PA – Capítulo 19 – 3Lobos

PA – Capítulo 19

Quem sumiu com a minha montanha de cadáveres?

 

Os raios de luz do sol laranja já estavam iluminando os dois últimos degraus da escada rolante. A brilhante luz do sol era como uma borracha, que apagava toda a escuridão do lugar e revelava a cor original de cada objeto. Quando a luz do sol atingiu os olhos cor de âmbar de Sanji, ela fechou os olhos ligeiramente — sobrevivendo no escuro por 48 horas, ela não conseguia se adaptar à presença súbita da luz do sol.

Além do brilho, a temperatura ambiente estava incontestavelmente aumentando muito rápido. A onda de calor envolveu Sanji como se fosse devorá-la viva, e por um momento ela se sentiu como se seu sangue estivesse começando a ferver. Se ela não tivesse alcançado de repente a habilidade passiva 【Aprimoramento Físico Completo】na noite anterior, haveria uma grande chance dela não conseguir sobreviver ao caminho de volta.

Falaram para ela que tal habilidade modificaria muito o corpo de uma pessoa, e Sanji estava começando a acreditar nisso agora.

Sanji piscou os olhos algumas vezes, se esforçando para se acostumar com a visão aprimorada que a sua terceira habilidade fornecia. No chão, não muito longe deles, ela viu as manchas marrom de sangue ressecado com muitos detalhes, manchas de sujeira, pus putrefato e pedaços de carne humana.

Ela tinha acabado de franzir as sobrancelhas, sem ter tempo para processar o sentimento de nojo, quando ela subitamente percebeu a implicação da cena na frente dela. Os olhos de Sanji se arregalaram instantaneamente. Ela trocou olhares com Lutero, que estava ao lado dela. Os dois respiraram fundo simultaneamente.

Hoje, eles vieram se livrar dos cadáveres dali. Desde ontem, a pilha de cadáveres bem do lado da escada rolante tinha começado a soltar um odor repugnante. Era semelhante a ter um cadáver apodrecendo no portão da casa. Se por causa disso acontecesse um surto repentino de doenças, eles não seriam poupados, mesmo com seus corpos aprimorados. Foi por isso que Sanji decidiu subir as escadas para queimar o monte de cadáveres debaixo do calor extremo do sol.

No entanto, agora os dois estavam um pouco confusos — as manchas de sangue e os pedaços de carne eram inegáveis ​​ali, mas esses eram os únicos restos naquele lugar que uma vez abrigou aquela montanha de cadáveres.

— Aqueles… corpos? — Lutero murmurou enquanto caminhava alguns passos para a frente, sem notar que as solas de seus sapatos estavam agora numa poça de fluidos sujos e fedorentos. — Não me diga que… A Yun absorveu todos os cadáveres aqui ontem à noite?

Embora Yun tivesse mencionado que os organismos vivos eram mais benéficos para ela do que os mortos, quem sabe se ela não ficou tentada quando viu aquela pilha de cadáveres prontamente disponível e absorveu todos eles?

Sanji observou a área algumas vezes enquanto seu rosto ficava cada vez mais pálido. Ela sussurrou:

— Não foi ela.

— Huh? Como você pode ter certeza?

— Há algumas razões. Em primeiro lugar, não tinha menos do que vinte ou trinta cadáveres aqui, e só se passaram pouco mais de dez horas desde o momento em que ela apareceu aqui na noite passada até agora de manhã… Ela não teve tempo suficiente. Em segundo lugar, ela pode absorver os cadáveres inteiramente, mas e as roupas? Onde estão todas as roupas dos corpos? — Sanji se forçou a se acalmar, evitando olhar para as ruas do lado de fora.

Pelas grandes portas de vidro do shopping, era fácil ver a mesma fila de carro que tinha engarrafado a estrada em frente do shopping.

— Em terceiro lugar, olhe lá fora.

Lutero apertou os olhos e olhou nos carros na fila usando seus Olhos de Águia. Ele descobriu o que Sanji queria dizer quase que imediatamente. Na noite passada, quando atravessaram as filas de carros, ainda havia muitas pessoas batendo nas janelas dos seus carros, pedindo a eles ajuda para chegar no shopping. Porém, agora os carros estavam todos vazios, não havia nem uma só pessoa neles. Algumas janelas dos carros foram quebradas, e alguns outros tiveram suas portas abertas. De relance, Lutero percebeu uma camisa de homem cinza e um par de calças jeans na estrada, uma das mangas tinha dobrado para cima enquanto a outra para baixo. Era como se o proprietário estivesse congelado no local quando ele ainda estava usando aquela camisa. Lutero tinha uma vaga memória daquela roupa. Ontem à noite, as roupas ainda eram usadas ​​por um jovem com um penteado da moda.

Eles realmente ignoraram esse fato. Uma rua inteira cheia de carros, e havia pelo menos uma pessoa viva na maioria dos carros. Para Yun, não deve ter sido diferente de um buffet que você pode comer o tanto que aguentar. Lutero estremeceu por um momento. Mesmo que ele tivesse visto um número incontável de cadáveres, ele não conseguia não ficar assustado com isso.

Sanji, diferente do habitual, xingou com um monte de palavrões.

— Eu realmente não imaginei que isso aconteceria. Ela era realmente tão… Uma pessoa viva por hora, ela realmente teve coragem para fazer isso!

— Vamos sair mais tarde para ver se há outros sobreviventes. Nós podemos decidir o que devemos fazer então… Caso contrário, se deixarmos eles lá fora, receio que a Yun possa vir aqui novamente esta noite, — disse Sanji com veemência. Depois de responder com um suspiro, Lutero franziu a testa e parou de olhar para a fila de carros. Ele tentou não pensar em como Yun enganou cada um dos motoristas ou passageiros dos carros, um por um, para abrir suas portas e se esforçou para se concentrar no estranho fenômeno diante dele.

— Isso é esquisito. Se não foi coisa da Yun, onde foram parar os cadáveres?

— Eu também não sei. — Sanji tinha uma expressão desagradável em seu rosto. Ela caminhou pela área, mas não conseguiu encontrar nada.

— Quem iria desperdiçar seu tempo e energia para arrastar esses cadáveres sem nenhum motivo? — Lutero a seguiu e andou em volta. Assim que ele estava prestes a pedir a Marcie para que subisse as escadas para dar uma olhada, ele ouviu um barulho debaixo dos seus pés, e de repente perdeu o equilíbrio. Em pânico, ele tentou manter seu equilíbrio por reflexo, mas seus pés estavam muito escorregadios. Com um barulho “Pa!” ele caiu de corpo inteiro em uma poça de sangue pútrido. Ele imediatamente gemeu em desgosto.

O “culpado” que causou o seu tempo rolou para longe — Sanji olhou ao redor e sentiu seu estômago embrulhar — era um globo ocular de uma pessoa que tinha sido meio esmagado pelo Lutero. Lutero também viu isso. Ele se levantou rapidamente daquela poça de sangue rançosa e começou a tossir, balançar os braços e bater os pés no chão. Pelo jeito que ele reagiu, ele devia estar morto de nojo.

— Ah, vamos lá! Pare. Vamos lá em baixo ver se encontramos alguns toalhetes húmidos para você se limpar… — Sanji disse enquanto evitava Lutero ao caminhar.

Quando ela caminhou até a escada rolante, ela se virou para olhar para Lutero que estava balançando a cabeça como um cachorro com pelo molhado. Ela não pode evitar repreender brincando:

— De que adianta agir assim? Vamos voltar… hein?

A segunda metade de sua frase parou como se ela tivesse pisado nos freios de um carro, ela permaneceu imóvel, aparentemente assustada. Lutero, que estava quase todo encharcado com o fluido dos cadáveres, não deixou de notar o súbito comportamento peculiar dela:

— O que foi? O que você está fazendo?

