PA – Capítulo 5 – 3Lobos

PA – Capítulo 5

Crise Iminente

 

 

— Argh… — A mulher no chão gemeu baixo. Isso foi o suficiente para quebrar a atmosfera tensa. — Ai… Isso doeu um bocado.

Sanji sentiu os olhos tremerem ao ver sua mãe se levantar e esfregar a parte de trás da cabeça. A situação estava ficando problemática. Dois contra um. Isso sem contar que o outro grupo tinha um homem forte, e Sanji estava tão cansada que seus braços estavam fracos. Ela não tinha uma única habilidade que podia usar para se defender.

A ‘Senhora Lin’ se levantou e alongou o pescoço. Quando ela se virou para encarar Sanji, já tinha se transformado em um homem jovem que aparentava ter 17 ou 18 anos.

— Ah, droga, olha a nossa sorte? Com tanta gente que ainda tem os pais vivos, fomos encontrar justamente uma órfã… — o rapaz nem sequer olhou para Sanji, mas na verdade reclamou com seu companheiro.

O ‘Senhor Lin’ concordou com a cabeça enquanto saía do quarto. Logo em seguida, ‘Senhor Lin’ se transformou em uma mulher ruiva de meia idade, que perguntou em um chinês fluente:

— Ela conseguiu te machucar?

O rapaz sorriu mostrando seus dentes brancos.

— Claro que não, ela não é tão forte assim.

Vendo que os dois conversaram naturalmente um com o outro, agindo como se ninguém mais estivesse presente, Sanji se sentiu deprimida. Inclinou-se para trás sutilmente e perguntou com a voz trêmula:

— Vocês dois também são de um Novo Mundo?

A pergunta atraiu a atenção do rapaz.

— Huh? Então você já sabe disso? Nós realmente te subestimamos. Foi por isso que você atacou sem misericórdia agora mesmo, né? Humm. Eu notei que você já evoluiu um pouco, seu potencial de crescimento deve ser bem alto. — A maneira de falar do garoto era rápida e animada, como se estivesse falando do seu jogo preferido. Se ele não tivesse tentando enganar Sanji, se disfarçando como sua falecida mãe, ela realmente teria sido pega desprevenida.

— Minha amiga… está realmente morta?

O rapaz gesticulou despreocupadamente.

— Tem uma pessoa no banheiro. Ela está muito desidratada, parece que estava tentando  beber água. Mas acho que há uma seca aqui? De qualquer forma, não saiu uma gota d’água sequer da torneira. A aparência… não é agradável. Eu recomendo que você não olhe.

Lágrimas escorreram descontroladamente. Sanji rapidamente limpou o rosto enquanto continuava a observar as duas pessoas em sua frente. Deu outro passo para trás.

Ela já tinha conhecido Ren, que era um pós-humano[1] de um Novo Mundo. Inesperadamente, encontrou mais dois deles. Não podia deixar de se sentir extremamente receosa perto deles.

— Se vocês não mataram minha amiga, por que estão aqui? Por que tentaram me enganar para entrar no apartamento?

O rapaz abriu os braços e respondeu:

— Não é como se a gente pudesse escolher onde iríamos aparecer quando chegamos aqui. Foi muita sorte aparecer nesse apartamento. Já tem até uma cama aqui para descansar… Enfim, quando chegamos aqui, sua amiga já estava morta.

— Por que você se disfarçou como meus pais para me enganar então? Como você conhece eles?

Parecia que o rapaz gostava de falar. Ele já tinha revelado muita coisa nesse pouco tempo. Sanji percebeu isso e estava propositalmente fazendo perguntas, enquanto planejava a conversa.

Não dava para saber se a mulher ruiva tinha percebido as intenções da Sanji, mas antes do rapaz poder falar qualquer outra coisa, ela gesticulou irritada, impedindo que ele continuasse a responder com entusiasmo.

— Foi eu que planejei trazer você aqui dentro, — ela disse de friamente.

De repente, com um som metálico, as unhas da mulher cresceram cerca de meio metro, brilhando levemente na escuridão. Ela riu e falou:

— Eu estou curiosa para saber o quanto as pessoas deste mundo evoluíram.

