RdI – Capítulo 04 – 3Lobos

RdI – Capítulo 04

Desaparecida

 

— Amira, eu sei que você é bem mais madura do que parece, e nem é porque o Pedro é um crianção que vive enchendo o saco e que toda vez que você vê ele, precise dar uma coça!

Amira abriu um leve sorriso zombeteiro de novo. Breno balançou a cabeça desaprovando, mas não podia ser levado a sério, pois ele mesmo já estava sorrindo também.

— Qualquer dia desses alguém ainda vai se machucar e o Pedro, por mais arruaceiro que seja, é meu amigo. Não vai ficar nada bem de olho roxo. Ele nem viu o que aconteceu! Você podia pegar mais leve… Se acontecer de novo, apenas fuja…

O final da tarde chegou rápido com os últimos acertos da enorme casa da árvore. Os três amigos estavam construindo em segredo há mais de 5 anos e era muito maior e mais bem feita que boa parte das casas da vila.

Liana, que era mãe adotiva de Amira, bem como a avó de Breno e Bianca, era a única que sabia da pequena aventura dos garotos, já que nenhum outro adulto aprovaria, principalmente por causa da presença de Amira.

Os três se tornaram amigos desde muito cedo, mas nunca deixaram transparecer qualquer relação entre si para as outras pessoas. Uma das razões era que Breno era realmente o melhor amigo de Pedro, mas Pedro não gostava nem um pouco de ter que lidar com as duas garotas.

Outra razão era a própria insistência de Amira, que não gostava das pessoas da vila, mas não queria que seu isolamento também fosse reservado aos amigos por sua causa. Nem mesmo os pais deles sabiam dessa amizade, e se soubessem, poderiam ter um ataque de pânico.

Amira conversava com os dois amigos, apesar de sua voz ser muito fraca, que se tornaria quase inaudível, não fosse o estranho efeito que tinha sobre quem a escutava. E esse era um detalhe muito peculiar. Apenas quem ela quisesse conseguiria escutá-la, independente da distância, ou da presença de outras pessoas. Quase como se suas palavras fossem guiadas por telepatia ou alguma outra mágica que não era conhecida naquele pequeno fim do mundo.

Amira possuía uma dicção incrível para quem falava apenas e exclusivamente com Breno, Bianca e sua mãe.

Outro motivo pelo qual Amira não gostava de falar perto de outras pessoas, além do fato de fingirem que ela não existia quando estava por perto, era justamente essa interpretação de sagrada ou profana que todos faziam dela.

Uma voz que não soava como humana não ajudava nem um pouco a sua situação nessa vila de humanos. E uma voz que não soava como humana tão pouco a ajudaria em uma vila portuária constantemente visitada por traficantes de escravos.

Há seis anos, quando voltava do rio para casa de Liana, Amira foi seguida por um grupo de viajantes interessados pela aparência exótica dela. Os homens foram à loucura quando ouviram a voz perfeita e mágica dela perguntar “Por que estão me seguindo?

Homens como aqueles já viajaram por muitos lugares e conheceram diversas mulheres de diferentes raças. Sabiam exatamente quem pagaria muito bem por um exemplar tão exótico como aquele, e com um excelente potencial para virar uma mulher magnífica quando crescesse. Era um pequeno tesouro ambulante.

Os oficiais da vila não levantaram um dedo sequer para ajudar. Mesmo que ninguém tivesse coragem de vender informações sobre ela para os traficantes, ninguém teria coragem de ir contra eles, tampouco. Amira, sozinha e sem ajuda, fugiu dos homens que a ameaçavam para a Floresta Sem-Fim.

Permanecer na trilha seria inútil, pois eventualmente eles a alcançariam. Amira então se lançou floresta adentro embrenhando-se entre os galhos peçonhentos que rasgaram sua roupa e sua pele até ter certeza que não estava mais sendo seguida. Mas cega pela vontade de fugir e não voltar mais, continuou correndo até eventualmente chegar na clareira.

Alguns dias depois houve uma reunião na assembleia da vila. Amira e os sete homens do grupo haviam sido vistos entrando na floresta e nenhum deles tinha saído. Discutiam se deveriam fazer alguma oferenda, ou enviar um grupo de buscas.

Mas quem teria coragem de entrar naquela floresta em busca de uma garota que não sabiam se era bom ou mau agouro e um grupo de mercenários? Então decidiram fazer uma oferenda para a floresta apenas para o caso da menina ser mau agouro, e quem sabe isso poderia apaziguar seu espírito e deixar tudo por isso mesmo.

Quando Amira sentiu que era seguro retornar, toda a vila ficou em choque. Para uma criança daquela idade entrar na floresta e retornar dias depois sem nenhuma parte do corpo faltando, principalmente enquanto estava sendo caçada. Decidiram pelo bom senso não se meterem com ela.

Mas esqueceram de avisar isso para a pequena Bianca. Quando Amira começou sozinha o projeto para a casa naquela grande clareira escondida na floresta, para se livrar das pessoas más do mundo como dizia à sua mãe, ninguém em toda a vila tinha coragem de entrar na floresta, além das trilhas, pois facilmente se perdiam e nunca conseguiam abrir caminho além das árvores, há não ser que muitas delas fossem derrubadas, porém temiam que isso irritaria os espíritos da floresta e eles com certeza trariam retaliações.

Foi quando Bianca, com apenas 8 anos na época, acabou tentando seguir Amira. A tentativa acabou sendo inútil como a de todos que tentaram, e a menina terminou se perdendo no meio do caminho.

Bianca ficou desaparecida por dois dias inteiros, sozinha, presa entre as árvores quando grupos de busca foram organizados para tentar encontrá-la, mas em vão. Ninguém ousava entrar na parte desconhecida da floresta. Onde quer que ela tivesse ido, todos se convenceram que os monstros provavelmente haviam devorado até mesmo seus ossos.

Breno, naquela época, era muito apegado à irmã, e tinha sido obrigado a ficar em casa para não atrapalhar as buscas. Quando completaram cinco dias, o desespero da família era inconsolável.

Ao pôr do sol, do sexto dia, os grupos já haviam desistido de encontrá-la. Se encontrassem, seria no máximo os restos deixados por alguma fera que a devorou. Não havia sentido tomar mais riscos. Ao ouvir a decisão, Breno saltou escondido pela janela de seu quarto e correu em direção a floresta sem que ninguém percebesse.

Já estava ficando escuro quando virou à esquerda em uma árvore e deu um encontrão com Amira, e os dois caíram de costas para o chão. Breno levantou-se depressa e olhou a garota assustada. Só não sabia quem estava com mais medo de quem.

Naquele momento de desespero, ele cedeu e pediu ajuda a ela.


Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.
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