RdI – Capítulo 13 – 3Lobos

RdI – Capítulo 13

Nilo

 

Nilo abriu os olhos assustado. Levantou-se rapidamente olhando para todos os lados. Estava em algum tipo de floresta tropical que ele nunca tinha visto antes. Tudo parecia apenas um sonho ruim. Pela vegetação local, ele não estava em nenhum lugar próximo de casa. Casa! Ele tinha que encontrar Amira.

Seu coração doía terrivelmente. Cada batida trazendo o desejo de morte. Mas ele não poderia abandonar Amira… não agora. Principalmente agora. Ele se levantou e olhou ao redor. Tudo estava estranhamente… quieto.

Por causa de tudo o que havia acontecido apenas naqueles últimos minutos, por um momento ele também pensou que tinha morrido. Tudo estava parado. Nada se movia, como tinha acontecido exatamente antes de ser teletransportado de casa. O vento não soprava e nem mesmo as aves que estavam no céu se moviam. Tudo ao redor dele estava com um leve tom desbotado, parado no tempo.

Sem saber o que fazer, sem entender o que havia acontecido, ele apenas olhou ao redor espantado demais para se mover. Não havia o menor sinal da presença de Franz em lugar nenhum.

— Eu morri… morri… morri ou enlouqueci de vez.

Estava sentindo medo. Sentia vergonha por estar com medo. Sentia angústia. Dúvida. Tristeza. Raiva.

Lentamente, com as mãos ao redor do pescoço, sem saber nem no que pensar, Nilo deu um passo a frente. Precisava se acalmar. Mas parou de novo logo em seguida. Tudo voltou tão rapidamente à vida, que o barulho da natureza em curso quase estourou seus tímpanos do mesmo modo que quebrou o duro silêncio do tempo parado.

Fazia um certo calor naquele novo lugar. Mais do que ele estava acostumado a sentir. O clima de lá evidentemente era bem diferente de onde ele morava. Haviam palmeiras no meio da floresta. O solo era basicamente arenoso e pouco firme, além de ter poucas nuvens no céu. O sol incrivelmente parecia ficar mais forte a cada minuto.

Havia ruídos de água corrente misturado com o som do vento intenso e salgado. Nilo caminhou com dificuldade, tentando não afundar as botas em tanta areia quente, e dirigiu-se para onde vinha o som da água. Seria mais fácil se localizar pelo rio, apesar de que ele não tivesse nenhuma esperança de estar em qualquer lugar conhecido. Ele precisava encontrar Amira. Aquela coisinha era esperta. Com certeza a primeira coisa que ela faria seria procurar abrigo e esperar por ele. Então, ele tinha que encontrá-la.

Ao chegar às margens do riacho, Nilo teve certeza de que não estava nem perto de casa. Talvez sequer estivesse no mesmo reino. O curso d’água estava em seu fim, quebrando junto com as ondas de uma praia pouco mais de cem metros à frente na saída da floresta.

Aquela forma era muito incômoda para a necessidade do momento. E ainda levaria mais 6 dias. E pensar que ele sempre aguardava ansioso pelos dias que poderia virar humano. Ele não tinha como lutar ou se defender. Ele não tinha sequer como rastrear Amira naquele lugar. Ele teria simplesmente que seguir adiante e esperar topar com ela. Ela deveria estar tão assustada….

Então Nilo chorou. Sentou-se na areia da praia e chorou. Aquele era o dia mais horrível de toda a sua vida. Justamente quando ele achava que podia ter uma vida feliz, apesar de tudo, aquela batalha tinha que acontecer. Por causa de um nada. Por causa de porcaria nenhuma, os dois irmãos lutaram.

Nilo não conseguia entender por que valeria a pena matar e morrer por aquela coisa. Tudo o que ele sempre quis foi viver feliz com a família. E isso tinha lhe sido negado pelo próprio pai. Nilo sentia tanta raiva agora que sequer cabia em seu peito. Era uma dor sem fim.

Ver Bran ser empalado por uma espada… aquela cena ficou cravada em sua memória e se repetia várias vezes deixando-o louco.

Por que?

Por que, ele se perguntava, enquanto lágrimas escorriam de seus olhos. Lágrimas de dor, de ódio, de ressentimento, de mágoa.

Mas Nilo precisava se acalmar. Ele sabia que precisava. Amira só tinha a ele, e ele não iria falhar com ela. Não importa o que, ele precisava encontrá-la e protegê-la. Então Nilo respirou fundo várias vezes até conseguir se acalmar. Ele tinha que colocar as emoções em ordem para proteger a menina.

Ele tinha que pensar. Amira sempre gostou de fadas. Então ela com certeza estaria em algum lugar onde houvessem fadas. Mas aquele lugar parecia não haver nenhuma. Sequer o mar à sua frente parecia ter ondinas, mesmo a água sendo pura e cristalina.

Então Nilo se pôs de pé, mesmo com todo o corpo doendo e as feridas ardendo por conta do vento salgado. Nunca havia se sentido tão perdido na vida, figurativamente e literalmente perdido. Ele detestava água, mas ao menos se sentia um pouco melhor vendo o mar à sua frente. Sempre tinha sonhado em ver o mar, embora nunca houvesse pensado em chegar lá de forma tão… estranha e aterradora.

A tarde passou bem rápido e o sol foi se pondo em cima do mar que agora passava de um azul esverdeado para um leve dourado, e o vento soprava bem frio agora. Não havia tido nenhum sinal de vida que não fosse o das aves que pairavam sobre sua cabeça. O cansaço já estava pesando sobre os ombros de Nilo e o estômago reclamava de fome. Ele continuava procurando, mas ao mesmo tempo tinha medo de gritar o nome dela. Se houvesse inimigos, isso seria o mesmo que apontar sua localização.

Depois de um tempo, quando a luz que iluminava o lugar vinha apenas da lua cheia, e estrelas desconhecidas já inundavam o céu com uma beleza inigualável, uma esfera de luz começou a se mover do fundo da água do mar e emergir sem fôlego. Uma beleza inigualável saltou para fora da água buscando oxigênio, enquanto parecia sentir dor.

Por um momento breve, Nilo hesitou. Poderia muito bem ser uma sereia tentando atraí-lo para a morte certa. Ele não estava em condições de lutar contra sereias, e ficou apenas observando a mulher se erguer da água enquanto tossia e segurava o punho com uma faca cravada.

Nilo não conseguia ver direito os arredores por causa da escuridão, mas aquela silhueta ele podia discernir perfeitamente. Ela quase brilhava no escuro como se sua pele impossivelmente branca pudesse emanar luz. Então Nilo levantou-se rapidamente como se tivesse levado um choque e mesmo detestando água, correu para o mar para ajudar. Nenhuma sereia se atreveria a tomar tal forma. Isso seria uma profanação muito grande, capaz de levar ao genocídio de toda a espécie. Mas seu coração se encheu de alegria e esperança.

Ele tinha falhado em encontrar Amira, mas ao menos a ajuda havia chegado.

— Tia Naomi! — Nilo chamou ao chegar perto estendendo os braços para apoiá-la.

Mas contra todas as suas expectativas, a pessoa em sua frente sacou a faca que estava cravada no próprio punho à força e apontou zonza na direção de Nilo. Nilo parou confuso e recuou dentro da água. Talvez ela achasse que ele fosse um cúmplice. Talvez ela culpasse ele por tudo o que tinha acontecido. Mas ela finalmente se equilibrou e o olhou nos olhos.

— É você… — e então desmaiou.


Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.
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