RdI – Capítulo 06 – 3Lobos

RdI – Capítulo 06

Partir?

 

Ao fim da tarde, os três amigos já estavam finalizando os últimos pontos da casa na árvore e retornaram para a vila. Pararam primeiro na casa de Liana para um jantar reforçado e uma deliciosa sobremesa preparada por Bianca.

Eles precisavam descansar e pegar quaisquer ultimas coisas que precisassem para a “festa de inauguração” que seria no dia seguinte. Antes do fim do crepúsculo, o casal de irmãos desceu para a casa dos pais, que ficariam desconfiados se eles ficassem muito tempo fora.

Um dos maiores sonhos de Amira era sair pelo mundo à procura de pessoas como ela ou de lugares que ela pudesse ser mais aceita. Ela almejava, mais do que tudo no mundo, poder conhecer outros lugares e aprender coisas novas. Saber mais e mais, conseguir entender por que ela era daquele jeito tão diferente e o que mais havia de diferente no mundo.

E o que a empurrava eram as centenas de pessoas que a repudiavam como se fosse o pior dos seres, mas, uma coisa muito maior que eles a segurava naquele pedaço de fim de mundo: Breno, Bianca e Liana, que sempre tinha sido uma verdadeira mãe.

O dia seguinte mal começou e os dois irmãos, Breno e Bianca já tinham saído. Embora tivessem se esforçado muito e contado algumas mentiras. eles conseguiram convencer seus pais a deixar que saíssem e rapidinho já estavam na casa da árvore, que ajudaram Amira a construir.

Os três, muito animados, demoraram quase toda a manhã para organizar coisas que haviam trazido. Cada um ficou em seu respectivo quarto, que aliás já tinham muitas e muitas coisas que eles estavam acumulando à medida que construíam os cômodos e os móveis.

Talvez por causa de um parcial abandono da limpeza, ou talvez porque a casa simplesmente se recusava a ficar limpa, mas o s três amigos demoraram muito mais tempo que o previsto limpando e tirando o pó da casa.

Cada um dos andares da casa era um cômodo diferente. E cada um dos quartos pertencia somente à um deles.

O quarto de Breno era o mais ao leste, o menor e o que tinha menos coisas. Além da cama, havia apenas um baú onde ele guardava as roupas e uma estante com algumas caixas cheias de cacarecos inúteis, a maioria quebrados, mas que ele relutava em jogar fora por razões que nem mesmo ele sabia.

No meio ficava o quarto de Amira. Embora fosse o maior, era o que tinha menos espaço. Havia uma cama, um armário, um baú, dois criados mudos, uma estante cheia de livros, uma penteadeira com um banquinho, uma poltrona de retalhos, uma mesa, duas cadeiras, prateleiras em toda a extensão livre da parede, um sofá, um balcão e um cabide, além de um inestimável acúmulo de bagunça espalhada pelo chão durante semanas.

O quarto de Bianca era o mais arrumado e aconchegante. Sua cama estava sempre bem arrumada, e suas coisas nunca estavam onde não deviam. Como ela era a que passava menos tempo naquele lugar, ela tinha apenas duas mudas de roupa que usava para não sujar as que trazia vestida de casa.

O lugar era tão belo e aconchegante, que se pudessem, morariam ali mesmo. Havia muitas árvores frutíferas ao redor da clareira, e como não tinha muitos predadores na floresta, graças ao conhecimento de ervas que Amira tinha para afugentar monstros grandes daquela parte da floresta, tinha muitos animais pequenos que Amira caçava para as refeições.

Tinha água bem fria da nascente para beber, e de alguma forma ela esquentava quando passava para a laguna e se tornava perfeita para relaxar, brincar ou apenas tomar banho.

A construção era quase totalmente escondida pelos densos galhos da grande árvore, deixando apenas algumas das partes mais baixas visíveis. Até mesmo a luz das lamparinas era abafada entre as folhas.

A noite tinha chegado surpreendentemente rápido, o cheiro do jantar preparado por Bianca preenchia todos os cantos, enquanto Breno acendia os lampiões para iluminar a casa.

Quando finalmente se aquietaram, foram jantar no último patamar da casa, acima dos quartos, construído na parte mais alta que ainda era segura.

De lá podia-se ver toda a vila, de ponta a ponta, e as pessoas andando calmamente aproveitando a brisa da noite. Mas ninguém se preocupava em olhar para o lado deles, e mesmo que olhassem, não poderiam vê-los.

Bianca estava servindo o jantar em uma mesinha baixa quando Breno chegou com as almofadas gigantes e Amira apenas assistia o desmanchar da noite, sem se importar com o trabalho dos dois. Vez ou outra, um grupo de fadas passava voando, dançava ao redor do lampião, e iam embora.

