PA – Capítulo 6 – 3Lobos

PA – Capítulo 6

E o resultado da primeira luta é… fugir!

 

 

— Você é novata, então ainda não sabe disso…. — Marcie disse rapidamente, ela estava falando muito rápido. — Existem duas formas para se adaptar a um Novo Mundo, dois caminhos para os humanos.

— Ah Gu? —  Uma voz gutural parecendo perplexa, soou de novo da guarita de guarda.

— Você, Lutero e eu, todos nós pertencemos ao primeiro tipo de evolução. Quanto aos que pertencem ao segundo tipo, nós os chamamos de degenerados[1].

Sanji ergueu a cabeça distraída. Ela ainda não fazia idéia do que estava acontecendo.

Enquanto Marcie se apressava para terminar de falar, a maçaneta da porta, iluminada pelo flash do celular da Sanji, começou a girar lentamente. Com um ‘clique’, a porta se abriu.

Marcie respirou profundamente.

— Um degenerado fará qualquer coisa para sobreviver. Como não tenho habilidades de combate, nós dependemos de você para derrotar o degenerado. Caso contrário, não sobreviveremos a isso! — Suas palavras dispararam rapidamente como uma metralhadora. Assim que terminou de falar, saltou para a árvore ao lado deles, antes que Sanji pudesse reagir.

Sanji olhou para o local de onde Marcie tinha desaparecido, estupefata. Então, ela olhou para Lutero que estava deitado no chão. Ele sorriu para ela resignado, mostrando o seus dentes salientes.

— Tia, eu não consigo me movimentar… pare de olhar para mim, o degenerado está vindo!

Ela se atrapalhou ao pegar o celular para apontar a luz para a porta da guarita. Quando Sanji viu a porta, empurrou goela adentro a vontade de falar “Não me chame de tia!”. Ela nunca tinha visto algo tão nojento antes…

A pele, marrom-escura e viscosa, estava enrugada e grudada ao esqueleto. Nas articulações, o excesso de pele tinha se acumulado formando camadas. A criatura tinha encolhido para metade do tamanho de um humano normal — além de ossos e pele, não havia nenhum músculo em todo o seu corpo. Era como se todo o músculo tivesse sido extraído. Mas o pior de tudo, o que dava mais arrepios, era a cabeça que mal se assemelhava à de um humano. Onde deveria estar o nariz e a boca, agora havia uma boca longa e delgada, parecida com uma probóscide[2] de um mosquito. À medida que o degenerado se aproximava, saliva escorria gota a gota daquela ‘boca’ mais parecida com uma agulha.

A criatura, que mal se parecia com um ser humano, ainda estava vestindo o uniforme de guarda de segurança, entretanto, o uniforme era simplesmente grande demais para o seu corpo atual, e antes mesmo de dar dois passos o uniforme já tinha caído no chão. Não tinha pálpebras, seu olho girava dentro da cavidade em seu crânio. Os olhos do degenerado se fixaram na Sanji.

— Gu…. Você é tão bonita…

Inesperadamente, a boca de mosquito parecida com uma agulha conseguia produzir sons humanos.

— Sua pele parece tão macia… Deve estar tão úmida…

Sanji estava paralisada. Ouviu então, de repente, um sussurro no chão ao lado dela.

— Tia, nós contamos com você!

A voz não era a do Lutero. Sanji olhou para o lado e descobriu que não era o bonito rapaz preso debaixo do portão. Ao invés, em seu lugar, estava uma menina de aparência inocente de cerca de 10 anos de idade. Ela tinha as bochechas rosadas e parecia uma menina do interior.

Parece que uma das habilidades de Lutero é mudar de aparência. Além do mais, a aparência que ele assume provavelmente depende seu alvo. — Assim que o pensamento passou pela sua cabeça, Sanji respondeu indignada:

— Eu também estou ferida! — Rapidamente andou dois passos para trás. Quando ela se moveu, Lutero apareceu. Sob a fraca luz do flash, seu rosto tinha uma expressão a beira das lágrimas.

O degenerado, que mais parecia um cadáver dissecado, parou por um momento ao ver Lutero.

Sanji mudou sua posição discretamente.

— Irmã? — O cadáver dissecado andou dois passos para frente de repente. O movimento súbito assustou Sanji, que recuou mais um metro, completamente alerta. No entanto o degenerado nem sequer olhou para ela. Seu par de olhos expostos olhava fixamente para Lutero.

