RdI – Capítulo 05 – 3Lobos

RdI – Capítulo 05

Resgate

 

Depois do encontrão, Amira se levantou, sacudiu a poeira da roupa e passou por ele como se nada tivesse acontecido, e como se ele nem estivesse ali. Ela estava a vários metros de distância quando Breno gritou:

— Espere!!! — Porém, ela continuou a caminhar, ignorando-o. — Por favor espere… — Breno já estava com lágrimas nos olhos. Sempre havia escutado horrores dela mas não tinha para quem pedir socorro.

Amira parou de caminhar mas não olhou para trás. Estava surpresa por ter ouvido alguém pedir algo a ela — com educação.

— Me ajude, eu preciso de ajuda… — Breno suplicava, embora tivesse certeza que ela seguiria em frente continuando a ignorá-lo.

Ela se virou e olhou para ele. Podia ver os sentimentos dele em seus olhos. Podia sentir sua angústia. Mesmo tendo sempre sido pisada, ela não conseguiria deixar de ajudá-lo, para a surpresa dele.

— Minha irmã está perdida na floresta há dias, — Breno quase gemia as palavras. — Não há ninguém que tenha coragem de entrar na floresta… só você. Me ajude a achá-la.

Amira sabia quem era Bianca, pois as vezes eles iam até sua casa visitar Liana. Nos últimos dias tinha até mesmo notado um movimento diferente na vila, mas como não ia até as pessoas, não sabia o que estava acontecendo.

Ela pegou na mão de Breno e o levou por uma trilha que ele não conhecia, que saia exatamente nos fundos da casa de Liana. Ele relutou, mas acabou entrando. Liana também não sabia do desaparecimento da neta, e levou um choque quando Breno contou.

Nesse meio tempo, Amira aprontava uma bolsa com materiais de primeiros socorros, agasalhos, água e querosene para uma lanterna à óleo.

Breno armou uma briga com a avó para ir atrás da irmã junto com a garota, enquanto ela apenas olhava a discussão indiferente ao resultado.

— Tudo bem, você vai, mas obedeça a Amira, e não saia de perto dela, ela conhece toda a floresta e tenho certeza que encontrará a Bia — concordou a avó, e em seguida se dirigiu a filha, — E você, eu sei que é capaz, mas tome cuidado com Breno, não perca ele de vista.

Os dois saíram na noite escura e fria sobre os pedidos de cuidado de Liana. Um pouco mais à frente, Amira parou, virou-se para Breno e perguntou:

— Já a procuraram em todas as trilhas abertas?

Breno levou um susto.

— Você fala?!

— É isso que te importa agora?— ela retrucou com rispidez.

— Já, já… Disseram que ela deve ter ido floresta adentro, além das trilhas dos monstros, — Breno baixou a cabeça para responder.

Amira entregou a lanterna a ele e continuou sem dizer mais nada. Exatamente no lugar onde eles trombaram, continuaram até onde as buscas conseguiram ir. Amira eventualmente parava, olhava ao redor e depois continuava mais um pouco. Até chegarem em um lugar onde ela saiu da trilha.

Passaram quase quinze minutos caminhando no escuro por onde era quase impossível se passar. Às vezes, Amira parava, observava os arredores, voltava, seguia em frente, e mudava de direção de uma hora para outra.

— Você está perdida. Estamos perdidos também. — Breno desesperou-se.

Mas Amira continuou andando sem aparentar ter ouvido o que ele disse. O caminho era muito escuro e a luz fraca da lanterna era suficiente apenas para se enxergar alguns palmos à frente, e para todo lugar que se olhasse só se via árvores idênticas.

Já de madrugada, Breno não sentia mais os dedos por causa do frio e batia os dentes descontroladamente. Tinha certeza absoluta que estavam perdidos, andando em círculos há horas e que morreriam ali, quando Amira parou.

Desatento, ele acabou trombando com ela de novo. À frente deles havia uma depressão em que não se dava para ver o fundo com aquela luz fraca. Algumas fadas dançavam de um lado para o outro. Amira estendeu a mão para as fadas, elas pousaram de leve e levantaram voo de novo.

— Espere aqui…— disse bem baixinho e começou a descer segurando as raízes.

De cima, Breno teve a impressão de que Amira brilhava, pois podia vê-la perfeitamente sem a luz da lanterna. Quando finalmente chegou ao fundo, ela caminhou um pouco, e parou novamente.

— Encontrei ela, — disse passivamente.

Breno já ia descer também quando ela o advertiu:

— Se você tentar descer, vai cair. Fique aí, pela manhã quando estiver claro, você vem.

Amira jogou um dos agasalhos para Breno, e com o outro cobriu Bianca. A menina estava viva, mas azul de frio e possivelmente com hipotermia.

Pela manhã, Breno desceu a depressão e foi ao encontro das garotas. Amira já havia limpado e feito curativo na maioria dos ferimentos, e havia coberto a menina com todos os agasalhos que tinha, inclusive os que estava usando.

A volta demorou muito menos tempo, embora estivesse mais difícil por estarem carregando Bianca, que estava desacordada. No meio do caminho, Amira disse:

— Eu não quero que diga a ninguém que eu te ajudei.

— Mas todos estão errados a seu respeito, precisam saber que…

— Escute, não é tão simples assim… Como você vai dizer a todos que uma criança achou a sua irmã? Eu já sou vista como uma estranha… Ficaria muito grata se contasse a todos que foi você que a achou.

— Mas… eu também sou uma criança, então qual a diferença? — Breno a tocou no braço e sentiu sua pele fria. Amira havia passado a noite no relento por eles e não pediu nada em troca. Talvez até tivesse ficado doente. — Não tem nada errado em falar com as fadas!

— Fadas não falam. — Amira cismou. — Apenas faça o que eu mando. Diga que você simplesmente saiu da trilha e foi em linha reta para o norte, além da fronteira e acabou topando com ela. Ninguém vai lá, vão acabar acreditando em você.

Amira acompanhou Breno e Bianca até onde não havia ninguém, e sumiu antes que o garoto pudesse dizer alguma coisa. Ninguém além dos três e Liana ficou sabendo da verdade. Bianca, por sorte, acabou ficando boa em menos de uma semana. Tinha bebido orvalho e se alimentado de raízes e sido vigiada pelas fadas à noite.

O começo da amizade entre os três foi tenso para todos. Amira era desconfiada e insegura, e os irmãos ainda levavam consigo todos os preconceitos e superstições que se espalharam por todos na vila. Mas Breno acreditava que a menina fosse uma boa pessoa, humana ou não, e resolveu tentar, levando junto a irmã. Amira foi a última a ceder à amizade, mas acabou aceitando e confiando na presença deles.


Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.
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