Então, um vulto sombrio surgiu do nada no meio da clareira. Por apenas alguns segundos percorreu de um lado para o outro e desapareceu. Amira se levantou de uma vez, assustada.

— O que está te preocupando? — perguntou Bianca, estranhando a amiga.

Amira relaxou a postura e olhou para Bianca por um momento, parecia que ia dar uma resposta bem malcriada, quando virou a cara, esfregou o rosto com as mãos e disse, um pouco estressada:

— Não é nada de muito importante… acho…

— Quando você fica desse jeito, sempre acontece alguma coisa. E você sempre sabe o que é — rebateu Breno. Amira tinha um sentido premonitório notável. Era realmente fácil de acreditar que ela não era exatamente uma humana.

— Dessa vez eu não vi o que era — disse de um modo tão frio, que surpreendeu os garotos —, muito provavelmente era só algum animal maior atraído pelo cheiro do jantar. De qualquer forma não vai subir aqui em cima.

Assim que acabaram de recolher o jantar, Bianca retirou-se para seu quarto, balançada de sono, mas Breno, em vez de descer para o seu, entrou no de Amira.

Teve um certo trabalho de conseguir chegar até ela e se sentar sem pisar em nada, com o chão cheio de trecos e mal iluminado. Quando ele entrou, Amira disse sem olhar pra ele:

— Nós dois já nos formamos na escola… temos que arrumar uma desculpa pra nos falarmos!

Breno ficou calado, pensando no assunto. Ele e Bianca eram os únicos de toda a família que costumavam ir para a casa de Liana, e mesmo assim, ainda seria muito difícil manter uma comunicação entre os três, já que ele teria que começar a trabalhar e Bianca não tinha permissão de sair de casa sem estar acompanhada.

— A gente podia abrir o jogo com nossos p… — Breno começou a falar.

— Isso não é uma opção! — Amira a cortou logo. Não ajudaria em nada se algum dos dois comentasse com alguém sobre a sua amizade, principalmente com os pais deles — Seus pais nunca aceitariam. Você só estragaria a sua vida.

— Eu acho que estragaria mais a minha vida se eu me permitisse perder você. — Breno disse zangado.

Amira olhou contrariada e sem jeito. Os três ficaram em silêncio, até que ela finalmente falou:

— Nesses últimos dias eu tenho tido uma sensação estranha, diferente… um pressentimento…

— Não tem ideia do que pode ser?

— Não tenho ideia nem se eu vou ficar esperando!

— O que você quer dizer com isso? É aquela história de sair da vila de novo? — Breno perguntou.

— Talvez, mas eu não sei ainda — ela deu um sorriso desanimado. — Talvez eu realmente não seja desse mundo como todos dizem…

— Isso não é motivo pra ir embora.

— Ta… me convença, então! Quantas pessoas você conhece que conseguem dizer linha por linha, todos os livros que já leu? Que de certa forma consegue saber o futuro, ou o que as pessoas estão pensando ou sentindo? E isso só para começar! Eu não pertenço a esse lugar, Breno, nem a essas pessoas!

— São essas pessoas que estão perdendo por não darem o devido valor à você. Se não fosse pelo seu conhecimento botânico de ervas repelentes e por saber andar pela floresta, a vila já teria sido engolida há muito tempo pelas bestas selvagens. Mas ainda assim, você tem a gente. Tem a vovó!

— Não é isso que eu…

— A vovó abriu mão de muita coisa para ficar com você e nem por isso eu a vejo arrependida. Você é a melhor pessoa que qualquer um poderia ter como amiga… Você não está perdendo nada por poder ser diferente! Se você é diferente aqui, vai ser em qualquer lugar. E não importa se você é uma mulher de verdade ou um sagui!

Amira apoiou a cabeça em uma das mãos e riu. Não se sentia muito bem com sermões, mas precisava admitir que Breno estava certo.

— Mesmo assim, isso não nos dá uma solução. — Amira disse desanimada.

— É simples, se você quer partir, iremos com você. Eu irei. — Breno falou.

— Breno, por favor… Você já viu a cara dos aventureiros e dos errantes que passam pela vila descendo o rio. Você não aguentaria levar aquele tipo de vida.

— Se eu me arrepender, basta eu arrastar você de volta! — ele disse com firmeza.

— Como se você fosse capaz. — Amira provocou.

Breno suspirou cansado. Ele não queria discutir.

— Eu vou dormir… E o que quer que você esteja pressentindo, nós vamos encarar juntos.


Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.
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