PA – Capítulo 2 – 3Lobos

PA – Capítulo 2

Bife em noite escaldante

 

 

Qual era a diferença de temperatura entre meia-noite e uma da manhã?

Em um dia normal, era provável que ninguém percebesse a diferença.

Entretanto, esta noite era diferente. O sol já tinha se posto, mas a temperatura, o calor sufocante, aumentava a cada minuto. E para piorar as coisas, não ventava há dias. O ar do lado de fora das janelas ao redor do apartamento não era mais apenas ar, mas um ar sufocantemente escaldante, à espreita de uma oportunidade de atacar.

Como se alguém tivesse ordenado, a pequena quantidade de famílias que por diversas razões não ligavam o ar condicionado, ligaram essa noite. Já os que não tinham ar condicionado em casa simplesmente não conseguiam mais aguentar o calor — bares, supermercados 24hs, escritórios… Onde quer que houvesse um traço de ar fresco, era para lá que elas foram.

Não demorou mais que trinta minutos, e com um “tuc”, as poucas luzes noturnas no apartamento do 38º andar se apagaram. O quarto estava mergulhado em uma escuridão absoluta — o som constante e suave no quarto também parou sem aviso em algum momento.

O ar condicionado principal tinha parado.

Depois que o ar condicionado parou, Sanji Lin rolou na cama enquanto dormia. Sem a confortável temperatura mantida a 26 °C, seu corpo foi rapidamente coberto por uma camada de suor. Essa camada formou algo como um cobertor, debaixo do qual ficou impossível respirar.

Ughh… Acho que o controle remoto está na cabeceira… —  foi o pensamento em sua mente turva. Quando ela estava prestes a esticar a mão para pegar o controle, de repente sentiu que algo estava errado. Imediatamente parou de se mover. Depois de permanecer quieta por alguns momentos, ela abriu os olhos um pouco e olhou para cima.

Um rosto pálido estava diretamente sobre o seu próprio rosto, no qual dois olhos pretos e cavernosos olhavam diretamente para ela.

Novamente! Esse rosto novamente! — Um grito alto explodiu nos pensamentos de Sanji, mas sua garganta estava tão seca que nem sequer conseguiu gritar. Os batimentos cardíacos se tornaram cada vez mais rápidos, cada vez mais altos, e o rosto pálido se inclinou para ouvir melhor. Rapidamente, ele se aproximou de Sanji.

Duas semanas antes, Sanji tinha acordado de noite com sede. Quando ela se levantou, esbarrou naquele mesmo rosto. Na época, ela ficou tão assustada que gritou e correu para acender a luz, apenas para perceber que era o Ren.

Ela não sabia desde quando ou por quanto tempo ele estava sentado ao seu lado no escuro, com o rosto sem expressão, ou por quanto tempo estava olhando para ela desta maneira — da mesma maneira que nesta noite.

Ele se explicou, dizendo que desde criança era sonâmbulo.

Ela teria acreditado, se não fosse as dúvidas. Escondeu o medo que estava sentindo e agiu como se nada estivesse errado. Esfregou os olhos e perguntou casualmente:

— Ren, você está sonambulando de novo?

No escuro, um sorriso apareceu no rosto de Ren.

— Sim, aconteceu novamente. Eu não te assustei, não é? — ele falou de forma casual.

— Um … um pouco … — Sanji saiu da cama como se estivesse fugindo. Parou na porta, que lhe dava uma falsa impressão de que podia escapar a qualquer momento, o que a acalmou um pouco. Só então sentiu a temperatura do quarto igual a um forno.

— Por que está tão quente? Você desligou o ar condicionado?

Ren permaneceu em silêncio. Abriu as grossas e pesadas cortinas, revelando o conjunto de janelas que cobria toda a parede. Normalmente, Sanji conseguiria ver a deslumbrante cena noturna de metade da cidade através dessas janelas. Nesta noite, entretanto, a cidade perdeu seu eterno esplendor. Até a luz das estrelas foi bloqueada pelas nuvens, e o que sobrou foi a apenas a escuridão.

No apartamento com portas e janelas fechadas, estava tão abafado que era até difícil respirar.

— A demanda de energia deve ter sido muito alta. Parece que a energia acabou em toda a cidade. —  A voz de Ren tinha um tom alegre que mostravam sua falta de preocupação com o evento. Enquanto ele falava, ele se levantou lentamente, passando pelo final cama e indo até a porta, um passo de cada vez.

Subitamente, um som de alarme explodiu na cabeça da Sanji. Sem esperar que ele se aproximasse, ela correu para a sala de estar. Finalmente a decoração e organização desta cobertura durante os últimos três meses serviu para alguma coisa —  mesmo na mais completa escuridão, ela conseguiu chegar à entrada da sala de estar. Sem parar para respirar, com um “pah”, ela esticou a mão e esmagou o botão do elevador.

Inesperadamente, a luz não acendeu. Um condomínio tão caro não tinha um sistema de gerador?!

— A energia reserva é apenas para as luzes nas escadas. Eles não se importam com os elevadores — ainda mais elevadores privativos.

A voz soou por trás dela, uma voz que ela conhecia há meio ano. Ren continuou falando gentilmente, mas, quando ele pronunciou suas palavras, Sanji ouviu uma umidade em seu tom. Como se … Ren não pudesse controlar a saliva escorrendo na boca.

No escuro, o esboço sombrio e borrado que representava Ren arrastou-se até ela, parando finalmente no meio da sala de estar.

Sanji sentia-se fraca. Seu sexto sentido estava certo. Um sentimento de arrependimento surgiu em seu coração.

— O que … o que você quer fazer?

— Seus sentidos são bastante aguçados, — Ren engoliu um bocado de saliva. — Você já devia ter sentido, não? Você realmente deveria prestar mais atenção na sua intuição … caso contrário, você não teria voltado para cá comigo. Nesses últimos dias, você deve ter ficado cheia de dúvidas … Eu realmente deveria te agradecer pela confiança.

Sanji não percebeu, mas seus punhos estavam fechados e tremendo incontrolavelmente.

— Ji, em um calor destes, você está muito suada?

Ren perguntou aleatoriamente, sua voz preocupada…

Atordoada, Sanji tocou o seu braço inconscientemente, e percebeu que só tinha uma fina camada de suor em sua pele. Ela começou a pensar por que ele perguntaria isso justamente agora.

Ren acenou com a cabeça mostrando sua satisfação.

— Ji, você é ótima! Eu não te preparei por meio ano em vão…

De que diabos ele estava falando? Ela não entendeu nada. Sanji abriu a boca para responder, mas percebeu que sua mandíbula estava tremendo. Com tudo que tinha passado em sua cabeça nos últimos dias, ela perguntou algo que nunca teria pensado em perguntar.

— Você vai … me comer?

— Sua intuição é realmente aguçada! —  A figura negra de Ren elogiou.

A atitude dele enfureceu Sanji. Uma complexa mistura de medo, indignação e confusão cresceu dentro dela, ela já não se sentia tão indefesa quanto antes.

— Pare de falar besteiras! Quem é você? Por que você me escolheu? Não se atreva a tentar nada! Todos os meus amigos sabem que eu estou morando na sua casa … — as palavras fluíram como as ondas de uma maré.

Ela falou alto propositalmente, na esperança que alguém escutasse, enquanto tateava seu caminho para a cozinha americana ao lado da sala de estar.

Ren suspirou.

— Pelo fato de você ter me acompanhado por 6 meses, eu vou te explicar as coisas antes de você morrer… —  Ele ergueu as mãos e estalou os dedos.

Com um súbito “boom”, uma das paredes de vidro na sala de estar quebrou em mil pedaços. Uma onda de calor diferente do que Sanji tinha sentido antes atravessou a janela quebrada e tomou conta da sala. Um grito abafado ao longe entrou junto com onda de calor. O finalzinho de ar frio do ar condicionado foi engolido em um instante.

