RdI – Capítulo 02 – 3Lobos

RdI – Capítulo 02

Amira

 

Amira, o alvo de Pedro, tinha um senso de defesa magnífico. Porém ninguém na escola olhava para ela com bons olhos, exceto um ou outro professor que já tinha viajado pelo mundo e visto raças além do que as pessoas daquele lugarzinho conheciam.

Sendo a única mulher a cursar as disciplinas de combate, e com apenas 14 anos, Amira estava se formando como a melhor aluna que já havia passado por aquela escola. Além disso, nunca tinha dado motivos para ser castigada e sempre chegava pontualmente na aula com todos os deveres em ordem.

Amira era adotada pela avó de Pedro e Breno. Mas ninguém, nem mesmo entre os viajantes mais experientes, já tinha visto alguém igual a ela.

Há quase dez anos, depois de uma terrível tempestade que durou três dias seguidos e quase destruiu todo o vilarejo, ela havia sido encontrada na entrada da Floresta Sem-Fim.

Todos os chefes locais desaprovaram a adoção da menina pela velha Liana. Alegavam que uma aberração como ela não deveria ser humana. Enquanto uns diziam que ela provavelmente tinha sido despachada como sacrifício e seria problemático se algum deus viesse buscá-la, outros alegavam que ela deveria ser sacrificada por eles mesmo.

Porém, o medo das origens da menina fez com que ninguém tivesse coragem de erguer a própria mão para enviá-la de volta para a requisição da floresta.

Superstições à parte, a aparência de Amira era o que mais atrapalhava em ser aceita. Era o principal motivo pelo qual as pessoas a desprezavam e temiam sua presença. E para piorar, ela não poderia existir em pior contraste: enquanto todos da vila eram morenos e queimados pelo sol, com cabelos negros e lisos e olhos amendoados, Amira era alvíssima.

Não branca como as pessoas que tinham a pele clara e rosada, mas literalmente branca e absolutamente pálida, ou aqueles albinos que nasciam sem pigmentos no corpo. Era mais como se tivessem derramado um balde de tinta permanente sobre ela. Como um fantasma que havia perdido todo o sangue e a cor da vida.

Seus cabelos eram prateados. Literalmente metálicos. Alguns acreditavam realmente que fossem fios de prata pura e perfeitamente trançados, reluzentes como joias desde que tesoura nenhuma era capaz de apartar aqueles fios.

Já seus olhos eram um caso à parte. Não eram azuis, nem verdes, nem castanhos. Se quer tinham uma cor definida, pois a cada hora mudavam e cintilavam de acordo com a luz.

Amira não era feia. Pelo contrário, há menos de um mês de seu aniversário de 15 anos, tinha uma beleza exótica, exuberante, muito além do que uma silhueta bem apanhada. Ninguém negava suas belas feições, e a temiam mais ainda por isso, com medo de serem enfeitiçados por ela.

Ela não era humana, todos diziam. Mas algo que meramente assumiu tal forma. Alguns até diziam que ela era um raio que se personificou durante a grande tempestade que caía quando ela apareceu.

Sua exclusão era levada tão a sério, que existia uma lei subentendida em que ninguém deveria lhe dirigir a palavra. Mesmo os professores não faziam nenhum teste oral, ou perguntavam qualquer coisa durante as aulas para Amira. A situação ficou tão séria que de nunca falar, acreditavam até mesmo que Amira era muda. O preconceito se estendia até sua mãe, que praticamente só era visitada pelos filhos e apenas em situações especiais, como aniversários, natal ou emergências.

Apesar de um certo medo de ofender alguma divindade desconhecida, os problemas de Amira eram tantos, que ela aprendeu a se defender bem rápido de algumas agressões constantes da péssima convivência que tinha com as outras crianças. Tinha uma sensibilidade sobre as coisas ao seu redor que era vista por muitos como algo próximo à premonição.

Sua agilidade, força e velocidade também eram muito temidas pelos mais supersticiosos. Ela era capaz de escapar ilesa de qualquer investida que a ameaçasse, mesmo se estivesse completamente cercada por todos os lados, como já acontecera inúmeras vezes.

Pedro sentia um ressentimento especial por ela, que mesmo vítima de péssimos boatos, estava sempre no centro das atenções, mais do que ele. Por isso, ocupava-se em tentar encontrar uma forma de expô-la o máximo possível.

Amira se virou para Pedro e, como sempre, sem dizer nada, abriu um ligeiro sorriso zombeteiro, desdenhando abertamente, olhando-o de cima a baixo e virando a cara, repudiando o garoto. Rapidamente uma roda formou-se incentivando Pedro à briga.

No impulso e com as mãos sujas de lama, Pedro partiu para cima da garota brandindo os punhos. No segundo seguinte estava completamente imundo, caído de cara na lama.

Breno, que tinha feito o maior esforço para entrar no meio da roda, começou a bronquear aos berros:

— Parem com essa infantilidade. Toda vez é a mesma coisa. Se continuarem insistindo, eu vou ser obrigado a parar os dois!

Ele virou-se para Amira com um olhar fuzilante, irado, que faria qualquer um se encolher de medo e então se virou para Pedro, ajudando-o a se levantar. A garota por sua vez, mudou a expressão sarcástica de divertimento, para um olhar sério e raivoso. Ela deu meia volta, cedendo à ameaça e se dirigiu para a estrada, sem olhar pra trás com as pessoas se acotovelando para saírem de seu caminho.

Quando todos começaram a se dispersar, Breno começou a reclamar aos sussurros com seu primo:

— Não é porque você é meu melhor amigo que eu vou começar a gostar dessas brigas. Isso não faz bem para a nossa imagem. É você que sempre apanha dela. Uma garota! Vai acabar queimando seu filme. Cara! Hoje foi o nosso último dia, nossa formatura! Era para ter encerrado com chave de ouro.

Pedro estava completamente ensopado e com uma expressão de quem comeu limão azedo e não gostou. Fingindo que não tinha escutado o que o outro estava dizendo, tratou logo de mudar de assunto:

— E aí, você vem ou não vem pro rio? Vai estar todo mundo lá comemorando a formatura!

Breno respondeu conformado:

— Não vai dar. Eu prometi ir procurar lenha para a vovó, vou passar a tarde toda na floresta, mas se você quiser vir comigo, pode ser que eu termine mais cedo.


Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.
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