RdI – Capítulo 03 – 3Lobos

RdI – Capítulo 03

A casa na árvore

 

Breno caminhava sozinho floresta adentro. Ele sabia perfeitamente que Pedro detestava qualquer tipo de trabalho manual e nunca trocaria uma tarde de diversão no rio com a galera por qualquer tipo de tarefa, mesmo que fosse para ajudar um amigo. Mesmo Breno que já era tido como preguiçoso e desleixado, só era visto fazendo trabalhos para ajudar a sua avó, já que ninguém mais se dignava a fazer.

Ele estava caminhando por uma trilha horrível e pouquíssimo usada, mas em certo ponto parou. Completamente imóvel. Apurou os ouvidos prestando atenção a cada farfalhar suspeito, se certificando de que não havia ninguém o seguindo ou por perto que por acaso estivesse passando.

O que ninguém poderia esperar é que, no instante em que ele se certificou que estava completamente sozinho, ele saiu saiu da trilha. Embrenhou-se por entre as árvores que cada vez mais fechavam o caminho. Elas cresciam tão perto uma das outras que já se tornava impossível prosseguir a pé.

Habilidosamente, o garoto começou a subir em uma das árvores que estava em sua frente, firmando em um de seus galhos mais altos e prosseguiu o restante do caminho passando de árvore em árvore, que estavam devidamente podadas para a passagem de alguém, como uma ponte invisível dos que andassem a pé – não que alguém fosse se arriscar andar por esse lugar.

Ninguém entrava na Floresta Sem-Fim.

Quando finalmente chegou ao ponto que queria, desceu quase em cima de uma poça de água bem cristalina da qual apenas quatro pessoas sabiam da existência, e apenas três já tinham visto pessoalmente. Alguns metros mais à frente, a densa floresta simplesmente se abria em uma grande clareira com apenas uma única e enorme árvore exatamente em seu centro.

Era sem dúvida a maior árvore de toda a região. Seu tronco era tão grosso que seriam necessárias mais de dez pessoas com os braços estendidos para abraçá-la, e a copa da árvore estava há mais de dez metros de altura do chão.

Parcialmente escondida no meio da folhagem, estava a mais magnífica casa da árvore já feita. A sua parte mais alta estava há pelo menos trinta metros do solo.

Quase todo o chão da clareira era coberto por uma laguna muito rasa, onde as partes mais profundas, que ficavam na nascente, não ultrapassavam dois metros de fundura.

Era uma água muito límpida, cheia de peixes e tão pura, que minúsculas ondinas apareciam para dançar com as ondas. Havia apenas pequenas coroas de areia que ligavam a ilhota de raízes da árvore ao resto da floresta, pouco espaçadas entre si.

Grandes cipós grossos cheios de folhas e flores faziam uma cortina em volta do tronco. Em algumas partes, escondidas entre as folhas, haviam pequenas flores silvestres de plantas que se aproveitavam para crescer na grande árvore, conferindo um aroma confortável ao lugar, escondendo aqui e ali tocas de fadas cintilantes.

Havia uma garota sentada em uma das enormes raízes, usando outro tipo de cipó mais resistente para fazer uma grande corda, movendo agilmente os dedos e formando um trançado.

Uma extensa escada com degraus feitos de grossas toras rústicas subia em espiral ao redor do tronco para a parte mais baixa da casa, que por sua vez, ligava-se à outros andares, apenas pelos próprios galhos grossos que foram adaptados com corrimões e pequenas pontes de corda.

Breno se sentou ao lado de Bianca, sua irmã mais nova. Ela era muito parecida com ele, exceto pela popularidade na escola. Os longos cabelos negros e de pontas incertas estavam soltos e balançavam levemente ao toque da brisa da tarde. Nos seus 14 anos, já sabia de tudo o que precisava para ser uma boa esposa e dona de casa, o grande destino de todas as boas moças de família da vila Schuyler.

– Cordas de novo? – Breno disse.

– Cordas de qualidade nunca são o suficiente. Principalmente numa vila portuária. Sempre podemos trocar alguns metros por dinheiro ou materiais que precisamos com os marinheiros. – ela disse calmamente, sem tirar os olhos do trabalho.

Um som de marteladas vinha de cima. Breno esticou as pernas, abençoou rapidamente a irmã com um beijo na testa e subiu pelo tronco da árvore até o primeiro patamar.

Esse era toda a varanda. Embora não desse para ser visto de fora, podia-se ver toda a clareira de lá por entre as folhas. De um lado tinha apenas uma mesa, cadeiras, um armário com louças e um varal onde estavam penduradas algumas panelas. Do outro lado havia um depósito construído para lenha e ferramentas.. Tudo evidentemente e incrivelmente feito a mão.

O tronco, de onde subiu, começava a se dividir naquela altura e com ele havia três caminhos, cada um levando a um novo andar. Breno escolheu o do meio, o mais alto e de onde vinha o barulho.

Quando entrou, outra garota estava lá construindo uma pequena mesa de centro redonda. Ali havia também algumas cadeiras, esculturas de barro e madeira, uma cama, junto com uma mesinha de cabeceira, tudo feito por ela.

Ele puxou uma das cadeiras e se sentou ao lado dela. A garota permaneceu indiferente à ele sem parar com seu trabalho até que finalmente Breno falou:

— E ai… o que tem a me dizer? — perguntou, com a cara amarrada.

Mas ela, como esperado, apenas o ignorou. Não deu nenhuma resposta, apenas um suspiro de impaciência.

— Mas que droga, Amira! Dá pra colaborar um pouco por favor?


Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.
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