RdI – Capítulo 08 – 3Lobos

RdI – Capítulo 08

Sombras

 

Amira voltou para o seu quarto e trocou para a roupa de caça. Era um vestido curto, com uma calça de couro comum e um sobretudo surrado que usava para se camuflar entre as árvores. Amarrou na cintura um lenço por puro capricho, pois não se sentia bem sem ele e por fim calçou suas botas de couro de uma marta de fogo costuradas à mão que ela mesma tinha caçado.

Então, seguiu bocejando para o nível mais baixo da casa. Nessa altura, Breno e Bianca já estavam subindo de volta.

— Finalmente! — disse Bianca — Eu pensei que tinha se afogado em seus cobertores!

— Ha, Há! Muito engraçado.

Na mesa havia um prato pronto coberto com um pano para ela. Nele havia ovos mexidos e pães caseiros com queijo, e numa panela, havia um pouco de leite morno.

Amira sentou-se na mesa para tomar seu próprio café da manhã. E em menos de cinco minutos já havia acabado de comer cinco pães com ovos, duas xícaras de café com leite e um copo de suco.

Impressionado com a voracidade da amiga, Breno disse:

— Eu sei que você parece uma desesperada por comida às vezes, mas hoje já está demais. O que está acontecendo?

Ela o olhou, com uma cara de quem diz “não se meta”, mas assim que conseguiu esvaziar a boca disse:

— Nada demais, só pensei ter visto alguém agora pouco.

Os dois irmãos se olharam preocupados.

— Mas você não viu, viu? — perguntou Bianca.

— Era alguém conhecido? — Disse Breno.

Amira, que nesse meio tempo já havia colocado dois pães inteiros na boca de uma vez, já parecia estar interessada em encerrar a conversa, mas percebendo que os amigos não deixariam por isso mesmo, completou:

— Não foi alguém de verdade, foi só uma impressão. Achei ter visto… — bebeu mais um gole de suco, e terminou — Só pensei, por um segundo, ter visto um espírito ou coisa assim.

— Foi uma visão? — perguntaram Breno e Bianca ao mesmo tempo, ansiosos — Alguém que morreu? — completou Bianca assustada.

Amira levantou-se calada e esticou o corpo mais uma vez.

— Eu não sei… senti como se ele realmente estivesse aqui, mas tive um pressentimento ruim na hora.

– Você está mesmo querendo dizer que existem fantasmas querendo assombrar a nossa casa? – Bianca perguntou com medo.

— Certo. Então você está é ficando louca mesmo! — Breno explodiu de rir com a própria piada sem graça.

Ele acreditava em feras selvagens, pois elas eram capazes de arrancar a cabeça de alguém à dentadas, mas não tinha como acreditar em fantasmas. Mas parou logo depois que Amira virou o pote de água todo em cima dele, e então foi a vez das garotas rirem.

Antes do meio dia, Breno e Bianca voltaram para a vila. Tinham prometido para a mãe deles que estariam de volta para o almoço. Colocaram na bolsa de Breno o que tinham trazido de casa para despistar, enquanto Amira arrumava o próprio quarto, que tinha resolvido organizar para tirar da cabeça o vulto que estava vendo.

De lá de baixo, escutou os amigos gritarem:

— Amira, já está tarde, nós temos que ir!!!

— Já estou indo— respondeu de volta, mas embora tivesse tentado gritar, sua voz não saiu mais alta que o tom normal de qualquer pessoa.

— Pois então você nos acompanha, nós temos mesmo que ir! – Bianca gritou de volta.

Amira terminou de organizar suas coisas pouco depois. Com certeza conseguiria acompanhar os amigos, mesmo que tivesse demorado mais. Como não tinha nada para levar pra casa, apenas fez uma longa trança no cabelo, pois ele solto daquele jeito poderia ficar preso nos galhos.

Assim que terminou, sua trança estava tocando o chão de tão longa. Amira nunca tinha cortado o cabelo na vida, e mesmo que quisesse, não havia tesoura ou mesmo espada capaz de fazer isso. Então ela enrolou metade do comprimento em um coque e deixou a outra metade da trança solta.

Olhou em volta para ter certeza que não faltava mais nada e então desceu correndo as escadas para acompanhar os amigos. Levaria pelo menos uns quinze minutos para chegar até eles.

Amira passou pelo primeiro nível da casa tão rápido que qualquer um diria que nenhuma pessoa normal teria percebido que havia alguma coisa diferente, bem escondida do outro lado, perto do depósito.

Mas Amira percebeu. Percebeu, parou e olhou na direção que achava que devia. A sensação ruim que estava espreitando desde a noite anterior deu um salto em seu coração. Havia uma pessoa ali. Não era uma besta selvagem que tivesse imunidade à barreira de ervas que ela havia plantado ao redor da casa, ou uma sombra sem volume, mas um homem de verdade.

E ele estava sentado em uma de suas cadeiras, olhando para Amira, como se simplesmente devesse estar ali. Suas roupas estava absurdamente gastas e rasgadas. Ele usava um colete preto, completamente esfiapado sobre uma blusa cuja cor deveria ter sido branca em algum momento do passado. Suas calças tinham enormes rombos sobre cada um dos joelhos e suas botas pareciam ter perdido as solas.

Mas, apesar de sua situação, ele se sentava com uma postura elegante, que pedia respeito, como um nobre. Apoiada do lado de sua cadeira, estava uma bonita bengala preta com adornos dourados e luxuosos, e na sua mão esquerda havia um anel exuberantemente grande, de ouro, com uma pedra roxa que a destacava muito de sua aparência pobre.

Do outro lado de sua cintura, uma espada muito bela estava embainhada em sua cintura. A empunhadura era de prata e ouro, muito bem trabalhada, com uma bainha preta também muito lustrosa. Amira teve a impressão de que ele parecia um pirata ou um mercenário. Mas nada nele lhe dava a impressão de que poderia compará-lo às ralés que aportavam na vila.

Esse homem emanava uma sensação que Amira não sentia há muito, muito tempo.

Perigo.


Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.
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