RdI – Capítulo 17 – 3Lobos

RdI – Capítulo 17

Acampamento

 

Amira revirou os olhos e tomou o peixe da mão de Nilo. Com a faca que tinha trazido cravada em sua palma, ela tirou as escamas e tratou o peixe. Acendeu uma pequena fogueira e fez alguns espetos, enquanto Nilo se ocupava pegando mais peixes. Enquanto comiam, Nilo apenas fazia perguntas sobre a vida dela. Amira logo resolveu contar para ele todos os detalhes de sua vida, até mesmo sobre a casa na árvore. Nunca tinha se sentido tão à vontade conversando com alguém, quando finalmente começou a falar do dia anterior.

— E então ele apareceu, o Franz…

— O que? Ele apareceu para você? — Nilo interrompeu cuspindo peixe falando com a boca cheia — Ele não tentou… atacar você, tentou? — Então ele olhou para a mão enfaixada de Amira e disse cabisbaixo — Que pergunta besta, é claro que tentou…

— Nah… ele não fez nada demais, só quis me matar…

Amira falou como se não fosse grande coisa, mas Franz era o responsável por ela estar naquela ilha. Nilo de repente pareceu ficar bem mais triste do que já esteve antes. A confusão que sofria era muito maior e mais recente do que a de Amira.

— … e tentar me convencer a dar o medalhão para ele. Não necessariamente nessa ordem.

— NÃO! Nunca, jamais dê isso para qualquer pessoa que seja. — Nilo quase ficou em pé dessa vez ao falar. — Muito menos para ele. Ele… ele não tem a menor noção do que está fazendo. Depois que a gente… depois que ele veio morar na casa de seus pais, logo antes de você nascer, ele começou a ficar estranho. Tinha momentos em que ficava perturbado, e não falava sobre isso com ninguém, nem mesmo com o tio Franz ou… comigo.

— Acho que você deve estar se sentindo pior pelo fato de ele ser seu pai… — Amira disse olhando para a fogueira crepitando.

— Humpf. Eu não o reconheço mais. Mesmo a loucura tem limites. — Nilo disse apertando o pulso esquerdo. Amira reparou por alto que ele usava uma luva preta apenas naquela mão, enquanto a outra estava descoberta. — Ele foi capaz de matar o próprio irmão na nossa frente… O que mais ele não deve ter feito sem que soubéssemos.

Embora Amira não tivesse realmente esperanças de um dia reencontrar alguém da família que ainda estivesse vivo, não esperava descobrir que eles tivessem sido mortos de forma tão traiçoeira.

— Eu não me lembro… já faz tanto tempo. — Amira disse pensativa.

— Bom pra você! Pra mim mal faz um dia.

— Você o amava muito, não é? — Amira disse.

— Eu o amava. Ele era meu pai. Desde o momento em que me acolheu em sua casa, quando meus pais verdadeiros me abandonaram… até o momento em que ele… em que ele fez o que fez.

Amira não perguntou mais sobre o que Franz havia feito. Respeitava a dor do novo(velho) amigo. Pelo visto, assim como ela, Nilo havia sido criado por outro que não fosse seus verdadeiros pais, e perceber que nem mesmo quem o acolheu era a pessoa boa que ele pensava, deveria ser um golpe duro demais. Amira sequer conseguia imaginar a possibilidade de ser traída por Liana, Breno e Bianca.

Mas a curiosidade dela crescia cada vez mais. Nilo havia confundido-a com sua mãe, então Amira com certeza devia ser idêntica a Naomi. Tinha perguntas a fazer sobre sua casa, sobre seus pais, e se ele sabia como havia chegado àquela floresta no meio de uma tempestade.

Além de tudo, queria saber sobre Nilo. Ela sentia como se ele pudesse ser a melhor pessoa que ela fosse conhecer na vida. Ela percebia que ele tinha de longe, grandes segredos. Talvez até segredos sombrios. Mas ela queria que ele estivesse disposto a contá-los. Pela primeira vez ela estava animada em fazer uma amizade.

— Certo. Agora falando de coisas práticas! — Amira falou batendo as mãos para se livrar dos restos de peixe. — Qual é o seu nível de experiência com florestas?

— Nenhuma! — Nilo disse quase orgulhoso levantando-se e limpando as mãos na roupa. — Até semana passada a gente corria pelo vale com você nas minhas costas, mas você que me indicava o caminho.

— Então você não sabe caçar… — Amira disse mais pra si mesma do que para ele. Até eles descobrirem como sair daquela ilha, então ela deveria saber das capacidades dele que os ajudassem a sobreviver — O que você sabe fazer?

Nilo pensou por um momento. Haviam várias coisas úteis que ele podia fazer no meio de uma floresta, mas nesse momento…

— Nada! — Nilo respondeu mordendo os lábios.

Amira não esperava outra resposta. Apesar dele ter uma cara bem feroz, era ele quem era um mimado que não sabia se cuidar sozinho.

— Você trouxe alguma coisa com você além das roupas? — Amira continuou perguntando.

— Apenas esse canivete — Nilo disse mostrando a peça para ela.

— Bom, eu sei caçar. Mas não conheço nada das criaturas desse ambiente. Vai levar um tempo até eu ser capaz de achar alguma coisa que possamos comer além de peixe. Fora que eu só tenho essa faca de mesa. Não da pra muita coisa.

— Se é só isso, você pode subir nas minhas costas. Podemos dar uma volta nesse lugar e ver o que tem por aí.

— Ah… certo. — Amira disse revirando os olhos levemente desapontada. Então continuou pensando na conversa deles — Você disse que eu gostava da sua velocidade. Admito que você é mais rápido do que eu, mas só isso não é lá capaz de me impressionar. Eu mesma consigo correr por…

Mas Nilo não esperou uma negativa. Ele sabia que Amira sempre tinha sido teimosa, isso provavelmente não teria mudado, mesmo se tivesse passado duas décadas. Então antes que ela pudesse impedir, ele agarrou Amira pela cintura, jogou ela em suas costas e começou a sair correndo subindo a margem do riacho floresta a dentro.

— Me ponha no chão! — Amira gritou nervosa, mas assim que parou para olhar ao redor, eles já estavam centenas de metros distante do ponto inicial. — Ual…

Ela mesma corrigiu a postura nas costas de Nilo enquanto ele corria como se não fosse nada. Uma euforia maravilhosa encheu o corpo de Amira. Era um sentimento de certa forma familiar, mas que tinha sido esquecido. Nilo realmente podia correr como nenhum humano que ela conheceu corria.

— Tudo bem! Estou impressionada… agora pare! — ela pediu para ele com urgência.

Nilo freou quase imediatamente como se toda aquela velocidade ainda não fosse nada para ele.

— Não devíamos entrar e conhecer o terreno? Eu mesmo só andei pela encosta da praia…

— Claro que devíamos… mas agora, eu sinto a presença de criaturas sombrias!


Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.
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