RdI – Capítulo 14 – 3Lobos

RdI – Capítulo 14

Reencontro

 

Quando Amira acordou, já era dia. De alguma forma, ela se sentia fraca e zonza com a maior dor de cabeça que tinha tido na vida. Olhou ao redor para descobrir que estava em um lugar completamente desconhecido, coberta com um manto que não pertencia à ela na beira de uma praia que ela nunca tinha visto.

O ferimento em sua mão tinha sido tratado, e suas roupas foram tiradas, deixando-a apenas com as roupas de baixo e o medalhão no pescoço. As demais estavam estendidas em um varal improvisado ao lado dela para secar.

Amira apressadamente correu para se vestir. Quem tinha tocado nela? Nunca, nem mesmo nas aulas de combate, alguém tinha conseguido tocar nela sem permissão. E a pessoa tinha até mesmo tirado suas roupas?

Quase imediatamente os olhos de Amira pousaram em um rapaz que dormia enroscado de um jeito estranho há alguns metros dela. Ele deveria ter sido o atrevido que ousou tocá-la. Em um instante, Amira já estava completamente vestida segurando com força o manto que deveria pertencer a ele.

— Ei, você! — Amira chamou irritada.

Como ele ainda dormia, Amira aproximou-se e sem a menor delicadeza, meteu o pé no meio das costas do rapaz. O rapaz gritou de dor, e se levantou de um salto segurando a faca de Amira pronto para atacar a qualquer momento.

Amira recuou rapidamente com um salto. Não esperava que ele fosse tão rápido e alerta. Ele, com certeza, era um adversário que ela deveria tomar cuidado, caso fosse inimigo.

— Ahn? O que? O que houve? — ele perguntou já completamente alerta. Então seus olhos pararam em Amira e toda a tensão nele desapareceu. Ele respirou fundo, soltou a faca na areia e se aproximou de Amira completamente preocupado — Você acordou! Você está bem?

Nilo permaneceu parado, imóvel, estendendo os braços para Amira como se esperasse que ela fosse desmaiar de novo a qualquer momento.

— Eu… estou bem? — Amira respondeu confusa olhando para o rapaz. Então do nada, mais rápido do que ela poderia imaginar, ele a pegou de surpresa e a abraçou chorando quase aos berros.

— Ahr… tia, eu tava tão preocupado. Eu nem sei o que aconteceu… e Amira? A senhora achou a Amira? Eu me perdi dela.

Amira, sem jeito, afastou-se dele, e o olhou nos olhos. Ele estava ansioso e aliviado ao mesmo tempo. Se saber o que fazer, começou a brigar:

— Tu tá tirando uma com a minha cara?

Nilo estranhou a resposta. Ao ver a confusão do rapaz, Amira completou:

Eu sou a Amira!

Ele permaneceu com a mesma expressão, como se ainda não tivesse assimilado a mensagem, depois de alguns segundos, finalmente pareceu ter engatado.

— O que foi que disse?

— O meu nome é Amira, e eu não sou sua tia.

Dessa vez ele entendeu, mas parecia ter sido esbofeteado.

— Não… não pode ser… a Amira acabou de fazer cinco anos, é só uma criança…

— Eu tenho cara de criança por acaso? — Amira disse fora de sério.

A força fugiu das pernas de Nilo e ele caiu de joelhos no chão, sem tirar os olhos dela. Amira se afastou um pouco mais, ainda desconfiada, mas ajoelhou-se também até estar na altura dos olhos dele. Os dois permaneceram calados examinando um ao outro.

Nilo abriu a boca para falar várias vezes, mas não conseguia pronunciar um único som. Várias perguntas se amontoavam em suas cabeças, sem que ele conseguisse decidir qual fazer primeiro. Sem conseguir decidir o que era mais importante descobrir. Já Amira o avaliava por completo. Ele parecia ser um pouco mais velho do que ela. Tinha os cabelos muito pretos e desgrenhados e um olhar taciturno, que dariam a ele uma expressão bem feroz não fosse pela cara de choro. E Amira não tinha fugido dele por que sabia quem ele era. Ela podia sentir a familiaridade com ele em cada célula do seu corpo. Era ele quem não estava lidando bem com esse reencontro.

