PA – Capítulo 13 – 3Lobos

PA – Capítulo 13

Mais um Pós-Humano

 

 

Suas lembranças eram como um caldo turvo, como se alguém tivesse adicionado água fervente e feito sopa com elas. Ela só conseguia se lembrar de estar dormindo em sua cama enquanto a temperatura aumentava a cada momento, e ela ficava cada vez com mais sede… De repente, se sentiu gentilmente preocupada com o homem ao seu lado. Ela segurou a mão dele e sussurrou:

— Estou com sede…

Ela abriu os olhos. Por uma fração de segundo, Sanji imaginou que tivesse visto aquele rosto branco como a neve novamente. Ela respirou fundo e se levantou. Ela balançou sua cabeça olhando os arredores iluminados com aquela luz fraca.

O supermercado gourmet, onde ela ocasionalmente ia comprar lanches importados para experimentar, agora estava morto. Estava escuro, silencioso e bagunçado.

Uma mulher caucasiana magra e branca tinha enterrado seu rosto em seu próprio volumoso cabelo ruivo e estava dormindo profundamente. O rapaz bonito, de pele clara que estava deitado ao lado de Marcie abriu um pouco os olhos quando ouviu os movimentos de Sanji.

— Você está acordada? — Lutero, que tinha acabado de acordar, perguntou instintivamente. Ele olhou para o relógio pendurado na parede do supermercado. — Oh! Já passou das 18 horas.

Marcie acordou com a voz de ambos. Ela esfregou os olhos com cansaço e sentou-se.

— Não me admira que eu esteja com fome… — Sanji podia ouvir o seu estômago roncando. Ela bebeu um bocado de água e murmurou: — Aquele cadáver pequeno e dissecado finalmente ficou quieto.

De fato, a área ao redor da sala de funcionários estava quieta. As prateleiras ainda estavam bloqueando a porta, e era como se nunca tivesse existido uma Sisi. Lutero respondeu:

— Vou buscar comida. — Com isso, ele se levantou, arrastando seus pés e bocejando algumas vezes enquanto caminhava para a seção de alimentos. Ele voltou com alguns alimentos embalados a vácuo como empanados de frango e pé de pato defumado.

Depois de acordarem, eles perceberam que a atmosfera tensa e desagradável de antes deles irem dormir quase tinha desaparecido. Os três se sentaram confortavelmente em círculo, comendo e conversando ao mesmo tempo.

— Eu diria que você não se parece com alguém que esteve em um campo de batalha, — Sanji disse brincando para Lutero. Ela conseguiu encontrar um pacote de seus biscoitos amanteigados favoritos.

Ao ouvir isso, Marcie resmungou:

— Nem me fale. Quando nos juntamos ao exército, eu tive que treinar todos os dias, mas ele se safou dessa. Usando sua habilidade de mudar de aparência, ele vivia confortavelmente…

— Sério, agora quero saber a história toda! — Sanji riu e continuou perguntando.

Lutero ouviu as duas fofocando, mas ele estava com a boca cheia de comida, então ele simplesmente não conseguia se explicar. Ele bebeu ansiosamente alguns bocados de água na esperança de engolir a comida rapidamente e quase engasgou… De repente, raros sons de risadas ecoaram no supermercado. Eles riam e brincavam, e por um momento parecia que o Novo Mundo, afinal de contas, não era assim tão assustador.

Sisi ficou com muita raiva quando ouviu as risadas. Ela bateu na porta enquanto gritava agudamente.

Os três haviam dormido de manhã aos sons daqueles gritos agudos, então eles já estavam acostumados com o barulho. Sem nem se importar com o barulho eles continuaram a comer calmamente. Com os gritos estridentes de Sisi ao fundo, Lutero exclamou:

— Seria ótimo se pudéssemos fazer alguns legumes fritos e arroz!

Isso fez Sanji lembrar de algo, e ela juntou as mãos de repente com um estalo:

— Nós não vamos ao meu apartamento para vasculhar o cadáver do Ren? Há um fogão a gás no apartamento que ainda deve funcionar. Vamos levar um pouco de arroz. Eu não sei se dá para fazer legumes fritos, mas fazer ensopado de porco não deve ser nenhum problema.

