Ameaça? Ou talvez, finalmente tinha aparecido alguém que fosse capaz de dar a ela o gosto do medo?

O homem ofegava fortemente como se não pudesse conter a empolgação e o desejo, mas sem perder a compostura nobre por baixo dos trapos maltrapilhos que estava vestindo. O seu olhar era obstinado, quase possessivo e doentio, e brilhavam de um modo eufórico.

Todos os nervos de Amira começaram a sinalizar para que ela fugisse. Era bem difícil acreditar que aquele homem simplesmente tivesse chegado na sua frente de verdade, naquele lugar quase impossível de ser alcançado. Mas o medo em seu coração alertava que o perigo era bem real.

De repente, como se cordas invisíveis brotassem do nada, Amira sentiu como se seu corpo tivesse sido magicamente amarrado naquele lugar. Por mais força que utilizasse, mesmo desviar o olhar daquele homem parecia quase impossível, quanto mais pensar em dar as costas e fugir! Aquilo era magia. Magia de verdade. Na escola, os professores que chegaram a viajar pelo mundo antes de se aposentarem como aventureiros narravam histórias de seus encontros com magos e feiticeiros.

Porém, Amira nunca tinha esperado encontrar do nada com um usuário de magia naquela Vila remota quase no fim do mundo! E uma coisa estava a deixando extremamente confusa. Um turbilhão de sentimentos diferentes invadia a serenidade da garota deixando ela, pela primeira vez, realmente nervosa desde que tinha chegado naquele lugar. Ela sentia raiva, medo, curiosidade, ressentimento, repulsa, esperança, felicidade, mas principalmente dúvida.

Amira estremeceu. Aquele era realmente o homem, em que nem em seus maiores sonhos esperavam realmente reencontrar um dia? Aquele era realmente o homem que traria a resposta para as suas dúvidas? Aquele era o homem que a salvaria da crueldade das pessoas que tanto a tratavam mal? Ou tudo isso era só uma peça pregada por uma alucinação de um vilão qualquer? Aquele seria realmente quem ela pensava que fosse? Entretanto ela sabia: se ele tivesse vindo aqui com bons propósitos, ele não teria prendido ela com aquele feitiço desde o princípio.

Amira não sentia mais os membros do corpo, nem mesmo alguma parte que fosse. Sentia como se estivesse flutuando em pensamentos e aos poucos sendo arrastada para uma espécie de “lugar feliz”.

Provavelmente se fosse com uma pessoa normal, essa pessoa já teria caído profundamente na armadilha desse homem na frente dela. Mas Amira não era normal. Ela não gostava de ser tratada como diferente, mas ela também não repudiava as diferenças que tinha. Ela tinha conseguido desenvolver uma frieza para as coisas ao seu redor, que mesmo chorar era uma coisa que ela mesma já havia esquecido que fez na vida. Seus sentimentos estavam muito bem presos e destinados à apenas três pessoas. As pessoas que faziam parte do seu cotidiano.

Mas para evitar mais fadiga, Amira sabia que se ela não “caísse” no feitiço do homem à sua frente, ele apenas aumentaria a força sobre ela. Então, Amira concentrou todas as suas forças em manter sua consciência, mas suavizou a expressão para que o invasor baixasse a guarda.

E como bem imaginou, assim que ela parecia ter se rendido, o homem abriu um sorriso acolhedor e amável, estendendo os braços como se esperasse que ela corresse até ele e o abraçasse.

Amira não era acostumada a sorrir, mesmo para seus amigos, mas ela abriu um sorriso tremido, porque ela sabia que era isso que o feitiço estava obrigando ela a fazer. Então, passo a passo, ela se aproximou do estranho, observando cada pequeno detalhe no corpo dele.

Ele se levantou e também começou a se aproximar devagar com elegância. Parou bem à frente de Amira e a olhou com atenção. Se ele tinha feito algum outro feitiço para tentar iludí-la com aquela aparência, ela não sabia como. Mas ele havia escolhido alguém do seu passado para tentar entrar em sua mente. Contudo, justo contra Amira, que era extremamente observadora, ela logo percebeu que faltava algo na encenação dele.

Ele era exatamente igual à foto que Amira tinha de seu próprio pai, só que obviamente velho. O que era normal depois de tantos anos. Mas tudo no corpo de Amira alertava que ele não era quem ela esperava que fosse.

Amira se endireitou, pois não aceitava ter uma pose que não fosse compatível ou menos elegante que a dos outros, principalmente quando seus olhos encontraram com os dele de perto. O sinal que deveria ficar logo abaixo do olho do pai dela, que Amira estava tão acostumada a ver na foto que tinha, e no próprio rosto dela não estava lá.

Tudo o que ela conseguia ver no rosto daquele homem era um profundo sentimento de obsessão e desejo submerso em uma culpa muito bem escondida. Mesmo que ele tentasse enfeitiçar Amira, ela sempre conseguia ler as verdadeiras intenções das pessoas.

Ele não era quem ela queria que fosse. E ela estava odiando cada vez mais a ideia dele querer tentar ser. Mas o estranho também pareceu perceber a aflição da garota, e que ela não havia caído completamente no feitiço dele, mas permaneceu calado como se esperasse que ela falasse primeiro. Amira não perdeu a deixa:

— Quem é você? — ela perguntou com o tom mais incisivo que sua encantadora voz etérea conseguia pronunciar.

Amira aguardou um momento pela resposta que ele iria dar. Se ele mentisse que era seu pai, ela saberia imediatamente que ele realmente não tinha vindo com boas intenções. Mas ele simplesmente balançou negativamente a cabeça, como se soubesse qual era a resposta que Amira queria receber. Então, ele, muito elegante se apresentou:

— Eu sou Franz Dáler, filho de David Dáler, irmão gêmeo de Bran Dáler. E pela última década, eu estive te procurando, Amira, minha sobrinha.


Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.
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