PA – Capítulo 24 – 3Lobos

PA – Capítulo 24

É uma lei universal que o Personagem Principal deve morrer? (1)

 

Sanji sentia algo pressionando desconfortavelmente contra a parte de trás da sua cabeça. Mais da metade do dia já tinha se passado. Ela estava exausta e não queria se mover, então ela apenas virou para o lado em um ângulo estranho. No mesmo momento, ela subitamente ouviu uma parte da música, “Você é minha maçã, maçãzinha” [1]. A música interrompeu a tranquilidade da noite e era bastante irritante.

Quem coloca o volume do celular tão alto? Incomoda demais. Eu consigo ouvir até mesmo aqui na cobertura.

Sanji suprimiu a sonolência e abriu os olhos. Ela viu uma fileira de pegadores cor laranja. — Ah, é mesmo, eu não estou na cobertura no 38º andar, aqui é o Novo Mundo…

Ela se sentou e viu fileiras de assentos cheios de caixas de papelão com suprimentos. Na lataria ao lado dela, ainda havia uma placa azul informando: Assento prioritário para idosos, portadores de deficiência, grávidas e obesos. A rara luz das estrelas que entrava pela janela iluminava fracamente as bordas da placa azul.

Em cima das portas de saída, havia um pedaço do mapa da rota do ônibus ou algo semelhante. Mas a única coisa que ela conseguia entender era o numero “3”.

De repente, alguém bateu rapidamente na porta do ônibus. O volume da música ‘Pequena Maçã’ ficou mais alto e logo em seguida a voz do ratinho soou:

— Ei, já são dez horas, é hora de acordar. Vamos!

Sanji esfregou os olhos enquanto as memórias da sua situação atual voltavam.

Era isso mesmo. Na última tarde, eles tinham concordado em deixar o Ratinho viajar com eles. Eles até mesmo tinham entrado no carro dele, comeram, beberam e conversaram por um longo tempo. Embora Ratinho parecesse uma pessoa tímida, eles perceberam que ele era bastante atencioso depois de conviver com eles por um tempo. Para descansar e juntar energias para a noite, todos eles rapidamente foram dormir. Ratinho, sendo a única pessoa que tinha um telefone celular, se ofereceu para colocar o alarme para despertar às dez da noite. Sanji se levantou e caminhou para o assento do motorista. Ela apertou um botão e a porta do ônibus abriu, mostrando Ratinho que ainda estava vestido no mesmo terno que era muito grande para ele.

Sanji olhou para ele um pouco incomodada:

— É melhor desligar o alarme rapidamente. O que nós vamos fazer se o barulho atrair os degenerados para cá? E o volume dessa coisa é muito alto!

Ratinho respondeu com um — Oh. Oh. — e rapidamente desligou o telefone. Quando a música ‘Maçãzinha’ parou, Sanji sentiu que o mundo tinha se tornado muito mais calmo. Ratinho sorriu e perguntou:

— Onde está a senhorita Marcie? E quanto ao Lu, eles estão acordados?

— Eles estão lá atrás… — Sanji respondeu.

Enquanto isso, Marcie bocejou e se aproximou. Ela limpou a sua boca com um pouco de água mineral e se sentou no banco do motorista ainda sonolenta. Lutero acenou com a cabeça para o Ratinho cumprimentando ele enquanto esfregava os olhos e caminhava de volta para o caminhão. Olhando as suas costas, ele também parecia desanimado.

Todo mundo parece tão cansado. — Sanji pensou, bocejando novamente.

Ratinho, ao contrário, parecia muito animado. Ele caminhou para cima e para baixo verificando todos os motores. Quanto ele viu que não tinha nenhum problema, ele acenou animadamente:

— Maravilha! Melhor a gente partir agora!

Depois de lavar o rosto e sentar no caminhão por um momento, a sonolência diminuiu consideravelmente. Sanji estava finalmente completamente acordada. Ela olhou para o mapa em suas mãos procurando pela estrada em direção ao parque industrial Xijiao e foi a primeira a ligar o seu veículo.

Xijiao era um dos famosos parques industriais da cidade. Havia todos os tipos de fábricas e indústrias lá. As fábricas lá geralmente tinham seus próprios dormitórios e cantinas — basicamente, eram pequenos ecossistemas autônomos. Quando eles chegassem lá, encontrar um gerador reserva, suprimentos e abrigo não deveria ser um problema.

Seguindo o exemplo dela, os outros veículos também ligaram os seus motores.

Ela teve que admitir que deixar o Ratinho se juntar ao time foi a escolha certa. Não só ele sabia como manter os veículos funcionando, mas a maior surpresa de todas era que ele tinha alguns conjuntos de walkie-talkies no carro dele. Mesmo que os walkie-talkies só funcionassem a uma curta distância, eles pelo menos poderiam se comunicar enquanto cada um dirigia seu próprio veículo.

A voz jovial do Lutero soou através do walkie-talkie no acento ao lado dela.

— Ji, quanto falta para a gente chegar no parque industrial?

— Depende. Se não tiver nenhuma obstrução no caminho, essa é a rota mais curta e deve demorar apenas uma hora. Depois que a gente atravessar essa colina, nós provavelmente veremos uma placa de trânsito em breve… — Ela tinha acabado de falar isso quando o seu estômago fez um barulho estranho. — Isso é ruim, — ela pensou silenciosamente consigo mesma.