— Irmã, o quê você está fazendo aqui?

O cadáver definhado estava muito perto. Antes mesmo de terminar de falar, a saliva já tinha escorrido da sua boca e caído sobre o rosto do Lutero. Ele tremeu com nojo, mas ainda assim conseguiu controlar sua expressão perfeitamente.

— Irmão, eu vim aqui procurando por você… Ajuda, me ajuda. O portão de metal está me machucando…

As lágrimas escorriam dos olhos brilhantes da menina, enquanto ela continuava:

— Irmão, levante o portão… Eu quero me levantar.

O  degenerado hesitou por um momento, refletindo sobre pensamentos desconhecidos. Ele ignorou o pedido de ajuda de Lutero e suspirou em uma voz baixa.

— Irmã, você não devia ter vindo. Você não devia ter vindo…

Percebendo que o cadáver estava completamente distraído, Sanji correu para a árvore onde Marcie estava e acenou com suas mãos. Sinalizou para Marcie algumas vezes —  se afastando ainda mais enquanto sinalizava.

Marcie saltou silenciosamente para uma árvore próxima, deslizou pelo tronco da árvore e correu para se juntar a Sanji.

Que bom que o monstro manteve a sua racionalidade e natureza humana, caso contrário a situação teria sido bastante complicada.

Esse pensamento tinha acabado de aparecer na cabeça de Sanji, quando o degenerado virou sua cabeça para o alto, emitindo uma série de zumbidos altos e intensos. Surpreendentemente, ele conseguiu balançar sua boca afiada agilmente no ar algumas vezes, ao fazer isso, tudo em volta foi coberto com sua saliva.

— Mas irmã, eu estou muito feliz! — Ele continuou com um zumbido estridente, sua voz estava alegre. — Os fluídos corporais de um membro da família são um ótimo suplemento para o seu irmão… Eu estou tão feliz. Nem precisei ir para casa, e você já veio aqui sozinha, sem precisar que eu fizesse nada!

Essa declaração arrepiante assustou todos os três profundamente. Nenhum deles poderia imaginar que Lutero seria tratado como um pedaço de carne indefeso. Quando Lutero percebeu que o cadáver definhado levantou a cabeça avidamente, ele gritou assustado:

— Marcie, me salve!

— Não! — Antes que Sanji pudesse impedir, Marcie já tinha passado correndo por ela. Sanji ficou tão furiosa que bateu o pé no chão antes de correr na direção oposta.

Entretanto, A decisão de Marcie era a correta. Assim que a ponta afiada estava prestes a perfurar o peito de Lutero, ela acertou violentamente a boca com suas unhas metálicas.

A boca foi empurrada para cima enquanto as unhas de Marcie, que pareciam fortes, quebraram em pedacinhos e caíram por todo chão. Elas serviam, afinal de contas, apenas para retirar sangue.

Diante da pequena obstrução, os olhos expostos do cadáver dissecado viraram-se para Marcie. Não tinha sequer o menor interesse por ela, ao invés disso, ele zuniu:

— Some daqui! Carne e sangue falso … Irmã, estou chegando … — Quando abaixou a cabeça, parou. — Hã? Quem é você? Onde está minha irmã?

Num piscar de olhos, Lutero, que estava caído no chão, transformou-se em um cadáver magro, de pele seca e marrom, com uma boca grande e longa como a de um mosquito.

Os dois cadáveres se olharam por alguns segundos.

— Você absorveu a minha irmã caçula? — Talvez, o degenerado não fosse tão inteligente. Quando percebeu que a carne da sua irmã que estava prestes a consumir tinha desaparecido, sua boca vibrou rapidamente em fúria. — Gu…Argh…Gu… Agh… Eu vou te matar!

Dessa vez, ele moveu sua boca muito mais rápido. Quanto Marcie estava prestes a bloquear com seu braço, o cadáver girou a boca para o lado e a empurrou. Marcie voou para trás, caindo pesadamente no chão.

Lutero fechou os olhos quando viu a boca afiada se aproximar novamente, preparando-se silenciosamente para sua morte iminente.

Do nada, ele ouviu um barulho de motor e uma pancada alta, e a ferida que estava esperando não aconteceu. Lutero imediatamente abriu os olhos. Ele viu Sanji pisar no freio urgentemente depois de atropelar a criatura, e parar o carro ao lado do portão de metal. Ao mesmo tempo, o cadáver foi arremessado a metros de distância pelo Audi.