Sanji chutou a cadeira para frente imediatamente após as unhas da mulher crescerem, bloqueando o caminho dos dois, e logo em seguida ela se virou e correu na direção oposta. Sorte que ela não tinha fechado a porta ao entrar, deixando uma rota de fuga.

Sem nem mesmo olhar para trás, ela correu para a saída, pulando os degraus enquanto corria escada abaixo. Ela conseguia ouvir os passos logo atrás, indicando que eles ainda a estavam seguindo. Durante a fuga, ela ouviu o rapaz reclamando:

— Ela me acertou de novo!

E então, ela não ouviu mais nada enquanto um único pensamento ocupava toda a sua mente: fugir. Sentiu como se estivesse esgotando todo o oxigênio em seu corpo: seu peito começou a doer como se estivesse queimando. Toda vez que respirava, o ar quente queimava sua traquéia. Ela não estava com medo, mas a dor era inevitável. Sem contar o fato que ela ainda estava machucada, e seus braços e pernas estavam fraquejando. Simplesmente não dava para correr tão rapidamente na sua condição atual. Assim que avistou a entrada do complexo, ouviu um som cortando o ar bem do lado de seu ouvido, enquanto as unhas metálicas se aproximavam. Cerrando os dentes, rolou para frente. Desta forma, Sanji consegui evitar as unhas que pertenciam a mulher ruiva atrás dela.

Rolou um metro a frente e olhou para trás, percebendo que o par estava prestes a alcançá-la, mas assim que eles estenderam as mãos em sua direção…

Sanji jogou  algo branco no ar abruptamente. Com um pensamento, o portão de metal apareceu do nada no meio do ar. O portão caiu com um barulho alto sobre o rapaz, enquanto ele gritava. Sanji também caiu no chão, sem mais força nas pernas.

O rapaz estava imobilizado, mas isso não era motivo de felicidade. Afinal, a mulher ruiva que era a maior ameaça para ela ainda estava de pé, do lado do portão, sem nenhum arranhão sequer.

Mas Sanji já não conseguia mais correr. Cada vez que ela transformava uma carta, ela usava sua própria força. Transformar o portão de volta a sua forma original esgotou o resto de força que ela tinha. No presente momento, ela não conseguia nem mesmo se levantar. Deitou então no chão, olhando para a mulher ruiva, se sentindo amargurada.

A mulher ruiva suspirou e não continuou a perseguição, mas inesperadamente se sentou onde estava. Ela franziu a testa e falou com o rapaz:

— Por que você é tão burro?

O rapaz preso debaixo do portão não parecia mortalmente ferido. Com esforço, ele tossiu duas vezes e respondeu ofegante:

— Eu sou de carne e osso de verdade, eu sou real e corpóreo. É claro que eu não consigo correr tão rápido quanto você! — Ele tossiu mais duas vezes. — Eu não estou me sentindo muito bem… o portão de metal está apertando meu pescoço…

A mulher ruiva estalou a língua e sorriu friamente enquanto dizia:

— Sim, você tem um corpo feito de gorduras. É por isso que você é tão devagar. Não sei como conseguiu sobreviver até hoje.

— É óbvio que eu sobrevivi porque eu sou o Supremo Senhor do Potencial.

Sanji não conseguia acreditar em seus olhos quando viu as duas pessoas que anteriormente tinham perseguido ela discutindo uma com a outra como se tivessem completamente esquecido da sua existência.

— Então… Vocês não vão me matar?

— O quê? — o rapaz ergueu a cabeça pelas barras de metal do portão e olhou para ela espantado. — Moça, você acha que nós estávamos tentando te matar? Tá explicado porque você correu feito uma louca. Eu te chamei várias vezes, mas você não parou de correr… Minha evolução já é avançada, por que eu me daria ao trabalho de matar você. Você que é como um neném recém-nascido. Qual a vantagem disso para mim?

