RdI – Capítulo 15 – 3Lobos

RdI – Capítulo 15

Memórias

 

— Podemos nos apresentar de novo? — Amira perguntou calmamente para o rapaz na frente dela. Ele não disse nada, então ela continuou mesmo assim — Eu sou Amira Dáler, tenho quase quinze anos. Vivi os últimos dez anos em uma vila portuária com minha mãe e meus sobrinhos adotivos. Eu não tenho muitas memórias de antes dos meus cinco anos e nem de como eu cheguei naquela vila. Muito menos de como eu cheguei aqui…

Amira disse olhando ao redor. Definitivamente a vila onde morava não ficava perto do mar. E ela tinha caído diretamente da varanda do primeiro andar de sua casa na árvore para uma laguna aos pés da árvore e emergido nesse lugar completamente novo. Amira esperou o rapaz dizer alguma coisa, mas ele ainda continuou parado olhando para ela como se estivesse em algum sonho louco.

— E você? — Amira insistiu.

Ele respirou fundo algumas vezes, mas enfim conseguiu falar.

— Eu… sou Nilo… Nilo Dáler. Tenho 19 anos. Somos primos. — ele abaixou o rosto e começou a olhar para os próprios pés. Nesse momento parecia ter vergonha de si mesmo. — Morei na casa de seus pais desde o dia que sua mãe anunciou a gravidez. E desde então eu tenho tomado conta de você e estado ao seu lado. — Uma lágrima teimosa começou a escorrer no rosto dele de novo, e ele enxugou com força e raiva com a mão suja de areia, sujando mais ainda o rosto — Por que teve que ser assim?

— Assim o que? — Amira perguntou calmamente tentando passar sua calma para ele.

— Nós éramos felizes. Eu era feliz. Você não tem ideia do que é viver uma vida cercado por pessoas que tem medo e ódio de você só por que você é diferente, e de repente você encontra um lugar onde é aceito e amado… E isso é arrancado de você de forma tão cruel.

Amira suspirou profundamente. Na verdade, ela entendia bem o que ele estava sentindo. Pelo menos até a parte antes do lugar onde ela seria aceita e amada mesmo por ser diferente.

— Se não pode fazer nada para mudar isso, então também não adianta chorar! — Amira disse firmemente para ele. — Tire seu tempo para se recompor, depois, bola pra sente. Não vai adiantar nada ficar aí sentindo pena de si mesmo.

— Era a sua família também… como pode estar tão calma? — ele perguntou chateado.

Amira entendia que alguma coisa não estava batendo corretamente. Ela acreditava e sentia uma confiança inata em Nilo, mas a reação dele não batia em nada do que ela esperaria dele depois de dez anos… dez anos? Como ele não envelheceu?

— Nilo… para mim fazem dez anos que nos separamos, e eu mal me lembro do que aconteceu. — ela disse calmamente, olhando-o nos olhos — Quando isso aconteceu para você?

Nilo parecia ter entrado em choque com a constatação da diferença de tempo entre eles dois. Mas era como Amira disse. Se ele não podia fazer nada para mudar isso, então não adiantaria chorar.

— Ontem a noite era o seu aniversário de cinco anos. — ele disse bem sério. — Estávamos todos lá em festa. No momento que tio Bran decidiu passar o medalhão para você, ele nos chamou para um lugar reservado, mas meu p… mas Franz não estava em lugar nenhum. Então, a tia Naomi disse que tinha que ser feito mesmo assim.

Nilo começou a contar a história que para ele tinha acontecido há poucas horas. Amira podia sentir a tensão do corpo dele, e é claro, ela sabia que Nilo tinha evitado dizer que era filho de Franz. Ele mesmo deveria estar se sentido muito culpado pelos pecados do pai. Ele continuou.

— Tio Bran passou o medalhão de Nara para você, e então voltamos para a festa. Mas você era uma criança pequena. Ficou com sono. Eu te levei para casa para te pôr pra dormir. Quando estávamos lá dentro. Franz voltou — dessa vez havia uma expressão de ódio e ressentimento nos olhos de Nilo. — Ele trouxe um exército de criaturas sombrias que começaram a matar os convidados e todos do vale. Em um instante a música da festa foi substituída pelos sons de batalha.

À medida que Nilo narrava, Amira podia lembrar vagamente das coisas que ele dizia. Os gritos do lado de fora da casa. Ela acordando assustada achando que tinha tido um pesadelo. Nilo pegando ela nos braços, e a protegendo enquanto olhava a situação pela janela.

— Então de alguma forma, atearam fogo na casa. Todo térreo se incendiou em um segundo. Estávamos presos lá dentro. Tia Naomi passou pelo fogo e usou a própria magia para nos ajudar a sair de lá. Mas o fogo era muito violento. Apesar de ela ser imune ao fogo, ela não era imune aos escombros. O fogo consumiu a estrutura da casa tão rápido que ela veio a baixo. Tia Naomi usou a magia dela para nos mandar diretamente para o lado do tio Bran. Mas ela não veio junto.

As lembranças foram voltando borradas para a mente de Amira.

— Onde está Naomi! Ela não está com vocês? — Amira lembrou dos gritos do pai e dele imediatamente tentar correr para a casa em chamas.

Franz apareceu naquela hora.

— Irmão, Naomi ainda está lá dentro! Temos que salvá-la — o pai de Amira suplicou por ajuda.

Mas Franz não tinha vindo ajudar. Ele atacou o pai de Amira. Nilo gritava desesperado pelo fim daquela briga, enquanto protegia Amira com o próprio corpo.

Amira escutava as palavras dele atentamente. Sabia que ele não estava mentindo. Sentia que ele realmente estava em luto. A casa terminando de desmoronar…. Os gritos de desespero de Bran preocupado com a própria esposa… A espada cravada no peito de Bran. O grito de revolta de Nilo enquanto segurava o corpo caído do amado tio alvejado pelo próprio pai, e por fim… A escuridão.

Nilo despertou sozinho naquela praia.

Amira despertou sozinha na Floresta Sem Fim.

E o corpo de Bran tinha ficado para trás para se perder no fogo sem nunca encontrar a paz.


Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.
FONTE
Cores: