PA – Capítulo 31 – 3Lobos

PA – Capítulo 31

Desculpa, eu menti

 

A rua tinha perdido sua aparência original depois da devastadora onda de calor. Uma longa sombra negra dançava entre as silhuetas dos dois combatentes engajados na feroz luta na rua. A silhueta que era um pouco menor se esquivou rapidamente de cada ataque. Mesmo depois de mais de vinte ataques da boca do degenerado, nem mesmo um deles chegou a encostar no inimigo.

O degenerado estava tão exausto que estaria ofegante feito um cachorro velho se tivesse uma boca normal.

— Quem… é… você? Você não é a Meiye! — O zumbido enfurecido do degenerado soou no ar. Ao mesmo tempo, ele usou essa oportunidade e lançou mais um ataque mirando no rosto do Lutero.

Quando a boca se aproximava, Lutero de repente encolheu em um piscar de olhos, e a boca passou por cima da cabeça daquela ‘menina da roça’, errando totalmente o alvo. Antes mesmo que o degenerado pudesse recuar, a menininha abaixou e deslizou em direção à perna do degenerado, e quando ela atacou com um chute baixo, ela se transformou em um homem alto, de aparência perigosa — Hei Zeji. O pesado golpe imediatamente quebrou o tornozelo do degenerado, que berrou por causa da dor e desabou no chão.

Independentemente da forma que ele tomasse, Lutero não tinha a habilidade de replicar as características físicas das suas transformações, entretanto, os seus próprios atributos eram limitados pela forma que ele tinha se transformado. Se a força atual do Lutero fosse 89, mas a da menina fosse 14, Lutero então conseguiria usar só 14 de sua força. Entretanto, quando ele se transformou no Hei, ele conseguiu usar toda a sua força, que atualmente era 89, já que Hei era muitas vezes mais forte que ele.

Lutero chutou outra vez a perna do degenerado. Quando o impacto do chute de 89 de força pousou na perna do degenerado, fragmentos de ossos quebrados voaram para fora depois de rasgar a pele da panturrilha. Desta vez, o degenerado não conseguia mais se levantar. Ele continuou caído, respirando pesado, enquanto a sua boca estava caída ao chão. Ela tremia incontrolavelmente, encostada no chão escaldante.

Ainda mantendo a aparência do Hei, Lutero caminhou até o degenerado olhando para ele com uma expressão fria.

— Muito bem… Eu admito a derrota. Eu perdi, — disse o degenerado, mudando de tom, ofegante, — Eu te ataquei furtivamente por que eu achei que você fosse aquela puta da Meiye. Era apenas uma briga pessoal. Já que você não é ela, tem motivos para a gente brigar?

— Por mim tudo bem… — Lutero sorriu, mas o sorriso amável que poderia parecer atraente em seu rosto original parecia deturpadamente opressivo no rosto do Hei, — se você me deixar cortar sua boca.

A expressão ligeiramente lamentável e arrependida do degenerado derreteu de seu rosto como um pedaço de gelo no fogo. Sem a sua boca, ele não conseguiria se alimentar de qualquer humano, então como isso seria diferente de mata-lo?

De repente, ele rolou para o lado e se levantou. Desta forma, levantando sua boca….

— Isso de novo? Não importa quantas vezes você tente, você não vai conseguir me acertar… — Antes mesmo do Lutero terminar de falar, o degenerado moveu sua boca para baixo, não em direção ao Lutero, mas em direção ao seu próprio calcanhar.

Com um uivo afiado, o calcanhar quebrado caiu no chão — ele tinha cortado toda a parte da perna abaixo da canela.

— Assim que eu te absorver, eu consigo regenerar quantas pernas eu quiser. — O degenerado olhou para o Lutero perigosamente, parecendo ainda mais maléfico do que antes. — Na verdade, eu não fui forçado a usar isso… mas agora…

Lutero sentiu um arrepio e recuou dois passos, olhando para trás apreensivamente.

O degenerado gargalhou zombeteiramente e pegou algo com um movimento rápido. Lutero quase duvidou de seus próprios olhos — aparentemente o ‘isso’ era uma marmita.

— Sorte que eu trouxe isso comigo. — O degenerado riu como um zumbido enquanto abria a marmita.

