RdI – Capítulo 11 – 3Lobos

RdI – Capítulo 11

Crivo dimensional

 

— É um crivo dimensional… — a voz atual de Amira saiu sussurrante no meio das visões que ela estava tendo por conta do feitiço.

— Correto! — Franz disse contente enquanto observava Amira cair cada vez mais fundo dentro de suas memórias. Ele estava esperando dar à ela apenas as memórias úteis para ele. Mal sabia que a mente de Amira iria seguir outro curso e revelar tal tragédia.

Todo tipo de pensamento corria pela mente de Amira naquele momento em que as lembranças dela estavam divididas entre o presente e o passado. As memórias, ela sabia que eram reais. Aquelas coisas realmente tinham acontecido. Apesar de elas estarem sendo resgatadas por causa de um feitiço fajuto, eram lembranças reais e dolorosas. Tudo o que Amira tinha trancado nas profundezas de sua mente estava sendo removido agora por aquele feitiço incômodo.

Além disso, uma certa relutância em aceitar as memórias também a incitava. Afinal o que era um crivo dimensional senão uma ferramenta divina capaz de abrir portas para outras dimensões, para outros mundos? E todo esse tempo ela tinha algo tão lendário e poderoso em suas mãos? E aquele medalhão realmente poderia levar Amira para outros lugares. Ele não era falso. Ela já tinha visto… ela já tinha sentido antes, no momento em que o rapaz de olhar taciturno tentava fugir com ela.

— Se você me der o medalhão, eu posso descobrir onde está nossa família, também me perdi deles. Toda nossa família se separou… — a voz gananciosa de Franz invadiu as memórias de Amira de forma hipnótica enquanto ela estava enfeitiçada. Ele sabia exatamente o que deveria fazer e dizer — Todos nós nos separamos quando a cidade em que morávamos desmoronou em guerra.

Amira sorriu consigo mesma ao ouvir as palavras dele. Ele era realmente seu tio, irmão gêmeo de seu pai. Ele havia tentado controlar as memórias para que elas voltassem para Amira em favor dele, mas ele não esperava que Amira ainda mantivesse parte de sua consciência. Ele não esperava que Amira pudesse ver toda a verdade naquelas poucas memórias que foram despertadas de sua infância. Ele não esperava que ela pudesse lembrar quem ele era de verdade.

Guerra? Sim, houve uma guerra. Por mais que aquele feitiço estranho de Franz tentasse manipular os pensamentos dela para que ela sentisse e visse o que ele quisesse e para que ela revivesse aquele dia, de acordo com o que ele mesmo queria que ela lembrasse, Amira ainda tinha muita tenacidade para lidar com toda a tentativa de farsa dele.

E ele estava cometendo um erro. Um erro que ninguém em toda vila onde ela morava havia tido a ousadia de cometer. Ele estava tratando Amira como uma humana. Franz estava subestimando Amira.

Se desde o começo ele tivesse tentado enfeitiçá-la com todas as forças, talvez ele tivesse conseguido convencer Amira de que ele não era uma ameaça. Talvez até manipular as memórias dela para que ela lembrasse dele como um herói e não como um traidor.

— Você pode me dar o medalhão para que nossa família possa ser feliz novamente? Você me dará?

Amira balançou a cabeça afirmativamente. Ele era da família, e poderia rever a sua família, saber o que havia acontecido — Esses pensamentos correram pela mente de Amira como se fossem dela mesma. Mas ela sabia que eram pensamentos plantados e agiu como tal para ganhar tempo. Ela precisava descobrir o que fazer para sair dessa situação.

— Então me dê… — ele disse com a voz tentadora.

Amira então balançou a cabeça com mais força e deu um passo para trás. Simples assim, ela estava completamente livre do controle mental que ele estava tentando colocar sobre ela.

— Por que não usa o seu anel? — Amira perguntou com um olhar sombrio.

A surpresa de Franz durou apenas alguns segundos, então ele se endireitou bem devagar  e aproximou-se de novo. Seus olhos agora demonstravam todo o desdém que ele estava fingindo não ter. Ele girou a bengala entre os dedos como se fosse um gesto banal.

De repente Amira sentiu seu corpo ser imergido em uma onda de calor que todo o lugar com um mormaço incômodo.

Sente-se…

Amira estava impressionada com a nova postura de Franz. Dessa vez a voz dele vinha embargada com uma dose impressionante de poder. Todo o corpo de Amira ficou dolorido pela pressão de obedecer àquela singela ordem. Ele a pegou gentilmente pelo braço e a conduziu até a mesa onde cortesmente puxou uma cadeira para ela como um bom cavalheiro deveria fazer para uma dama.

Amira mordeu a língua tentando forçar seu corpo a obedecer a si mesma e sair da ordem imposta por Franz. Porém, dessa vez ele com certeza tinha tomado um cuidado em colocar mais poder no feitiço. Amira caminhou relutantemente, quase aos tropeços até a cadeira oferecida por Franz e se sentou.

Ele sorriu satisfeito e sentou-se exatamente à frente dela.

— Não posso usar meu anel, ele é fraco… usei toda a força que ele pode me oferecer apenas para entrar neste reino. — Frans disse olhando ao redor como se tivesse desdém até mesmo pelo próprio ar.

Nesse momento, Amira percebeu, que fora desobedecer às ordens dele, ela poderia fazer qualquer outra coisa. Então ela estendeu a mão rapidamente e escondeu uma faca que ainda estava lá desde o café da manhã.

— O que pretende fazer com isso? — Franz disse distraidamente sem olhar para Amira. Ele realmente não a encarava como um adversário. Sendo esse o caso, ela não iria lutar tão casualmente.

— O que você quer afinal? — Amira perguntou.

Franz fechou os olhos para ouvir Amira falar como se estivesse apreciando uma orquestra famosa.

— Ah… você tem a voz como a sua mãe, apesar de um pouco mais mundana. Nada se comparava à voz dela… ou à de Nara… — ele falava como se estivesse perdido nas próprias lembranças, mas ao falar o nome de Nara ele despertou do devaneio e olhou incisivamente para Amira — Você precisa me dar o medalhão de Nara. Só eu sei como ela funciona, e só com ela podemos encontrar seus pais…

— Humpf. Para que esse teatrinho? — Amira perguntou sentindo o desgosto escapar por sua voz — Você acha que eu não vi a verdade por trás do seu feitiço? Você tentou manipular minhas memórias para parecer o bom moço, mas eu sei que você matou meu pai. Eu estava lá, esqueceu?

— Sim… é verdade… — Franz disse como se estivesse lembrando de um caso corriqueiro e não do assassinato do próprio irmão. — Mas sua mãe com certeza está viva. Ela não teria morrido apenas por conta de uma casa em chamas. Fogo não fere seres celestiais.


Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.
FONTE
Cores: