RdI – Capítulo 10 – 3Lobos

RdI – Capítulo 10

Franz Dáler

 

Amira não soube o que dizer ou fazer depois daquilo. A sensação de perigo ainda era enorme, mas além do feitiço que prendia seu corpo, a curiosidade também a deixou parada em choque. Ela abaixou a cabeça confusa e então disse:

— Eu não lembro do senhor. — agora que Amira parou para pensar, ela não se lembrava de quase nada, apenas que estava na sua festa de aniversário, do medalhão que tinha ganhado de presente e finalmente da escuridão molhada pela tempestade da floresta.

Mas no exato momento em que disse isso, um leve tom de felicidade apareceu na face rígida do homem. Amira não deixou passar despercebido. Ele abriu um leve sorriso, quase forçado como o de Amira. Parece que Franz também estava desacostumado a sorrir. Ele disse:

— Você ficou igualzinha a sua mãe, com certeza a cara dela, agora os cabelos são cacheados como os da nossa parte da família, com certeza.

Alguma coisa no tom de voz dele gritava para Amira a falta de sanidade e a obsessão. Mas, o feitiço que ele tinha lançado sobre ela ficou imensamente mais forte, deixando os pensamentos de Amira girando e fazendo com que ela tivesse que se esforçar muito mais para que conseguisse se concentrar direito.

— Você sabe o que é esse medalhão que está em seu pescoço? O medalhão de Nara?

— Nara?

Amira não entendeu. Por que essa pergunta agora de repente? Ele também sabia sobre o medalhão? Além do mais, essa pergunta… então o medalhão não era só uma joia de família como ela pensava ser? Mas o corpo de Amira estava querendo responder o que Franz estava perguntando, embora não soubesse o que dizer.

Amira começou a pensar. O que ela pensava que fosse a joia não era a resposta que ele queria. Mas de repente uma ideia lhe ocorreu. No fundo de sua memória havia um detalhe que ela nunca mais havia considerado, então, mais baixo do que já falava normalmente, ela respondeu, mais para si do que para ele:

— É uma chave…

Sua voz saiu tão fraca e baixa que seria preciso ler seus lábios, caso quisesse saber o que dizia, mas ele havia entendido. Amira ainda precisava se concentrar fortemente em não cair completamente no feitiço desse Franz. Mas embora “chave” não estivesse errado, também não era só isso. Mesmo Amira agora queria fazer muitas perguntas que achava mais urgentes.

Ele fez outra pergunta. Agora segurava a garota pelos braços, frente a frente, mas ela não lutou.

— E é uma chave para onde… você sabe Amira?

Era isso. Ele sabia que ela não estava completamente sobre o domínio dele, mas as perguntas pareciam sugá-la cada vez mais para dentro da perdição. Ela tentou forçar apenas uma fração de sua concentração nas profundezas de sua memória tentando descobrir a resposta para aquela pergunta.

Foi nesse momento que sua visão ficou completamente turva. Ela tentou se agarrar à realidade, mas era tarde demais. Ela havia sido apanhada pelo feitiço, e seus pensamentos rodopiavam dentro de sua memória em busca da resposta para a pergunta que ele queria. Então, uma lembrança tomou forma. Literalmente, tudo em volta de Amira mudou para outro ambiente, com outras pessoas, em outro tempo.

Amira olhou para as próprias mãos, pequenas demais, e o cabelo esvoaçava ainda na altura dos quadris. Ela olhou ao redor dela, enquanto rostos sorridentes e felizes olhavam para ela.

— Vamos filha, assopre as velinhas, papai vai lhe dar o seu presente daqui a pouco…

Um homem de repente estava segurando Amira nos braços, exatamente igual à foto que ela carregava junto ao peito durante toda a vida. Até mesmo o sinal abaixo do olho estava lá. Do outro lado dela, havia uma mulher exuberante. Amira ficou completamente encantada enquanto olhava para a mulher.

A beleza dela só podia ser descrita como mágica e irreal. Divina. A mulher sorria para Amira como se não houvesse nada mais precioso no mundo. Aquela era a mãe. Amira estava de volta nos braços de seu pai e sua mãe. E todas aquelas pessoas ao redor dela eram sua família e amigos.

Então a cena mudou. Amira estava sentada em cima de um balcão balançando alegremente os pés de um lado para o outro. Haviam apenas três pessoas dessa vez. Seu pai, sua mãe e um rapaz alto de olhar taciturno com os cabelos pretos e eriçados.

O pai abraçava a esposa com tanto carinho e amor, que Amira só podia imaginar que aquilo era a visão da felicidade. O rapaz estava ao lado de Amira, apoiando os cotovelos no balcão com um sorriso satisfeito. Para ele, também não parecia haver felicidade maior.

— Aqui está seu presente, meu tesouro! — O pai de Amira disse com uma expressão severa. — Eu nunca o daria para você se não confiasse que você já é especial o suficiente para cuidar dele. Prometa que você nunca, NUNCA, vai dar isso para ninguém, certo? — ele perguntou mantendo um olhar sério, para ter certeza que a filha havia entendido.

Amira ouviu a própria voz infantil responder ao pai, com um misto de alegria e orgulho:

— Tudo bem papai, eu prometo!

Então, a Amira criancinha pulou nos braços do rapaz de olhar taciturno, que sorriu ternamente de volta para ela, enquanto Amira dizia contente:

— Veja! Agora a vovó vai ficar feliz!

A cena mudou novamente…

— Eu não vou permitir! — Sons de batalha vinham por todo lado. O rapaz de cabelos negros e olhar taciturno segurava Amira nas costas protegendo ela com o próprio corpo enquanto ouviam os gritos em frente. — Você não vai colocar as suas mãos nela… não vou deixar que faça mal à minha filha. Pare com isso e saia da minha frente!

O pai de Amira duelava ferrenhamente contra… ele mesmo? Não… aquele era Franz. Franz estava atacando Bran com o olhar ensandecido de desejo e ambição em direção à Amira, enquanto Bran tentava a todo custo passar pelo irmão, mas também não se atrevia a deixar Amira para trás. O rapaz que protegia Amira do duelo estava acuado em baixo de uma árvore no jardim da propriedade, e também gritava:

— Por favor Pare!! PARE!!!

A pequena Amira de cinco anos não entendia o que estava acontecendo. Sua voz mágica e infantil também clamava pelo fim do duelo.

Quando a bela casa, onde a família de Amira era feliz, finalmente veio ao chão, foi que Amira percebeu que eles estavam cercados pelo fogo.

NÃO!!! — o pai de Amira gritou desesperado — NAOMI!!!

Mas nesse segundo de distração e desespero, Franz esticou sua espada contra o peito do irmão. A espada atravessou o corpo de Bran como se não fosse nada. Bran caiu para trás, aos pés do rapaz que protegia Amira. Os olhos suplicantes com uma dor profunda.

O rapaz gritou também em desespero e luto, e a cena mudou.

Amira olhou para as mãozinhas infantis dela manchadas com os respingos de sangue do próprio pai. Lágrimas começaram a escorrer dos olhos de Amira, e ao mesmo tempo do céu.

Os gritos de tristeza de Amira se confundiram com os trovões da tempestade. Aquela foi a última vez que ela chorou.


Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.
FONTE
Cores: