PA – Capítulo 4 – 3Lobos

PA – Capítulo 4

Dez minutos com minha mãe

 

 

— Eu vou matar todos vocês, seus desgraçados sem vergonha! Se escondendo em seus carros, com ar condicionado … em seus carros, enquanto nos deixam sofrer!

O grito quase incompreensível veio do lado da estrada após o baque alto na porta do carro dela. Assustada pelo vulto, Sanji perdeu o controle do carro por um momento, e pisou no freio de forma brusca. O barulho da derrapada foi estridente, mas felizmente, o carro parou antes de bater nas trilhas de segurança da rua.

Ela virou para trás e viu um homem com uma camisa sem mangas. Ele suava profusamente  enquanto jogava loucamente tijolos em um Mazda vermelho estacionado. Ele continuava a xingar enquanto tacava tijolos:

— Você… você é um lixo… saia daí… vem… — Antes que ele pudesse terminar de falar, caiu inconsciente. Era óbvio que ela foi pega em um algum tipo de fogo cruzado.

Sanji suspirou profundamente e afastou os olhos do espelho retrovisor. Seu coração ainda batia acelerado. Nervos à flor da pele, desmaios e alucinações. Todos esses eram sintomas de desidratação devido a alta temperatura.

Depois de respirar profundamente, ela pisou no acelerador e foi em direção ao complexo residencial onde Mei morava.

Ela já tinha visitado o apartamento de Mei várias vezes anteriormente. Vinte minutos mais tarde, Sanji estacionou o carro cuidadosamente e desligou o motor depois de ter lido ‘Complexo Residencial Rongjun’ iluminado pelos faróis. Pegou a chave e a mochila, ligou o flash do celular e foi em direção ao portão metálico na entrada do residencial.

O complexo era localizado em uma área um pouco remota, então, geralmente, era raro ter alguém nas redondezas. Nas circunstâncias atuais, parecia mais uma cidade fantasma. Estranhamente, quando Sanji se aproximou do portão, sentiu seu coração palpitar por um momento. Ela parou.

Examinou os arredores, mas não encontrou nada estranho. Esperou cautelosamente por mais dois minutos. Vendo que nada tinha mudado, ela suspirou aliviada.

Ao que parece, Sentidos Aguçados não era 100% preciso.

O complexo Residencial Rongjun era cheio de prédios construídos na década de 90. Como todos os residenciais antigos, havia uma guarita de segurança na entrada. Como a região não era muito segura, os portões ficavam trancados depois da meia noite. Caso algum dos moradores chegassem tarde, eles tinham que bater no portão, e o segurança de plantão abriria o portão para eles.

Ela olhou no relógio. Eram exatamente 02:30 da manhã. Sanji caminhou até o portão de metal e usou a aldrava para bater algumas vezes. A aldrava bateu barulhentamente contra o portão — o barulho ensurdecedor demorou um pouco para desaparecer. Entretanto, os arredores continuaram quietos, sem nenhuma indicação que havia alguém por perto.

— Sr. segurança, você está por aí? Eu vim visitar alguém do apartamento 401. Pode por favor abrir o portão? — Sua voz clara ecoou na escura e silenciosa noite. Não importava o quanto esperançosa ela soasse, não houve qualquer resposta da guarita.

Ela suspirou novamente. Já estava esperando uma situação semelhante. Sua cabeça começou a doer só de olhar para as estacas de metal sobre o portão. O conjunto habitacional podia ser antigo, mas o portão tinha sido instalado há pouco tempo. Era tão seguro que não tinha nenhuma chance dela conseguir passar por ele.

Sanji hesitou por um momento tempo antes de colocar a mão no portão de metal:

— Armazene isso!

Assim que terminou de falar, uma luz brilhante apareceu em sua mão. Entretanto, desta vez, a luz branca começou a enfraquecer. Piscou em sua mão algumas vezes, mas o portão ainda continuava no lugar. Era a primeira vez que Sanji tentava transformar algo desse tamanho. Ela podia sentir seu coração acelerando e estava ficando sem fôlego a cada momento que passava, além de que seu corpo estava começando a doer…

Parecia que seu corpo estava sob o peso de milhares de barras de metal. Seu braço começou a tremer. Quando estava finalmente chegando ao seu limite, e prestes a desistir, o brilho em sua mão sumiu com um barulho ‘Pa!’. O portão de metal desapareceu e se transformou em uma carta, que agora estava caída ao chão. Na carta, havia um rabisco de um portão de metal feito com giz de cera, no nível de alguém do jardim de infância,.

Na parte inferior da carta, estava escrito:

【Portão metálico】

Este portão foi instalado no complexo residencial Rongjun em 2012. Além do seu peso, não tem nenhuma outra serventia.

Função: Nada especial. É incapaz de permanecer de pé se não for instalado em uma parede.

Sanji praticamente já estava acostumada com a inutilidade da carta. Colocou a carta no bolso e correu em direção ao apartamento 401.

Não soou nenhum alarme da escura guarita atrás dela.

Sanji ofegava feito um cachorro, quando finalmente parou em frente a porta do apartamento 401. Armazenar o portão tinha usado muito de sua força. Então, logo após armazenar o portão, ela subiu quatro andares de escada correndo. Ela podia ouvir sua própria voz tremendo enquanto chamava pela sua amiga.

— Mei… Mei Zhu! Você está aí? Abra porta, sou eu, a Ji.

Nenhum barulho de dentro do apartamento 401. O coração de Sanji despencou — ela não tinha idéia do que fazer se Mei estivesse desmaiada dentro do apartamento. Ela já tinha transformado três itens desde a meia noite: o cadáver do Ren Nan, seu cabelo e o portão de metal. Só podia usar sua habilidade mais uma vez, mas ela ainda tinha que passar por mais duas portas no apartamento da Mei para conseguir entrar.