Com certeza, Lutero tinha ouvido o barulho:

— Haha! Que barulho foi esse? Precisamos parar para que você possa fazer as suas necessidades?

Ela ouviu o som de alguém tentando segurar a risada — obviamente Marcie.

— Eu só estou com um pouco de fome, — Sanji repreendeu brincando: — Eu tenho certeza de que um pirralho como você não tem namorada! — enquanto ela falava isso, ela procurou irritada por um pacote de biscoitos, abriu o pacote e comeu um pedaço, enquanto os outros riam pelo walkie-talkie.

Eles eram na verdade bastante sortudos já que a maioria dos carros na estrada estava estacionado corretamente no acostamento. Mesmo quando eles encontravam algum carro bloqueando a estrada, eles conseguiam se espremer — devido a grande desertificação, os limites entre o asfalto e o passeio já não eram tão fáceis de se notar. Desta forma, mesmo depois de dirigirem por mais de dez minutos, o grupo de veículos ainda estava indo em direção ao parque industrial.

— Eu ouvi um barulho de uma batida agora mesmo, algum de vocês ouviu isso? — Marcie de repente perguntou enquanto dirigia. Ratinho imediatamente respondeu preocupado:

— Senhorita Marcie, vamos torcer para não ser um problema com o seu motor. De onde veio esse som?

— Foi muito abafado, eu não tenho certeza. Mas não tem nenhum barulho agora.

— Se você ouvir o barulho novamente, eu te ajudo a verificar os motores novamente!

Depois de ouvir isso, Sanji olhou para o espelho retrovisor. Atrás do segundo caminhão, ela podia ver o ônibus. Estava movendo-se normalmente, e ela até podia ver a silhueta da Marcie sentada no banco do motorista. Nada parecia diferente. Sem pensar mais sobre isso, ela casualmente abaixou o vidro. Uma onda de vento quente entrou, e instantaneamente seus cabelos fluíram para trás dela.

A sequência de eventos seguinte se desenrolou como se fosse um filme. Aconteceu de forma tão clara, mais ainda assim muito surreal.

Quase de repente, ela ouviu um grito alto vindo do walkie-talkie. Era a voz de Lutero, mas ela não conseguia entender o que ele estava falando. O coração de Sanji estremeceu e quando ela estava prestes a perguntar como ele estava, ela ouviu uma frenagem brusca. Logo em seguida, um barulho alto de batida soou no ar.

O coração de Sanji disparou, ela colocou a cabeça para fora da janela suportando o vento forte e olhou para trás. Seu coração quase parou…

Na cena que ela viu através dos seus cabelos negros, parte do caminhão do Lutero tinha tombado, e o caminhão tinha parado horizontalmente no meio da estrada. Sem tempo de reagir, o ônibus que estava atrás colidiu violentamente com o caminhão. Nuvens de uma grossa fumaça apareceram imediatamente. O corpo do Lutero foi jogado para fora do assento do motorista, enquanto inúmeros pedaços de vidro quebrado se espalharam, e o corpo dele estava parado no meio do ar como se o tempo tivesse congelado.

Uma longa boca afiada estava saindo do seu estômago, e a coisa atrás da boca estava escondida dentro do caminhão.

Tudo isso aconteceu tão rapidamente que ela nem teve tempo de piscar.

Os olhos da Sanji ficaram vermelhos, ela gritou e parou o caminhão. Quando ela desceu do caminhão, ela correu em direção ao Lutero. Porém, antes que ela pudesse alcança-lo, o ônibus subitamente explodiu. Junto com a fumaça e chamas do acidente, pedaços de vidro voaram por toda parte. A chuva de cacos de vidro cortou a pele exposta da Sanji, cobrindo ela de várias feridas sangrentas.

Ela foi jogada no chão pelo impacto da explosão, e todo o seu corpo estava coberto de feridas. No entanto, Sanji se sentou atordoada no chão, como se ela não tivesse sentido nada. A razão disso era que ela podia ver tudo claramente: enquanto os fragmentos de vidro caiam, ela também podia ver pedaços ensanguentados de carne e o familiar cabelo ruivo.

Só pode ser uma brincadeira, né?

O Citroën que era o ultimo da fila quase atingiu o ônibus. Ratinho estava tão assustado que seu rosto estava terrivelmente pálido quando ele abriu a porta do carro. Ele gritou:

— Como… como isso aconteceu?

Depois de sentar atordoada por bastante tempo, ela finalmente se levantou. Sem falar uma palavra sequer, ela correu em direção ao caminhão, seus olhos vermelhos cheios de raiva.

Ratinho, que estava ofegante, puxou ela para o lado e gritou:

— Você precisa se acalmar…

Antes mesmo que ele pudesse terminar de falar, um vulto escuro enorme apareceu já bem perto deles. Ele levantou a cabeça assustado. Provavelmente por que Sanji não tinha usado o freio de mão ou deixado o caminhão engrenado quando parou tão rapidamente, o caminhão estava agora descendo em direção a eles. Ratinho queria soltar Sanji e fugir, mas o caminhão estava perto demais — ele só conseguiu levantar seus pés quando a carroceria de metal engoliu ambos.

Primeira rodada: foi uma aniquilação completa.


[1] Nota do tradutor: esta é uma música real chamada Little Apple (小 蘋果) que fez bastante sucesso na China.

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.
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