Sanji abriu as portas e pulou para fora do carro. Enquanto ela colocava as mãos no portão de metal gritou para Marcie.

— Marcie! Rápido! Venha e dirija o carro!

O cadáver levantou-se furiosamente, aproximando-se deles em passos largos. Ser arremessado pelo carro não tinha causado machucado algum. O zumbido raivoso parecia ainda mais agudo, mas Marcie estava atenta. Assim que Sanji saiu do carro ela correu em direção a eles.

Uma luz branca brilhou na mão de Sanji algumas vezes. O corpo dela pingava suor como se estivesse debaixo de um chuveiro. Seus braços tremiam cada vez mais, mas o portão não dava sinal algum de que iria desaparecer.

Marcie se jogou dentro do carro e usou uma das mãos para abrir a porta traseira gritando ansiosamente:

— Rápido! Rápido! Ele está nos alcançando!

— Não dá pra ver que eu estou tentando?

Foi extremamente difícil para Sanji pronunciar as palavras. Finalmente, quando a luz branca brilhou mais forte, o portão de metal desapareceu por 2 segundos. Entretanto, logo em seguida apareceu novamente e caiu no chão com uma barulho alto, levantando uma nuvem de poeira.

— Eu não consigo! — Ela estava ofegante e prestes a se sentar no chão de tão cansada.

— Entre no carro! — A voz de Lutero soou bruscamente atrás dela.

Acontece que o Lutero conseguiu sair debaixo do portão quando o mesmo tinha desaparecido por um momento. Ele entrou correndo no banco de trás. Assim que virou e olhou, viu o cadáver se aproximando de repente, lançando sua boca à frente em direção a Sanji.

— Abaixe-se!

Sem tempo nem mesmo de virar a cabeça, Sanji se jogou ao chão. Ao mesmo tempo, Marcie chutou a porta do carro, bloqueando mais uma vez a boca do cadáver definhado, que bateu contra janela de vidro da porta.

*Bamm!*

Vidro quebrou-se em mil pedaços. Neste intervalo de tempo, Lutero já tinha puxado Sanji para dentro do carro. Sem nem mesmo fechar a porta, gritou:

— Vai, vai vai!

Ao ver o cadáver se jogar contra eles novamente, Marcie virou o volante de uma vez. O carro passou ao lado do cadáver, e eles ouviram algo arranhando a lataria do carro…

Ela pisou fundo no acelerador, e o Audi ganhou velocidade, deixando o cadáver para trás.

As pessoas dentro do carro só conseguiram se acalmar depois de fecharem a porta. No momento, Lutero e Sanji olhavam pela janela traseira. O telefone da Sanji tinha se perdido na entrada do condomínio durante a confusão, e sob a luz embaçada do flash do celular, eles podiam ver o cadáver os seguindo por alguns passos. Ao ver a distância entre eles crescer, ele finalmente desistiu. O cadáver parou para pensar por um momento, antes de se virar e entrar no complexo residencial.

Provavelmente não haveria nenhum outro sobrevivente no Complexo Residencial Rongjun.

— Aparentemente, a fraqueza dos degenerados daqui é a lentidão de movimento, — Marcie disse enquanto limpava o suor e olhava no espelho retrovisor.

Sanji deu aos dois uma garrafa de água cada, das que ela tinha armazenado no carro. Ela mesma bebeu meia garrafa de água. Continuou sentada no carro, espantada, sem saber o que falar. As coisas que aconteceram hoje, em apenas algumas poucas horas, simplesmente pareciam um sonho…

— Obrigado, —  disse Lutero timidamente, sentado ao lado dela, depois de beber dois goles d’água. Mostrou novamente seus dentões:

— Agorinha mesmo, você poderia ter fugido sozinha e me deixado morrer. Obrigado por arriscar sua vida para me salvar…

— E parece que nossa coordenação é muito boa! — Eles podiam ver, pelo espelho retrovisor, o sorriso de Marcie enquanto levantava uma de suas sobrancelhas.

Ela mal os conhecia, mas já tinham lutado uma batalha de vida ou morte juntos. Olhando para as duas pessoas, Sanji sorriu pela primeira vez hoje.

— Acho que sim. E então, podemos falar desse maldito mundo agora?

 

 

Nota do tradutor:

[1] “Degenerado”, Duoluozhong no original, também pode ser traduzido como ‘caído’.

[2] “Probóscide”, (https://pt.wikipedia.org/wiki/Prob%C3%B3scide)

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.
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