Para a surpresa do Lutero, várias bolhas rosas borbulharam para fora da marmita. Elas rapidamente cobriram a área de combate, pairando entre os dois adversários, tingindo o céu noturno com um rosa pálido. Lutero se distraiu por um momento, seu olhar inconsistentemente seguiu as bolhas rosas flutuando ao redor. Quando ele voltou a se concentrar em direção a onde o degenerado estava anteriormente, ele percebeu que ele tinha desaparecido. Reparando nos detalhes, não só o degenerado tinha desaparecido, mas também os restos das lojas, as placas destruídas e empoeiradas, e até os poucos carros abandonados na rua.

Ele só conseguia ver uma infinita quantidade de bolhas rosas ao redor dele. Olhando entre as bolhas, a única coisa que ele via era mais bolhas. Elas enchiam o céu, brilhando com uma linda e fraca luz, quase criando uma fantasia tão encantadora como a de um sonho.

Então, essa é uma das ‘armadilhas’ da mulher?

Lutero zombou entendendo a situação. Mas mesmo assim ele estava irritado. Desanimado, ele gritou:

— Eu nunca vi ninguém gostar de mamar na vaca mais que você. Você até mesmo trouxe uma marmita para guardar o leite que você tanto gosta.

— Cala a boca! Porra! Você já falou o suficiente de mamar na vaca.

Lutero não estava esperando a retaliação verbal do degenerado. A voz soou por de trás de várias camadas de bolhas. Lutero imediatamente tentou discernir de onde a voz estava vindo, mas sem sucesso. As bolhas pareciam pequenos alto falantes, e a voz vinha de todas as direções. Era impossível para ele dizer de onde o som estava vindo.

— Deixa eu te dar um conselho, não se mexa. Nem todas as bolhas são inofensivas. Algumas são explosivas e outras são corrosivas. Nem mesmo eu consigo diferenciá-las, mas você pode tentar.

Lutero tinha uma carranca no rosto enquanto ele olhava ao redor. Todas as bolhas pareciam exatamente iguais para ele. Se ele continuasse com essa aparência, ele podia gastar muita energia. Por causa disso, Lutero imediatamente cancelou a transformação e voltou a sua aparência original.

— Pfft! Você é só uma criança ainda. Infelizmente, você não viverá por muito tempo, — a voz vibrante do degenerado percorreu as milhares bolhas, reverberando por todo o lugar. Lutero ignorou. Ele continuou olhando ao seu redor, se concentrando e tentando achar padrões de movimentos nas bolhas.

De repente ele ouviu um suave ‘pop’, como o barulho de bolhas estourando, vindo de trás dele. Ao mesmo tempo, ele viu a boca afiada rapidamente vindo em sua direção. Como ele tinha ouvido o barulho, ele virou o seu corpo e pulou para trás, desviando da boca. Entretanto, como ele estava cercado de bolhas rosas, o seu cotovelo encostou em uma delas sem querer enquanto ele desviava. A bolha explodiu com um “pop”.

Um som sibilante seguiu rapidamente, e uma fumaça branca subiu do cotovelo do Lutero. A dor era tão intensa que ele não conseguia falar uma única palavra sequer. Ele olhou para baixo observando sua ferida. O cotovelo parecia que tinha sido queimado, e um grande pedaço de pele tinha dissolvido, revelando os músculos por baixo.

— HA! HA! HA! Eu não te falei para ter cuidado na hora de se mover? Foi apenas ácido desta vez, mas vai saber o que vai acontecer da próxima vez. — As gargalhadas selvagens do degenerado encheram o ar. Lutero começou a suar frio enquanto aguentava a dor. Ele não via nenhuma diferença entre a bolha que tinha acabado de explodir e as outras milhares que o cercavam.

Claramente, o degenerado não lhe daria tempo para analisar lentamente o que estava diante dele. Desta vez, a boca atacou de outra direção. As intenções do degenerado eram óbvias. Os ataques da boca do degenerado não eram tão preocupantes para o Lutero, já que ele conseguia desviar deles facilmente. Para contornar esse problema, o degenerado encheu os lugares onde Lutero poderia se mover para se esquivar com essas perigosas bolhas, forçando o Lutero escolher entre ser perfurado pela boca ou se machucar nas bolhas.