A boca de Sanji se contraiu enquanto ela olhava para a pessoa evoluída presa debaixo do portão de metal, mas ela ficou em silêncio. Ao mesmo tempo estava com o coração na mão. Maravilha que eles não eram hostis, mas…

— Moça, por favor tire o portão de metal. Daqui a pouco eu viro uma pasta debaixo dele. — O rapaz reclamou, vendo que os outros estavam quietos.

Sanji olhou para a mulher ruiva sentada no chão. Não conseguia entender por que a mulher nem sequer tentava ajudar. Hesitou por um momento, e finalmente respondeu:

— Eu até posso remover o portão, mas acho que vocês depois deviam se apresentar primeiro.

— Sim, nós deveríamos. Eu sou Lutero, é um prazer conhecê-la. Quer apertar minha mão?  — O rapaz inclinou a cabeça contra as barras de metal. Provavelmente porque ele viu Sanji rolar os olhos, ele adicionou rapidamente sorrindo. — Ah! Sim. Esta é uma das minhas personalidades alternativas, o nome dela é Marcie.

Sanji arregalou os olhos.

— Sua outra personalidade?

— Sim. De onde eu vim antes do Novo Mundo chegar, eu fui a segunda pessoa em toda a Terra diagnosticada com um caso genuíno de Transtorno Dissociativo de Identidade. — Lutero parecia extremamente orgulhoso deste fato enquanto falava. Ergueu o queixo da melhor maneira possível, — Mais tarde, quando eu evoluí, eu consegui separar a personalidade como uma entidade individual, mas não podemos ficar muito longe um do outro… Bem, já chega, eu não vou te contar mais sobre as minhas habilidades. Não me pergunte como eu conhecia seus pais, isso também faz parte das minhas habilidades… — Ele tentou desconversar, quando percebeu que já tinha falado demais. — Enfim, Marcie é uma bióloga. Ela tem interesse em humanos que acabaram de evoluir, e foi um pouco apressada alguns momentos atrás.

Sanji olhou para Marcie enquanto concordava com o rosto sério.

— Mas ela estendeu as unhas… — Perplexa, Sanji olhou as unhas da Marcie. Sob a luz do flash, as unhas estavam agora de volta ao seu formato normal, curtas e arredondadas.

— Ela usa as unhas para coletar amostras de sangue. Depois de conseguir a amostra, ela consegue analisar suas estatísticas básicas. É uma habilidade que a Marcie desenvolveu. Mas na verdade, não possui valor em combate, — Lutero respondeu sinceramente.

— Espera, quer dizer que não só você pode evoluir e ganhar habilidades, mas mesmo as suas personalidades podem fazer isso? — Sanji perguntou espantada. Lutero era realmente digno do título de Potencial de Crescimento do Rei Celeste. — Quer dizer que, se você continuar evoluindo, você se tornará um exército de uma só pessoa?

— Não é tão simples assim… — Lutero disse com uma expressão complicada. — Atualmente, minha habilidade é basicamente inútil. Fora as unhas, Marcie nem consegue ferir ninguém. Certo, chega. Eu não posso te contar mais sobre meus poderes, é muito perigoso. Tire o portão de cima de mim. Nós podemos conversar direito e eu te explico caso você tenha qualquer outra dúvida.

Sanji respirou profundamente. Talvez ver os seus pais novamente era algo tão estranho e súbito que a deixou assustada. Depois de conversar com o Lutero e Marcie, ela percebeu que não sentia nenhuma hostilidade de ambos. Ela fez uma careta e confessou:

— Não é que eu não queira remover o portão, a verdade é que eu não consigo agora. Eu preciso descansar um pouco. Por quê você não me conta mais sobre esse negócio de Novo Mundo

Assim que terminou de falar, de repente eles ouviram um estranho som ‘Ah gu?’ vindo da guarita.

Marcie, que estava sentada em silêncio, levantou de repente. Com o rosto sério, ela sussurrou:

— Droga.

[1] O termo original também pode ser interpretado como humano evoluído. No contexto desta webnovel, o termo “pós-humano” traz o significado melhor proposto pelo autor.

 

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.
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