PA – Capítulo 15 – 3Lobos

PA – Capítulo 15

Yun Kong

 

 

Um instante depois que ouviram o barulho, os três saltaram.

Não tinha passado nem meio segundo e Sanji já tinha virado a palma da mão e agora estava segurando a faca do chef enquanto perguntava severamente:

— Quem está aí?

O tom frio de sua voz ressoou na escuridão.

— Ah… não fique nervosa. Sou eu. Eu sou a Yun Kong, do andar de baixo, — essa foi a resposta do corredor escuro em frente ao quarto da babá.

Yun parecia um pouco cansada, mas aparentemente bastante satisfeita.

— Excelente. Então, vocês têm lanternas, — ela disse e caminhou em direção a eles mesmo sem ser convidada para entrar no apartamento.

Lanterna? Onde…

Os três imediatamente perceberam do que Yun estava falando e silenciosamente xingaram a situação. O Agente Aprimorador de Habilidade era realmente muito brilhante, tanto que Yun podia ver a luz que ele emitia mesmo da porta de emergência. Eles já conseguiam ouvir os passos da Yun enquanto ela se aproximava. Em um momento de ansiedade, Marcie chutou o Agente Aprimorador de Habilidade para o sofá. Pouco antes da pequena garrafa bater no sofá, ela desapareceu em inúmeros fragmentos de luz e se integrou ao sofá. A sala de estar de repente ficou escura.

— Huh? Por que vocês desligaram a lanterna? Não consigo enxergar nada… — Yun falou parecendo bastante insatisfeita.

Sanji franziu ligeiramente sua testa. Ela teve uma inspiração repentina e respondeu rapidamente:

— Aquilo era o meu celular. A bateria acabou de acabar… Tia Kong, não pedimos que você nos esperasse no seu apartamento? Por que você veio aqui? — Depois de uma pausa, ela estava cheia de dúvidas: — Então, como você sabia que eu morava aqui?

Aproveitando a oportunidade enquanto conversavam, Sanji colocou a mão na perna do cadáver. Houve uma breve luz branca, e o chão ficou vazio.

Assim que ela estava para pegar a carta, Yun conseguiu chegar na sala de estar, tateando no escuro. No momento em que ela entrou na sala de estar, Lutero acendeu o isqueiro. Sob o brilho laranja-vermelho, Yun parecia um pouco patética — seu rosto e seu corpo estavam cobertos de suor, e seus fios de cabelo estavam grudados em sua testa. Sentindo o olhar deles, ela sorriu embaraçosamente para Sanji.

— O segurança me disse uma vez que você e seu namorado eram os proprietários do último andar. Seu apartamento fica em um andar muito alto, eu me sinto muito cansada depois de subir do 26º andar…

Embora ela já tivesse evoluído, a evolução por si só não era algo surpreendente. Sem o aprimoramento de força, nem todos tinham um físico tão bom quanto o da Sanji. Depois de abaixar a faca, e com o coração ainda querendo para olhar o papel no chão, Sanji forçou um sorriso:

— Tia Kong, por que você veio aqui em cima?

— Nada de mais. — Yun parecia um pouco pressionada. — Eu estava sozinha no meu apartamento, e meu marido ainda está desaparecido. Eu fiquei com medo…

Isso não era algo incompreensível. Os três olharam um para o outro, e Lutero de repente sorriu para Yun, mostrando seu conjunto de dentes brancos:

— Tia Kong, é ótimo que você esteja aqui. Isso nos poupou o trabalho de ir lá embaixo para buscar você. Veja só, nós trouxemos arroz aqui para que pudéssemos cozinhar um pouco de ensopado… Você quer comer tambem?

Sanji aplaudiu silenciosamente em seu coração — essa era uma ótima desculpa! Se não, eles de pé aleatoriamente no meio da sala de estar iria parecer bastante estranho.

Yun estava visivelmente distraída enquanto olhava para o saco de arroz, então ela começou a rir:

— Por que não? Embora esse arroz não seja adequado para fazer ensopado, essa é uma boa idéia. Vão descansar e deixa que eu cozinho.

— Certo, eu te ajudo. — Marcie pegou o saco de arroz e carregou para a cozinha.

Yun não teve como não ficar curiosa sobre Marcie. Ela rapidamente a seguiu perguntando:

— Seu mandarim é realmente bom, de onde você é?

Depois de ver as duas conversando, entrando na cozinha e começando a se preparar para cozinhar o ensopado, Lutero finalmente entregou algo calmamente para a Sanji. Ao que parece, ele tinha conseguido pegar a carta no chão em algum momento.

— Então, isso é…— Sanji estava prestes a dizer algo quando o rapaz a interrompeu.

— Vamos discutir isso quando voltarmos.

— Voltar? Quer dizer que você não está pensando em leva-la para o supermercado? — Sanji reagiu rapidamente.

Ela parecia ter falando isso instintivamente, sem pensar muito sobre o assunto. Ao ouvir as palavras dela, ele franziu a testa mostrando um olhar cheio de dúvidas. Na verdade, não levar a Yun e deixar ela, uma pessoa que tinha acabado de evoluir, quase impotente lá fora parecia bastante rude. Por outro lado, eles não tinham enfrentado nenhuma situação de vida ou morte com ela e eles não podiam confiar nela, então também não parecia adequado leva-la de volta ao supermercado.

— Vamos observar primeiro. Talvez ela tenha seus próprios planos, então não precisamos ajudá-la a tomar essa decisão, — Sanji consolou Lutero depois de ver a careta hilária em seu rosto.

Yun provavelmente cozinhava com frequência em casa. A falta de luz não impediu seus movimentos ágeis — ela cortou a galinha salgada embalada à vácuo, adicionou alguns temperos e cozinhou tudo com o ensopado por meia hora. Não demorou muito e o ar estava cheio de um aroma delicioso.

Sem ter comido uma refeição normal em mais de um ano, a boca de Lutero rapidamente se encheu de saliva.

— Venham, está pronto!

Depois de colocar o pote de ensopado na mesa de jantar, Marcie procurou alguns conjuntos de utensílios e serviu quatro tigelas de ensopado.

O ensopado da panela estava fumegante, o arroz branco de neve cintilava enquanto refletiam a luz do isqueiro. Eles sopraram o ensopado e cutucaram com suas colheres. Quando eles finalmente puderam começar a comer, pegaram impacientemente uma concha de ensopado cada.

Mesmo que o ensopado estivesse quente, não era desconfortável para eles comerem — um calor agradável encheu seus estômagos enquanto o sabor gostoso salgado do ensopado de frango permaneceu em suas bocas. Se fosse contar o tempo que tinha passado, Sanji tinha comido um delicioso salmão pouco mais de um dia antes, mas de alguma forma, esta refeição com o ensopado de frango que ela estava comendo, depois que seu mundo foi destruído, parecia uma iguaria única na vida.

Marcie comeu um bocado de ensopado e perguntou a Yun friamente:

— Como você passou o tempo sozinha ontem?

Já que o Lutero queria comer, ele deixou o isqueiro de lado. No escuro, eles não podiam ver claramente a atual expressão da Yun. Eles apenas ouviram sua voz que demonstrava saudades:

— Depois de acordar na noite passada, eu continuei procurando pelo meu marido. Nenhuma das minhas ligações funcionaram, e todos os seguranças tinham desmaiado. Eu saí do condomínio e dirigi em volta algumas vezes, e vi muitas pessoas andando e vagando nas ruas como se fossem doidos. Isso me assustou, então eu imediatamente voltei para casa. Eu aguentei a situação até a manhã, quando ficou muito quente, então eu me escondi no banheiro e acabei dormindo… Eu não sei como é que o meu marido está agora.

— Bem… Você percebeu algo sobre você mesma que está diferente de antes? — Sanji não resistiu e perguntou.

— Ahh, ah? Diferente de antes… Não. Do que você está falando? — Yun parecia espantada enquanto batia a colher contra a tigela.

Talvez as habilidades ativas dela ainda não tenham desenvolvido. Sanji pensou sobre a situação atual. Se eles tentassem explicar para ela sobre Novos Mundos, Pós-Humanos e esse tipo de coisa, seria mais convincente depois da Yun desenvolver sua habilidade ativa. Desta forma ela sorriu e falou:

— Não é nada. É uma longa história e a gente te conta mais tarde. De qualquer forma, o que você pretende fazer agora?

Yun respondeu imediatamente sem nenhum pingo de hesitação:

— Eu vou voltar para a minha casa e esperar pelo meu marido. Eu vou esperar por ele até ele voltar. Se ele voltar e não me ver, ele vai ficar preocupado. É mesmo, vamos comer um pouco mais rápido. Eu quero mostrar depois para vocês a foto do meu marido. E se vocês encontrarem com ele lá fora, por favor digam para ele voltar para casa para me ver…

Pelas palavras dela, ela não parecia ciente de que, se esperasse pelo marido, sem água e sem comida, ela acabaria morrendo no final das contas. Talvez, não fosse que ela não sabia, mas sim que ela estava disposta a correr o risco — mesmo que só tivesse uma pequena chance de rever o seu marido.

O ambiente na mesa de jantar subitamente ficou pesado. Depois de algum tempo, Sanji finalmente disse:

— Tudo bem, se você estiver com pouca comida, a gente traz mais para você.

Ela não queria destruir a única fonte de esperança da mulher tão repentinamente. Uma pessoa perder a esperança era semelhante ao clima cruel do lado de fora, era igualmente fatal para uma pessoa. Yun a agradeceu profundamente. Eles terminaram de comer a pequena panela de ensopado muito rapidamente. Depois das explicações da Yun, os três juntaram as coisas e seguiram ela para o andar de baixo.

Haviam dois apartamentos em cada andar subsequente à cobertura. Como o outro apartamento no 26º andar sempre estava vazio, Yun deixou sua porta destrancada quando ela saiu. A porta abriu facilmente quando ela empurrou.

Os três ficaram surpresos quando entraram no apartamento dela.

O apartamento estava decorado elegantemente e muito iluminado. Havia muitos candelabros elegantes nas superfícies grandes e pequenas da sala, como a mesa de jantar, mesa de café e suporte para flores. Cada um dos candelabros tinha várias velas de cor cremosa. As luzes alaranjadas das chamas e uma fraca fragrância inundavam toda a sala de estar. Era bonito como uma paisagem de um sonho — e estava extremamente quente como um pesadelo.

Cercado pela luzes das velas, Yun sorriu timidamente enquanto as lágrimas escorriam de seus olhos.

— Meu marido comprou essas velas para o nosso aniversário de casamento. Quando cheguei em casa naquele dia, o apartamento estava cheio de velas. Ele mesmo cozinhou para mim…  — sua voz ficou presa em sua garganta. Ela amarrou seus cabelos e procurou algumas molduras de fotos como se nada tivesse acontecido.

— Depois do aniversário, ele queria jogar fora as velas. Mas eu discordei veementemente. E olhe, agora elas foram úteis. — Yun fungou chorosamente enquanto passava uma foto para a Sanji.

O homem na foto tinha uma aparência normal, seu sorriso era gentil e seus dentes brancos. — Ah! — Sanji exclamou antes de falar:

— Tenho a impressão de que eu já vi o seu marido antes, uma vez lá embaixo.

Sanji explicou que ela se lembrou dele porque, na época, tinha uma mulher extremamente nervosa no telefone com ele. A mulher estava gritando continuamente sobre algo e estava tão alto que podia ser ouvido até mesmo longe do telefone.

Depois de Sanji falar isso, as lágrimas de Yun escorreram descontroladamente.

— Nós brigamos naquele dia… Eu realmente me arrependo… Se eu soubesse que iriamos nos separar, eu nunca teria gritado com ele. Ele é uma pessoa tão gentil…

Marcie deu um tapinha camarada no ombro de Yun e suspirou. Lutero sentou-se silenciosamente em uma cadeira. Assim como qualquer homem, ele não sabia o que fazer quando se tratava de mulheres chorando. Depois de dizer algumas palavras reconfortantes para Yun, Sanji levantou-se e seus olhos percorreram o apartamento aleatoriamente. De repente, ela franziu a testa, sentindo-se um pouco suspeita. Olhando cuidadosamente, havia algo estranho sobre o apartamento.

O filtro de água na sala de estar estava vazio, mas havia uma garrafa cheia de água ao lado. Era como se o dono não achasse necessário encher o filtro de água. O dono podia não estar com sede, mas o aquário estava seco. Havia apenas uma camada de rochas ornamentais e um pequeno baú de tesouro seco dentro. Quando ela se aproximou, ainda havia um forte cheiro de peixe. A coisa mais estranha eram as plantas nos vasos do apartamento, ou melhor, apenas vasos cheios de terra que deveriam ter plantas neles. As plantas haviam desaparecido, e havia buracos na terra onde elas estiveram. Ela até viu alguns pedaços de raízes… Um pensamento repentino apareceu em sua mente.

— Eu vou pegar algo para você beber. Você tem alguma bebida na geladeira? — Sanji foi para a geladeira rapidamente antes de perguntar para Yun. Antes mesmo de receber uma resposta, ela abriu a porta da geladeira.

Os compartimentos da geladeira estavam quase vazios, havia apenas algumas embalagens de plástico espalhadas  — daqueles usadas ​​em supermercados para embalar legumes, um deles tinha até o preço: cenouras orgânicas Gourmet, $14,98. No compartimento esquerdo da geladeira, havia um conjunto organizado de bebidas. Sanji teve certeza, mesmo ao olhar apenas uma vez, que as bebidas nunca foram tocadas por ninguém.

Só então ela ouviu a voz ligeiramente ansiosa de Yun vindo de trás dela:

— Não, está tudo bem. Eu não estou com sede. Obrigado.

Sanji fechou a porta da geladeira e virou-se para olhar a mão que Marcie tinha colocado na Yun. Ela se sentiu como se uma pedra tivesse caído em seu estômago.

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.
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