Sanji não falou uma palavra. Ela ergueu o dedo apontando para uma distância, para cima. Perplexo, Lutero seguiu a trajetória do dedo dela, ainda assim incapaz de descobrir o que estava errado.

Os raios do sol penetravam como ouro derretido do alto do teto de vidro no último andar. Um reflexo branco cobria as cerâmicas no chão, as folhas verdes das plantas e as alças de portas banhadas a ouro de várias lojas, como ecos da luz do sol. Itens feitos de plástico derreteram durante o dia e endureceram durante a noite, formando uma coleção de esculturas estranhas. À primeira vista, era como um museu de arte moderna.

Se não fosse pela temperatura assassina, o cenário seria consideravelmente fascinante, mas o que havia de errado nela?

Depois de examiná-la mais uma vez, de repente ele exclamou:

— Ah! — Ele só percebeu isso agora, de repente seu rosto estava cheio de admiração, — Por que ela está totalmente ilesa?

O “ela” era a floresta tropical de cinco andares à mostra no centro do shopping. Mesmo que fossem plantas tropicais, não havia uma única planta no mundo que pudesse tolerar temperaturas tão altas que conseguiam até mesmo derreter plástico. Apesar disso, a pequena camada de floresta tropical à sua frente ainda era densa, verde e cheia de vida, como se o inferno hipertermal fosse apenas uma ilusão. Elas contrapunham totalmente as árvores na calçada, separadas pelas paredes de vidro.

Cada um dos troncos das árvores ornamentais do lado de fora parecia carvão, preto e seco. Todas as folhas caíram ao chão, aglomeradas em uma mancha preta, e era quase impossível dizer sua forma original. Algumas das árvores na passarela até quebraram ao meio porque seus troncos finos ficaram secos e quebradiços demais para suportar seu peso.

Comparando os dois, Sanji até mesmo teve a impressão que as plantas tropicais no shopping pareciam ainda mais saudáveis do que antes.

Encontrando esses dois fenômenos estranhos um após o outro, eles realmente não conseguiam pensar em uma explicação para tal situação. Sanji pensou por algum tempo e disse para o Lutero:

— Essas plantas são realmente muito misteriosas… É verdade, porque não chamamos a Marcie para ver isso? Três cabeças pensam melhor do que duas!

— Tá bom. Eu não acho isso tão estranho. — Lutero não se importava muito com as poucas plantas verdes à sua frente. — Talvez o vidro seja especial, então ele bloqueia qualquer raio UV ou algo desse tipo.

— Mesmo assim, não devemos simplesmente ignorar isso.

— Claro, claro. Mas eu posso trocar de roupa primeiro? Está tão desconfortável isso. — Obviamente, a atenção do Lutero ainda estava nas melecas malcheirosas cobrindo o corpo dele. Era realmente muito fácil para ele trocar suas roupas, já que no shopping, lojas de roupas era o que não faltava. Lutero olhou ao redor por um tempo e sorriu para Sanji perguntando: — Você acha que devo usar Armani ou DG?

Sanji não aguentou mais:

— Espero que você ainda consiga correr rapidamente usando um terno tamanho P.

— Certo, eu sei… — Lutero olhou resignado, dizendo isso enquanto subia as escadas. Sanji não queria ficar na área onde os cadáveres tinham desaparecido misteriosamente, então ela seguiu ele rapidamente.

— Espere por mim!

Lutero parou no meio da escada, virando e rindo:

— Por quê? Você quer procurar algumas roupas de marca também? Eu queria dizer isso há bastante tempo, porque uma moça bonita como você está vestindo roupas como se estivesse indo praticar Tai Chi Chuan?

Por que tem que ser Tai Chi—

Antes que ela pudesse terminar sua pergunta, uma forte rajada de vento seguiu um longo e escuro vulto que atacou os dois na escada na velocidade de um raio.

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.
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