Finalmente tomando um pouco de coragem, Nilo abriu a boca novamente, e dessa vez conseguiu falar:

— Você é de verdade? — a voz dele saiu rouca e fraca. Ele realmente pensava que não devia passar de uma ilusão. Um sonho ruim.

Amira confirmou com a cabeça, revirando os olhos. E então, falou, com sua voz baixa, no tom que estava acostumada.

— E você é muito atrevido por ter tido a ousadia de tirar minha roupa! — Amira disse irritada.

Nilo então estendeu a mão na direção dela. A velocidade dele surpreendeu Amira completamente. De volta na vila, simplesmente ninguém seria páreo para ela. Mas ele poderia rendê-la em um piscar de olhos e ela nunca poderia fazer nada a respeito. Que espécie de monstro era ele?

Com uma mão, ele agarrou o pulso de Amira que tentava resistir e com a outra, ele enfiou por dentro do vestido de Amira. Amira estava prestes a gritar pela segunda vez em menos de 24 horas, mas ele apenas puxou para fora o medalhão. Amira parou de resistir e hesitou por um momento. Ele olhava a joia com um misto de emoções que nem mesmo ela conseguia acompanhar. De repente, ela estava tão curiosa sobre ele, quanto ele estava confuso sobre ela.

— Por favor… me diga que você não é a Amira… — ele disse olhando para a joia — Você não pode ser Amira…

— Desde que eu me lembro, sempre fui Amira — ela respondeu calmamente.

Então do nada, ele fechou os olhos arfando violentamente, e começou a chorar. Ele gritava como se sentisse dor. Com os próprios punhos fechados, ele começou a esmurrar a própria cabeça, enquanto desabava em desespero.

— Eu sinto muito… eu não pude fazer nada… eu não sabia de nada… — ele balbuciava entre os gritos de dor.

Amira ficou imediatamente apavorada com a atitude do garoto. Embora ela não tivesse 100% de certeza de quem ele se tratava, seu coração lhe permitia que ele a tocasse sem reclamar. Sua intuição nunca falhou, então não falharia agora. Ele mesmo havia cuidado da ferida em sua mão, então não podia ser uma ameaça.

— Nilo! Acalme-se por favor! — ela chamou com o tom mais imperativo que conseguiu pôr em sua voz.

Foi extremamente efetivo. Nilo engoliu o choro e respirou fundo várias vezes até conseguir se acalmar completamente. Amira calmamente soltou o braço do pulso dele e deu palmadinhas de consolo em seu ombro até conseguir fazê-lo se sentar confortavelmente, e ela também se sentou, dessa vez um pouco mais distante dele.

— Acalme-se por favor. Há algumas coisas que precisamos esclarecer! — Amira disse tentando parecer decisiva e compreensiva ao mesmo tempo. Havia acontecido alguma coisa muito séria com esse garoto para ele ter sido reduzido para um estado tão lastimável.

Nilo concordou com a cabeça.

— Primeiramente: Não me toque, muito menos me agarre dessa forma. Isso é extremamente desconfortável. — Amira começou tentando pôr alguns limites. — Segundo: eu me lembro de você. Mas muito pouco. Eu tinha cinco anos a última vez que te vi.

— Quantos anos… — ele disse baixinho.

— O que? — Amira perguntou sem entender.

— Quantos anos se passaram desde que me viu? — ele perguntou seriamente.

— Bom… acho que está pra completar uns 10! — Amira disse sinceramente.

O queixo de Nilo caiu. Para ele, tudo tinha acontecido na noite passada.


Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.
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