PA – Capítulo 9 – 3Lobos

PA – Capítulo 9

Tudo no supermercado é de graça no dia do juízo final

 

 

Estava muito quente.

A menos que alguém pudesse experimentar na pele, o calor estava totalmente além da imaginação. Assim que o suor aparecia, imediatamente evaporava, seguido então pela próxima onda de transpiração. A pessoa se sentia como se todo o seu corpo estivesse lutando para mantê-la viva, como um cachorro velho em seu leito de morte, ofegando rapidamente em meio ao ar extremamente quente.

Em contrapartida, Lutero parecia muito mais forte. Mesmo que ele estivesse carregando a Marcie, ele definitivamente estava se saindo melhor que a Sanji. Ele também tinha percebido isso, e perguntou em voz alta:

— Ei… Seu… corpo, está ficando mais forte?

— O quê? — Sanji gritou. O som dos motores ao redor deles era muito alto. Lutero tinha acabado de descer do carro, estando do outro lado, mas ainda assim ela teve dificuldade para ouvi-lo.

— Eu disse… — Lutero andou ao redor do carro e caminhou na direção dela. Marcie era mais alta que ele, então enquanto ele a carregava nas costas, os pés dela estavam quase tocando o chão. — Você sentiu seu corpo ficando mais forte?

Ela mal tinha falando até agora, apenas uma única palavra, mas mesmo assim, Sanji podia sentir que sua língua estava completamente seca. Estava tão seca que ela podia sentir o ressecamento em sua laringe. Ela não se atreveu a abrir a boca novamente. Ela balançou a cabeça apenas, insinuando a Lutero que eles deviam continuar andando. O rosto de Lutero revelou sua surpresa, e ele queria dizer algo… mas era essa uma boa hora para conversa inútil? Ele rapidamente acenou com a cabeça enquanto eles começaram a andar através da fila de carros que estava cuspindo ar quente.

Sanji tinha que limpar os olhos a cada poucos passos. Ela estava suando demais, e o suor tinha acabado de escorrer dentro dos olhos dela. O calor era insuportável. Ela não podia deixar de duvidar de si mesma. Haveria um tempo limite durante o qual a sua habilidade de Resistência ao Calor era eficaz? Se não fosse isso, o que poderia explicar por que ela não tinha sentido tanto calor quando começaram, no entanto, estava suando profusamente agora?

Se as coisas continuassem dessa maneira, será que ela conseguiria chegar no supermercado antes de morrer por desidratação?

Os dois olharam ao redor em silêncio. Havia uma barreira de altura mediana no centro da rua, que separava a sentido da via em ambos os lados. No entanto, nesse tempo de crise, não havia muitas pessoas que ainda respeitassem as leis de trânsito. Atualmente, os carros estavam completamente desordenados. Alguns estavam na direção correta, enquanto outros estavam presos na contramão…

Se eles tivessem que pular por cima dessa barreira, seria não só desgastante para seu corpo, mas ainda tinha o problema de carregar a Marcie. Além do mais, se eles tivessem que continuar andando por aquela fila de carros e o calor dos motores novamente, isso ia definitivamente causar a morte deles.

Sem nem mesmo discutir, eles mudaram de direção e foram para o final da fila de carros.

A pessoa que estava dirigindo a Land Rover era uma mulher magra. Quando os dois passaram andando pelo carro, Sanji notou que a motorista estava recostada dentro do carro. A motorista tinha os olhos fundos e já estava inconsciente — ela provavelmente já devia estar desidratada e sucumbindo em confusão devido a isso. Devia ser esse o motivo que ela bateu o carro.

Quanto ao carro pequeno, cuja frente tinha sido arruinada, era certo que o aparelho de ar condicionado no carro estava estragado agora. Milagrosamente, graças ao ar fresco que tinha sido mantido, o gordo de meia-idade dentro do carro ainda estava vivo. Desde o momento em que os dois haviam saído carro, ele estava os observando atentamente.

Quando Sanji passou ao lado do carro dele, o homem gordo de repente olhou na direção dela e bateu na janela do carro algumas vezes.

Para falar a verdade, Sanji não era uma pessoa totalmente insensível. No entanto, ela sentia como se estivesse derretendo, e ela nem sabia por quanto tempo conseguiria suportar a atual condição. Sem chance então dela ter um pingo de compaixão, ela apenas olhou para o homem gordo com uma cara irritada.

Por detrás do vidro, a voz do homem gordo soou abafada e difícil de entender:

— Ai fora… quente… ainda dá para andar?

Sanji conseguia adivinhar o que ele estava querendo perguntar, ela acenou com a cabeça indicando que ele não podia. Depois de responder, ela continuou andando. O ar quente que o carro soltava fazia a situação que já era ruim ficar ainda mais insuportável. Ela realmente não aguentava não se afastar do carro.

Quanto ele viu ela indo embora, o gordo ficou bravo e abriu a porta do carro.

— Estou falando com você. Pode parar aí mesmo! Você não está andando normalmente, eu — antes que pudesse terminar de falar, ele abruptamente emitiu um grito estridente.

Aquele grito ensurdecedor estava repleto de agonia, e era ainda mais alto que o barulho dos motores dos carros. Sanji virou a cabeça rapidamente. Ela notou que uma série de bolhas tinham aparecido na pele do homem gordo nas partes que estava diretamente exposta ao terrível calor do lado de fora.

As bolhas vermelhas em sua pele estouraram. Elas estavam por todo o rosto e mãos, era como se ele tivesse sido escaldado por água fervente. Era algo medonho ver as bolhas estourarem e revelar as partes da pele machucada. Seus gritos dolorosos continuaram. Sanji não conseguiu ignorar a situação. Agarrou em Lutero para se estabilizar, levantou a perna e chutou o homem de volta para dentro do carro. Depois disso, bateu a porta do carro.

Imediatamente, os gritos dolorosos pararam. Vendo que as queimaduras do gordo não estavam piorando, a ofegante Sanji trocou olhares em pânico com Lutero.

A eficácia da habilidade dela não tinha diminuído, afinal de contas. A verdade era que a temperatura externa já tinha atingido um nível assustador — era um nível que a mistura dos gases da exaustão dos carros e o ar quente ao redor já era o suficiente para causar queimaduras em uma pessoa normal…

— Pare de pensar sobre isso. Vamos! — Até mesmo Lutero, que falava demais, estava falando pouco.

Os dois saíram então às pressas da fila de carro. Depois que deixaram as centenas ou milhares de motores ligados para trás, eles finalmente se sentiram um pouco melhor. Eles atravessaram a rua e caminharam para a calçada, que tinha várias árvores, e sem perder tempo eles foram diretamente em direção ao shopping.

As folhas das árvores já tinham perdido a sua coloração verde e estavam agora pretas, secas e murchas, todas no chão debaixo das árvores. Sanji conseguia ver, frequentemente, vários corpos caídos ao chão. Cada centímetro de pele estava coberto de queimaduras, e eles já não mostravam nenhum sinal de que estavam respirando.

Não importa quão forte ela era, esta era a primeira vez que Sanji via tantas pessoas mortas ao mesmo tempo. Se sentindo um pouco temerosa e enjoada, ela tentou engolir a própria saliva algumas vezes, mas sua boca estava seca, não havia sequer uma pitada de umidade.

— Vamos beber a última lata de coca-cola! — A voz rouca de Lutero soou por trás dela.

Sanji pensou por um momento antes de tirar a lata de coca da mochila. Mesmo que a coca não hidratasse como água, haveria comida e água mais do que suficiente no supermercado. Não tinha motivo nenhum para eles continuarem sofrendo e se torturando aqui do lado de fora. No passado, ela nunca conseguia beber uma lata inteira de coca de uma única vez, mas agora ela até achou que a quantidade era simplesmente pouca demais. Sem se importar com o gosto, dividiram a cola quente e terminaram a lata.

Depois de jogarem a lata fora, eles caminharam por um tempo antes da entrada do shopping center finalmente e gradualmente aparecer cada vez mais e mais perto.

A fonte que anteriormente nunca parava agora estava seca ao ponto de estar toda rachada. Parecia que água nunca havia fluido através dela. Entretanto, os poucos corpos na fonte que estavam olhando para baixo provaram que a fonte tinha sido o seu último raio de esperança. Os desordenados cadáveres no chão com peles queimadas criavam uma cena macabra.

Sanji baixou a cabeça, evitando cuidadosamente os cadáveres no chão, pulando sobre eles enquanto avançava. Quando ela olhou para frente, percebeu que Lutero, embora carregando a Marcie, tinha conseguido passar na frente dela de alguma forma.

Quando ela estava se perguntando como ele conseguia andar tão rapidamente, ela imediatamente viu sua resposta. Como se isso não o incomodasse, Lutero pisou sobre o corpo de uma mulher que parecia ser uma jovem mãe. Ele andava em direção ao shopping como se estivesse andando no chão normal.

Sanji apressou o passo e conseguiu alcançar ele. Ela bateu no braço dele com raiva.

— Dá para ter um pouco mais de respeito com os mortos? — Essa única frase fez sua garganta ficar tão seca que machucava.

Lutero foi surpreendido por ela. Ele pareceu um pouco perplexo por um momento antes de reagir.

— Oh, oh! Isso… Desculpa. Eu já devo ter visto cadáveres demais. Eu sou provavelmente um pouco insensível quanto a isso. — Ele parecia um pouco arrependido enquanto mostrava seus dentes de coelho. — No início, eu era como você.

Vendo que ele parecia arrependido, Sanji não disse nada mais, mesmo que ela ainda se sentisse desconfortável. Ela mudou de assunto:

— Só temos que andar até ali, onde tem aquela escada rolante indo para baixo!

Lutero assentiu com a cabeça. Em seguida, ele olhou o shopping e suspirou levemente.

— Este lugar é realmente bonito… — Sem parar, ele seguiu Sanji enquanto eles caminhavam para o supermercado.

Sanji tinha ouvido falar que o shopping foi projetado por um famoso arquiteto francês. Tinha cinco andares de altura. Havia uma cavidade no centro do shopping, e uma densa folhagem de plantas tropicais tinha sido plantada lá. Provavelmente devido a um projeto estrutural estratificado, as árvores tropicais cresceram até alcançar o quinto andar. Ao caminhar por ali, parecia que eles estavam passeando por uma floresta primitiva.

Porém, este não era o momento para apreciar tudo isso. Sanji olhou rapidamente para a floresta tropical, sentindo que algo estava errado, mas ela não sabia dizer o que era no momento. Ela balançou a cabeça e desceu correndo a escada rolante.

Só que quando eles viram o supermercado, ambos ficaram assustados.

A situação era pior do que o que Sanji tinha antecipado. Ela sabia que ela não seria a única que pensaria no supermercado. Mas a situação aqui estava, definitivamente, além de sua expectativa.

Enquanto a temperatura aumentava na noite anterior, o supermercado obviamente ainda estava funcionando, e estava cheio de pessoas. Obviamente, todas as pessoas estavam mortas agora. Os seus corpos imóveis e silenciosos caídos no chão. A cena aparentemente congelada em frente deles capturava o caos que se seguiu na noite anterior. Haviam garrafas vazias espalhadas para todos os lados. Garrafas de água mineral, bebidas… havia manchas secas de suco de frutas espalhado por todo o chão bege. A seção de bebidas parecia saqueada enquanto as últimas garrafas de água estavam jogadas nas prateleiras. Muitos dos cadáveres no chão abraçavam firmemente as garrafas de bebidas, cobertas de sangue e outro fluidos corporais.

A coisa mais chocante era que a morte do operador de caixa claramente não era devido à desidratação. Havia uma ferida profunda na parte de trás da sua cabeça. O aparelho de caixa registradora estava completamente aberto e estava vazio.

Lutero estalou sua língua duas vezes, desaprovando aquilo.

— O ladrão deve estar se sentindo um completo estúpido agora!

— Se ele ainda estiver vivo. — Sanji estava com muita sede. Ela pegou uma garrafa de água de um dos cadáveres que estava na entrada. Ela bebeu meia garrafa ruidosamente, sem se preocupar com qualquer convenção social, e então passou a garrafa a Lutero.

Mesmo que o supermercado estivesse cheio de cadáveres e uma completa bagunça, pelo menos a comida e a água que ainda estava sobrando deveria ser suficiente para sustentar os três. Lutero já estava se sentindo muito cansado após carregar Marcie por todo o trajeto. Ele a colocou no chão reclamando:

— Se ela não é de carne e osso, por que ela é tão pesada…

Sanji estava descansando em um caixa que não tinha nenhum cadáver. Ouvindo isso, ela perguntou:

— Eu queria perguntar isso antes… mas como a Marcie estava por perto, então não era apropriado. Quando o degenerado falou que ela era feita de sangue e carne falsa, o que isso quer dizer?

— Ela é uma das minhas personalidades que tomou forma corpórea, de certa forma, ela é um ser humano independente, — Lutero explicou enquanto bebia água. — Mas, o grau de ‘realismo’ é controlado pela força da minha capacidade… Minha habilidade não é tão forte atualmente, vários aspectos da Marcie não são tão… hum, realistas.

Lin Sanjiu assentiu com a cabeça e não continuou com a conversa. Depois que os dois tinham tomado bastante água, eles descansaram por um tempo, e logo em seguida eles sentiram a sensação de fome desconfortável em seus estômagos vazios.

— Vamos dar uma olhada na seção de comida? — Sanji sugeriu.

— Espere, — Lutero interrompeu ela. Ele olhou em volta e perguntou, — Há algo aqui que nós podemos pegar e usar como arma?

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.
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