— Por que … por que está tão quente?

Era como se alguém tivesse pego toda a cidade e assado sobre uma churrasqueira! Antes que Sanji pudesse reagir, Ren voltou a falar com voz delicada:

— Desta noite em diante, este mundo não é mais o mundo que vocês conhecem. Neste Novo Mundo, de acordo com sua métrica, está… oh… 56°C.

Sanji ficou espantada. A 56°C, humanos já teriam morrido diversas vezes por hipertermia aguda e desidratação grave. Com esse pensamento súbito, ela rapidamente tocou a parte de trás de seu pescoço. Inesperadamente, Sanji realmente não estava muito suada.

— Veja só! Eu nutri você por apenas alguns meses, e você já evoluiu e adquiriu ‘Resistência ao Calor’ e ‘Sentidos Aguçados’. Duas habilidades … como esperado da semente potencial que eu descobri quando te vi pela primeira vez. Pena que esse novo mundo chegou muito cedo. Caso contrário, eu gostaria de poder te nutrir por dois anos antes de te consumir … —  O tom de Ren era de pena. Ele limpou a saliva escorrendo de sua boca enquanto caminhava em direção a Sanji. — Faz muito tempo que eu não como algo saboroso.

Depois que a parede de vidro foi quebrada, uma luz fraca inundou a sala de estar. Com a ajuda desse pouco de luz, Sanji conseguia claramente ver o rosto do Ren.

As habituais características de modelo deram lugar a uma boca enorme, que continuava a crescer a cada momento. Saliva clara e brilhante escorria pelos cantos de sua boca sem restrições, e nesse momento, Sanji já estava contra a parede da cozinha.

— Eu … eu ainda não entendo! Que tipo de criatura é você? Porque você quer me comer? Não sei de que evolução ou habilidades você está falando. Você não disse que me explicaria? Então me diga!

Mesmo que ela só pudesse atrasá-lo por um minuto, isso poderia criar uma oportunidade! Sanji gritava enquanto secretamente estendia a mão para o porta facas na bancada atrás dela.

A boca gigantesca parou, e então encolheu novamente, revelando as características faciais originais de Ren.

— Humf … Por que você é tão burra? É claro que eu sou um humano e Ren Nan é o meu nome. No entanto, eu não sou atrasado como os demais humanos. Eu venho de um outro ‘Novo Mundo’. Qualquer um que sobreviva a um Novo Mundo evolui e ganha habilidades diferentes … Eu tenho habilidades que você nem sequer conseguiria sonhar em ter.

Ren limpou seu queixo úmido de saliva e continuou:

— Eu estou te avisado, é melhor você largar essa faca. Minha visão é realmente boa. Seja obediente e me deixe te comer, eu prometo que não vai doer…

— Nem pensar! —  ela gritou furiosamente. Antes mesmo de terminar de falar, Sanji, como medo e raiva, correu em direção a ele com a faca afiada em mãos.

A lâmina brilhante e prateada se moveu de forma extremamente rápida, desenhando uma luz brilhante na escuridão. Quando a ponta da faca estava prestes a perfurar o peito do Ren, ele desviou silenciosamente. Sanji errou o alvo. Ela cambaleou para frente e escorregou sobre um pedaço de vidro. Incapaz de manter o equilíbrio, caiu pesadamente no chão.

A boca grande, que quase rasgava as bochechas, avançou para atacar Sanji, sem sequer dar chances para ela se levantar. Em pânico, ela só conseguiu se virar e jogar a faça. Ren esquivou-se rapidamente, mas ainda assim recebeu um corte superficial.

Com um barulho agudo, a faca caiu ao longe.

Ren prendeu Sanji ao chão irritada e humilhada, e olhou para as pupilas negras dela, que tinham encolhido para o tamanho da cabeça de um alfinete.

— Um bife deve agir como um bife!

Na fraca luz, Sanji observava desesperada enquanto a figura negra se aproximava de sua garganta.

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.
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