RdI – Capítulo 16 – 3Lobos

RdI – Capítulo 16

Fome

 

Amira não sabia como reagir a esse tipo de situação. Tecnicamente, Nilo estava chorando pela morte dos pais dela, e pela traição do próprio pai. Amira poderia sentir a raiva contra Franz nesse momento, mas ela não conseguia dividir a dor de Nilo. Ela nunca tinha sido muito boa em empatia.

Fora que nessas poucas horas, o mundo dela também tinha virado de cabeça para baixo — aparentemente de novo — pela mesma pessoa. Era muita coisa para entender. Muito para processar. Pelo menos agora ela tinha ideia do que ela deveria ser. Agora que ela já havia aceitado o fato de que não era humana, ou pelo menos completamente humana, Amira sempre teve curiosidade de descobrir a que raça pertencia.

E pelo que Franz e Nilo falaram, ela só podia entender que ela era realmente alguma espécie de ser divino. Um anjo, era isso? Esse tinha sido o termo que Franz tinha usado para se referir a ela em um momento durante o enfrentamento dos dois.

Enfrentamento, uma ova. Amira nunca tinha se sentido tão incapaz em toda a vida. Ela sequer conseguiu reunir forças pra lutar. E ao que parece, escapou por pura sorte. O que quer que estivesse protegendo ela de Franz ao ponto de ter trazido ela para aquele lugar onde Nilo estava, também havia protegido a Vila Schuyler inteira, o que deu a ela quase dez anos livre da perseguição de Franz.

Sem saber o que mais fazer, e sem conseguir ficar mais tempo quieta apenas observando o mar, Amira levantou-se, devolveu o manto de Nilo cobrindo-o contra a maresia e entrou na floresta. Não demorou muito, e ela estava voltando usando o sobretudo de sacola, carregando um punhado de frutas tropicais.

— Não tem carne? — Nilo perguntou depois que ela deixou algumas mangas na frente dele.

— Vai ter depois que eu te matar pra comer! — Amira retrucou com impaciência.

— Desculpa! — Nilo respondeu sem jeito, e comeu as frutas com mau gosto. Depois que terminou de comer, ele perguntou — Como foi que você ficou mais velha?

— Você fez curso pra fazer perguntas idiotas? Como assim eu fiquei mais velha? Eu não sou velha.

Nilo fechou os olhos e respirou fundo novamente, depois a encarou com frieza e disse:

— Delicada como sempre! Escuta aqui, meu anjo, pra mim, ontem você era uma menininha doce e meiga, e agora é essa… respondona. É lógico que é velha.

— Duas coisas: eu não sou seu anjo, e tenho quase quinze anos, isso não é ser velha.

— Você entendeu o que eu quis dizer. Fala sério! Se você não se lembra de mim, podia pelo menos me tratar cordialmente, já que foi educada pra isso. O que foi que aconteceu com você? Você não era assim — Nilo falou realmente muito chateado.

— Então me diz quem é você? — perguntou Amira um pouco encabulada, mas não deixou que ele percebesse. — Você não pode esperar que eu te trate como eu tratava quando tinha cinco anos. Eu mal lembro da minha vida naquela época. Então tudo o que diz respeito a você eu esqueci. Dizer que é meu primo? Beleza. Mas quem é você de verdade? Por que eu mesma não sou mais a doce e meiga criancinha. Eu tive que estudar combate pra sobreviver contra mercenários. Eu tive que aprender a viver sendo repudiada pelas pessoas da vila onde cresci por que eu era de uma raça desconhecida. E eu tive que aprender a viver na floresta com o que a floresta tinha para me oferecer. E se o que essa floresta tem pra me oferecer são frutas, então o que eu mais gosto de comer nesse momento, são frutas!

Amira falou rápido. Ela nunca tinha falado tanto de uma vez, nem mesmo com Breno e Bianca. Isso também acabou pegando Nilo de surpresa, então ele começou a rir, apesar de ainda ter a expressão abatida.

— Parece que não foi uma vida fácil… — ele disse remexendo na areia, as frutas de um lado para o outro, e começou a falar com o olhar perdido no mar — Vejamos…. até ontem, eu só tive uma amiga de verdade, que era uma criancinha mimada que sempre ganhava tudo o que queria. Eu gostava de colocar ela nas minhas costas e correr pelos arredores do vale onde morávamos. Ela gostava da velocidade, e o sorriso dela era como um feitiço mágico que espalhava alegria, e isso me deixava feliz. Quando ela estava triste, ela corria para mim e dizia que eu tinha que ir fazer cara de mau para quem tinha deixado ela triste. E quando ela estava alegre, ela corria para mim e tagarelava sobre o que tinha deixado ela contente. Para ela, eu era um precioso amigo também, e isso me bastava. Mesmo que às vezes ela me tratasse como um animal de estimação, e achasse que pudesse mandar em mim. Antes disso… eu não era nada… e agora… o que eu sou agora? Eu sou um esquecido. — Nilo desabafou virando o olhar para Amira.

Nesse momento, Amira tinha certeza que se ela pudesse corar, ela teria corado. Ela escutou as palavras dele atentamente. Sabia que ele realmente amava cada memória preciosa que ele tinha construído no passado com ela, e por isso ela se sentiu culpada por falar com ele de forma grosseira.

— Me desculpe! — Amira disse sem olhar para ele.

— Se precisou pedir, eu desculpo. — Nilo respondeu.

Amira era muito orgulhosa e ele parecia saber disso. Foram poucas as vezes que ela precisou pedir desculpas por algo, e menos ainda as vezes que ela realmente pediu. Pouco depois, Nilo ficou em pé bateu a areia das roupas.

Amira o seguiu de perto enquanto ele caminhava até o riacho. Nilo observou por um tempo, e incrivelmente conseguiu pescar com as mãos, sem sequer entrar dentro d’água.

— Isso aqui dá pro gasto! — Nilo disse prestes a dar uma dentada no peixe vivo.

— Você vai comer isso assim? — Amira perguntou ligeiramente perturbada.

— O que é que tem? — Nilo perguntou sem entender qual era o problema.


Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.
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