RdI – Capítulo 01 – 3Lobos

RdI – Capítulo 01

Os Viana

 

A vila Schuyler ficava no encontro dos rios Azarento e Marrom, que desciam a serra para formar as corredeiras do Rio Faminto.

Apesar da pequena população, o porto era constantemente movimentado por viajantes à procura de uma passagem segura entre as águas ou a floresta. Ao redor da vila, a Floresta Sem-Fim crescia além do que qualquer pessoa já havia conseguido explorar.

Dizem que a floresta era povoada por feras terríveis, espíritos agourentos e deuses sanguinários, que às vezes viravam seus olhos para eles apenas para se divertirem, enquanto assistiam o festim de sangue dos viajantes, enquanto nos rios, sereias escondiam-se nas baias e devoravam as almas dos solitários.

A escola local era simples, sem muito alcance. Os alunos ficavam tempo suficiente para aprender o básico, mas a real educação era treinando nos ofícios da família, ou tornando-se oficiais que protegiam a vila e orientavam aventureiros.

Aquele era o último dia de aula naquela escola. Os alunos mal se aguentavam sentados em suas carteiras, esperando o início oficial das férias, sentindo a brisa morna da tarde que corria solta.

Quando finalmente o velho sino da escola começou a badalar, um pequeno mar de cabeças começou a encher o enorme pátio exterior da escola.

Os Viana eram uma família com uma longa linhagem de oficiais dentro da vila. Breno e Pedro Viana eram primos e melhores amigos. Passavam boa parte do tempo livre na escola juntos e se tratavam como irmãos. Ambos tinham dezoito anos e estavam se formando na escola aquele ano.

Apesar da idade, por causa do comportamento imaturo de Pedro e do modo desleixado de Breno, eles não eram levados a sério como futuros oficiais da vila.

Os dois eram a dupla de garotos mais popular entre a geração jovem, e embora fossem os causadores das maiores confusões, estavam empatados em segundo lugar entre as melhores notas dos formandos.

Tudo o que faziam era motivo de fofocas, mesmo entre os professores. Eram tão badalados, que qualquer coisa que fizessem era imediatamente copiada pelo povão.

Breno era muito mais calmo que Pedro, embora muito desorganizado e sem compromisso. Pedro era bem mais atentado e inquieto e sempre fazia questão de estar no centro das atenções, fazendo uso de sua incrível criatividade para bolar brincadeiras e pegadinhas.

Fazer parte do “grupo de estudo” dos primos Viana era uma honra muito disputada e para isso era necessário muito empenho. Pedro, por adorar brincadeiras, inventava uma nova, como desafio, para cada um que se quer ousasse mencionar o desejo de estar entre eles.

Porém os três principais requisitos eram: a aprovação das garotas, pois o charme era indispensável; notas no mínimo muito boas, principalmente para os que queriam seguir carreira como oficiais, necessário para driblar a cobrança dos adultos; e um espírito livre e corajoso para participar das aventuras.

O final das aulas coincidia com o início do verão quente e chuvoso. Por isso, muitos estavam combinando de ir ao rio Marrom, que estava nas melhores condições para nadar, para comemorar a tão esperada graduação.

O grupo dos primos Viana, com um total de quinze pessoas, se juntou debaixo de uma grande árvore no pátio, para se refrescarem. Algumas pessoas ainda saíam pelos portões da escola e sempre acenavam para os garotos.

O sol estava bem quente aquele dia, embora tivesse passado a manhã inteira chovendo. O chão de terra estava lamacento e cheio de poças d’água e aqui ou ali, alguém se tornava vítima de chacotas por culpa de um escorregão na lama fresca.

A última pessoa a sair da escola foi a única garota que não tentou desesperadamente ser notada por eles, como todas faziam. Ela saiu da escola segurando seus livros entre os braços, com a cabeça erguida e passos elegantes, quase como se estivesse dançando, sem nem mesmo desviar seu olhar na direção do grupo.

Assim que ela passou em direção à estrada, Pedro pediu silêncio, abaixou-se sobre uma poça, fez uma bola de lama e bem devagar, o mais silenciosamente possível, se aproximou da garota e atirou com uma mira perfeita ignorando os gestos frenéticos de advertência de Breno.

A roupa limpa dela teria sofrido um grande estrago se, no exato momento em que o tiro iria acertar bem no meio de sua cabeça, ela não tivesse inclinado graciosamente a cabeça um pouco para o lado bem a tempo, o suficiente para desviar da sujeira.


Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.
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