RdI – Capítulo 07 – 3Lobos

RdI – Capítulo 07

Sombras

 

Antes de ser abandonada naquela vila, Amira morava em uma bela casa, com um enorme jardim em que costumava brincar com uma espécie de cachorro branco que quase sempre andava ao lado dela. Sua mãe sempre se sentava embaixo de uma enorme árvore e ficava a olhando de longe, e mesmo assim a garota se sentia protegida.

Já o pai de Amira trabalhava muito, principalmente durante a tarde, por isso, sempre que podia, passava as manhãs brincando com ela e as noites ao lado da esposa que tanto parecia amar. Amira sempre se lembrava dessas coisas enquanto esperava o sono cair. Porém quanto mais tentava se lembrar, tanto mais se esquecia.

Suas visões se embaralhavam com suas lembranças, e de fato, Amira já não sabia mais distinguir o que era sonho ou o que tinha realmente acontecido em sua vida antes de completar seus cinco anos de idade. Tudo era muito confuso ou fantástico demais, até mesmo para ela.

A única lembrança que Amira tinha certeza que era real é a de seu aniversário de cinco anos, na mesma noite em que foi abandonada. Um rapaz, que estava na festa, havia agarrado ela nos braços e a levado para longe, no meio de uma chuva tão forte e pesada que parecia ter transformado o dia em noite.

Mesmo que não fosse muita coisa, Amira já tinha contado praticamente tudo oque sabia de si mesma para seus amigos. Ela se lembrava que era de uma família aparentemente rica e que vivia feliz em um lugar completamente diferente da vila, do rio e da floresta. Uma das coisas que ela mais gostava era de uma joia que ganhara naquele fatídico aniversário de cinco anos.

Era um enorme relicário, muito bem feito, de um metal alvo prateado, completamente adornado com fios de ouro e pedrarias de várias cores diferentes. A corrente era dupla, uma de ouro e outra de prata, e tão comprida que precisava prendê-la em três voltas ao redor do pescoço, para que ficasse com um tamanho bom.

Dentro dela havia uma pequena foto. Os pais de Amira. A mulher era basicamente um resumo da garota por serem exatamente iguais, exceto pelos cabelos, que ondulavam por cima de seus ombros, mas ainda sim metálicos iguais à prata.

O homem era muito bonito e elegante. Parecia ser bem alto, mas um pouco magro para seu tamanho. Os seus cabelos eram cacheados e negros. O seu rosto era fino e comprido, seus olhos bem contrastantes, profundos, passavam uma sensação de acolhimento e humildade, além de um pequeno sinal que tinha exatamente do lado do olho esquerdo, que Amira também tinha.

Bem abaixo da foto, havia uma inscrição com o nome dos dois: “Naomi e Franz”. Amira tinha tanto apego ao medalhão, que apenas ela e Liana sabiam da existência dele. Com certeza, a repulsa que as pessoas do vilarejo sentiam dela não se aplicariam a jóias preciosas.

O relicário havia sido dado por seu pai como presente, exatamente antes de ela ser levada para longe de casa, pelo garoto que não se lembrava quem poderia ser, mesmo que se esforçasse para isso.

A luz do sol entrava pela varanda e banhava o cômodo com um delicioso calor matinal. O dia tinha sido bem divertido apesar de terem discutido.

Amira se levantou preguiçosamente após uma relativa boa noite de sono. E a essa altura da manhã, Breno e Bianca já deveriam ter levantado, pois gostavam de acordar cedo.

Amira era muito boa para arrumar as coisas, exceto o próprio quarto, e excelente para construir, inventar e aprender, mas não tinha o menor sucesso na cozinha, embora pudesse inventar qualquer tipo de receita deliciosa só pensando nos ingredientes. Entretanto, na prática, Amira conseguia transformar um único fósforo em um verdadeiro incêndio por puro acidente. A única exceção era preparar deliciosos biscoitos e assar peixes, o que ela fazia muito bem.

Arrastando os pés, e andando com os olhos quase fechados, tamanha sua falta de coragem, Amira foi até a varanda e começou a olhar as pessoas distantes da vila seguindo seus caminhos para o trabalho.

As crianças já estavam pulando no rio e se divertindo, enquanto uma fila de senhoras carregavam suas enormes trouxas de roupa suja pra lavar na beira d’água. Para muitas destas senhoras, essa era a única fonte de renda, incluindo Liana.

Breno e Bianca também estavam se divertindo na água, banhando perto da nascente. Amira desceu as escadas para ir ao encontro a eles.

Ao chegar no primeiro nível, a sensação ruim que estava sentindo na noite anterior voltou um pouco mais forte. Várias vezes, Amira teve a impressão de ver um vulto soslaio, mas quando virara o rosto, o vulto do que quer que fosse já havia desaparecido. Ela tinha aprendido a dar uma atenção especial aos seus pressentimentos pela experiência que tinha com a perseguição dos garotos.

Sentia que qualquer coisa muito grande, com o qual ela estava esperando, estava próxima a acontecer. Mas mesmo assim, Amira acabou fingindo deixar pra lá, por não conseguir sentir exatamente o que era aquele vulto. Além disso, o sono fazia seu corpo querer voltar para a cama quase que inconscientemente, mesmo após ter descansado o suficiente e dormido bem. Alguma coisa não estava cheirando nada bem.


Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.
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