Enquanto Lutero mais uma vez esquivou de outro ataque, ele acidentalmente estourou várias bolhas com as suas costas. Desta vez, quatro a cinco bolhas explodiram com um ‘Boom’. O impacto das explosões destruíram o tecido cobrindo as costas dele, expondo uma ferida feia e sangrenta. Lutero estava prestes a abaixar quando, surpreso pela enorme dor nas costas, ele quase desmaiou. Com a respiração ofegante, ele mordeu os lábios tão forte que começou a sangrar.

— Que azarado! Essas eram bolhas explosivas! — O degenerado gargalhou novamente. — Eu não te falei? Além das bolhas inofensivas, existem dezoito diferentes tipos de bolhas que podem te machucar… então por que você não me deixa te absorver? É uma pena desperdiçar todo esse fluído corpóreo desnecessariamente.

O rosto do Lutero estava coberto de cinzas da explosão e seu próprio sangue. Sua cabeça abaixou ligeiramente, e relutantemente, um sorriso apareceu em seu rosto. Seus dentões pareciam excepcionalmente brancos em contraste com os lábios cobertos de sangue. Ele começou a ficar com raiva e falou suavemente:

— Todos os homens que vivem às custas de mulheres falam tantas asneiras assim?

— Parece que você não vai chorar até ver o seu próprio caixão!

Com um urro agudo, a boca do degenerado atacou Lutero novamente pela esquerda. Ele virou o rosto, olhando para a boca que estava logo à frente dele. Ele moveu seu corpo ligeiramente e se transformou em uma menina que tinha pouco mais de dez anos de idade. Ao invés de evitar o ataque, ele se jogou para frente, encarando o ataque diretamente.

“Splitch!” A boca penetrou no ombro da menina, e o sangue jorrou. Antes que o degenerado pudesse gargalhar em fúria, Lutero suportou a dor e correu para a frente, permitindo que a boca atravessasse todo o seu corpo. Apesar disso, ele continuou seguindo em frente como se não estivesse sentindo nada. Com apenas meio segundo, Lutero tinha uma grande ferida no ombro. Ao mesmo tempo, ele criou um caminho entre as bolhas e agora estava de pé em frente ao degenerado.

As bolhas haviam explodido ao redor dele, mas nada aconteceu.

Antes que o estúpido degenerado pudesse reagir, Lutero cancelou sua transformação, avançou com a mão em forma de garra e agarrou a garganta dele — se for considerar apenas força física, o degenerado ainda era bem mais fraco que o Lutero.

— Se eu não sei falar quais bolhas são perigosas, a única coisa que eu preciso fazer é ficar perto de você, certo? Não é difícil ir em sua direção seguindo essa sua boca. — Lutero cuspiu uma bola de sangue e sorriu enquanto ofegava. — Eu sei que o prédio em que vocês estão acampando está cheio de armadilhas, então eu vou fazer uma pergunta.

O degenerado tinha sido estrangulado com tanta força que seu rosto estava ficando roxo e uma grande quantidade de saliva estava saindo da sua boca. Sem tempo de pensar como o rapaz conseguiu essa informação, o degenerado tentou libertar a sua boca que estava irremediavelmente presa no ombro do Lutero — o movimento só arrancou mais alguns pedaços de músculo. O rapaz estremeceu mas continuou firme.

— Como você vai no andar de cima?

— Eu… Não sou estúpido. Se eu te falar, você vai me matar…

— Errado. Meu único objetivo é matar aquela mulher. Mas se você se recusar a falar, eu realmente te mato antes, — disse Lutero enquanto seus olhos brilharam com sinceridade: — Sua vida ou a daquela mulher? Escolha um.

O degenerado não precisava nem pensar para fazer aquela escolha. Uma vez que explicou tudo, Lutero lentamente colocou o degenerado no chão, mas continuou apertando seu pescoço. Então, ele perguntou desconfiado:

— Você não está mentindo para mim, certo?

— Não! Não! Se você não acredita em mim, você pode me amarrar e me levar junto! Você pode confiar em mim assim, certo? — Os olhos do degenerado estavam quase estourando por causa da pressão exercida pelo Lutero. Em seu desespero, ele rapidamente pensou nessa ideia para sobreviver.

— Isso parece ser uma boa ideia. — Lutero acenou com a cabeça de uma maneira pensativa e, de repente, olhou para o degenerado, que se assustou.

— Desculpa, eu menti.

Em uma fração de segundo, o degenerado arregalou os olhos, e o último som que ouviu foi o “craaaack” enquanto sua garganta era esmagada.

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.
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