Sem se dar por vencida, Sanji continuou a bater na porta e a chamar. Estava se sentindo muito ansiosa. Mesmo quando estava dentro do carro, ela pôde sentir que a temperatura ainda estava aumentando. Tinha certeza que já não era mais 56°C, mesmo com seu corpo resistente ao calor. Mei era apenas uma pessoa normal, será que ela seria capaz de sobreviver…

Sanji sentiu a garganta queimar depois de continuar gritando por um tempo, e não teve escolha senão tomar alguns goles de água. Depois de colocar a garrafa  novamente em sua mochila, estava prestes a bater novamente, quando a porta abriu com um rangido baixo.

— Mei, você está bem? — Sanji finalmente se sentiu aliviada enquanto iluminava a porta com a luz do celular.

No entanto, a pessoa que abriu a porta não era a Mei, mas uma mulher de meia-idade com o rosto oval. Ela devia ter uns 50 anos. Quando o flash iluminou seu rosto, ela rapidamente cobriu os olhos com a mão. Estes poucos segundos foram suficientes para Sanji ver o seu rosto com clareza.

O telefone dela caiu no chão com um “pa”.

Ela olhou fixamente para o rosto atrás da porta parcialmente fechada e só reagiu depois de um momento. Abaixou para pegar o telefone de forma apressada. Mais uma vez ela segurou o telefone tremendo enquanto a luz do flash iluminava a porta novamente. Sanji finalmente encontrou sua própria voz:

— Mãe? — Ela sabia que sua cabeça estava uma bagunça. — Mãe, como você pode estar aqui? Você está bem? O que está acontecendo?

A mulher de meia-idade parecia prestes a explodir em lágrimas. Abriu a porta e disse rapidamente:

— Entre, rápido! Como é bom ver que está bem! Eu estava tão preocupada…

Confusa, Sanji foi puxada para dentro do apartamento. Ela permaneceu no corredor da entrada. Enquanto uma enxurrada de pensamentos e perguntas corriam em sua cabeça, ela não sabia o que falar. Atordoada, continuou a olhar a sala. Viu a sapateira branca que Mei tinha comprado um tempo atrás quando ela e Sanji tinham saído juntas para fazer compras.

— Mãe, por que você está no apartamento da Mei? Onde ela está? — perguntou Sanji de repente.

A ‘Senhora Lin’ enxugou as próprias lágrimas e pegou uma cadeira, indicando que Sanji deveria se sentar. Ela explicou aos soluços, depois que Sanji já estava sentada.

— Eu estava preocupada com você desde quando a temperatura ficou estranha. Quando eu ouvi que a energia tinha acabado, eu vim correndo… Mas não consegui falar com você pelo telefone, então vim para a casa da Mei, eu achei que poderia te encontrar se eu esperasse aqui. Mas… eu acho que a Mei está morta…

‘Senhora Lin’ chorava incontrolavelmente enquanto continuava a falar:

— Ela era uma menina tão boa… Eu sei quanto vocês eram amigas. Não fique chateada. — Sanji continuou sentada sem se mover. Continuou calada. Desligou o flash do celular, e o apartamento foi jogado novamente na escuridão.

— Eu já tinha me preparado no caminho… Se Deus resolveu leva-la, não há nada que eu possa fazer sobre isso. Felizmente, você está bem, mãe. Isso é mais do que eu posso pedir. — Sanji sussurrou no escuro.

Mesmo sabendo que sua filha não podia vê-la, a ‘Senhora Lin’ concordou com a cabeça. Ela limpou as lágrimas de seu rosto e sorriu.

— Seu pai também está bem. Ele está descansando na sala. Eu vou chama-lo. — Ela virou e se afastou.

— Eu vou também. —  Sanji levantou-se rapidamente.

‘Senhora Lin’ acenou com a cabeça enquanto caminhava, estendeu a mão para a porta e disse:

— Ei…

Ela tinha começado a falar quando ouviu um barulho de algo se movendo extremamente rápido, mas não teve tempo de desviar. ‘Pah!’. Uma pancada na cabeça, e seu corpo se virou e caiu sem forças no chão.

Sanji estava atrás dela, segurando a cadeira que usou para acertar sua mãe, mas sentiu seus braços cederem sob o peso da cadeira. Rapidamente, ela colocou a cadeira no chão, mas mesmo depois de ter abaixado a cadeira, ela não relaxou. Ao invés disso, segurava a cadeira com mais força. Ela olhou em direção ao quarto como se estivesse prestes a enfrentar um inimigo formidável. Por um momento, o único barulho na sala era a sua respiração ofegante.

Quase imediatamente, houve um barulho de passos atrás da porta no quarto. Um homem de ombros largos apareceu depois que a porta se abriu. O homem estava surpreso e com raiva depois de ver o que tinha acontecido na sala. Mesmo com a luz fraca vinda de fora, era possível ver que seu rosto se parecia com o de Sanji.

— O que você fez? Ela é sua mãe! — Ele gritou.

O rosto na frente dele tinha uma expressão fria.

— Eu desejei mais do que você que ela realmente fosse minha mãe. — Sanji respirou fundo, ela podia sentir os músculos em seus braços e coxas se contraindo pelo excesso de esforço.  — Meu pai e minha mãe morreram em um acidente de carro há dez anos. Eu identifiquei  os corpos e organizei o enterro, tudo isso sozinha. Então, quem são vocês dois? E onde está minha amiga?

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.
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