Assim que ela sugeriu isso, os outros dois começaram a salivar. Lutero foi o primeiro a se levantar com um pulo. Ele puxou Marcie com entusiasmo, correndo pelo supermercado. Com alguns poucos minutos eles reuniram todos os ingredientes necessários: arroz tailandês, água mineral e carne embalada a vácuo…

Infelizmente, eles não conseguiram encontrar uma única lanterna no supermercado. Os três não tiveram muita escolha a não ser usar um isqueiro para prover um pouco de iluminação.

Depois de descansarem por algumas horas, decidiram que já deveria estar totalmente escuro lá fora. Pegaram os ingredientes e deixaram o supermercado. Por precaução, eles até mesmo trancaram o portão de rolo antes de saírem. Subiram a escada rolante e descobriram que o sol já havia se posto. O saguão no primeiro andar estava escuro e sem nenhum sinal de vida.

Inesperadamente, devido à peculiar estrutura do shopping, o calor do sol estava preso dentro do prédio. Sem o habitual ar frio dos ar-condicionados, todo o saguão do primeiro andar estava agora como um grande forno a vapor.

O calor desconfortável era extremamente invasivo. Em poucos segundos os três já estavam cobertos de suor. Isso sem contar ainda o fedor da pilha de cadáveres exposta ao calor. Sanji correu para a saída do shopping pelo fato de não querer ficar no primeiro andar nem um segundo a mais, só então ela sentiu uma leve brisa em sua pele.

Eles tinham que pensar em um método para se livrar dos cadáveres rapidamente.

A longa fila de carros, que Lutero e ela mesma atravessavam pela manhã, ainda estava na frente do shopping. A única diferença da cena da manhã era que a metade dos carros tinha ficado sem gasolina, e agora estavam silenciosos e sem vida. Ocasionalmente, eles viram alguns carros com motores ainda ligados, lutando para continuar funcionando.

A fila de carros era como uma serpente morta, deitada imóvel sob o calor.

Sanji liderou o grupo passando pelo caminho entre os carros na estrada. Ela não olhou dentro de nenhum carro — ela já tinha visto pessoas mortas o suficiente. O bairro residencial que ela tinha morado com Ren não ficava longe do shopping. Demorou pouco mais de dez minutos e finalmente chegaram ao térreo do condomínio de 38 andares.

A onda de calor tinha vindo e ninguém estava preparado para ela, então cerca de 70% a 80% da população humana havia sido exterminada em um único dia. Consequentemente, a rede elétrica não tinha sido consertada. Atualmente, os três dependiam de suas próprias pernas para subir as escadas até o 38º andar.

Sendo o único homem do grupo, Lutero não teve escolha e teve que carregar os ingredientes mais pesados ​​como o arroz e as garrafas de água. Ele seguiu andando atrás das duas moças, ofegante enquanto subia as escadas.

Embora fossem os chamados Pós-Humanos, eles já tinham subido 25 andares de escadas e isso era um pouco insuportável até mesmo para eles. Como o corpo da Sanji ainda não havia sido reforçado, ela foi a primeira e se sentar nos degraus. Ela continuou balançando as mãos dizendo:

— Eu não consigo continuar, não consigo continuar. Vamos descansar… Deixe-me recuperar o fôlego e beber um pouco de água.

Marcie examinou os arredores cautelosamente com o isqueiro na mão. Ao ver que não havia nada fora do comum, ela passou uma garrafa de suco para as duas pessoas exaustas que estavam sentadas nos degraus.

À medida que o gosto doce e refrescante do suco de mirtilo passava pela sua garganta, Lutero estava prestes a louvar o sabor da bebida — de repente, eles ouviram um clique da porta no 26º andar. Ela abriu…

— Tem alguém aí? Querido, é você? — Uma voz de mulher chamou, trêmula e cheia de medo. Não tinha passado nem um segundo e os três já estavam de pé, totalmente alertas. A lição que eles tinham aprendido de Sisi ainda estava fresca em suas mentes. Sem falar nada antes, Marcie ordenou diretamente:

— Pare onde você está! Quem é você?

A mulher do 26º andar, aparentemente, não esperava que realmente houvesse pessoas nas escadas e gritou assustada. Depois disso, ainda parecendo com medo, ela disse:

—Eu… Eu moro aqui… Eu saí para procurar meu marido. Quem é você?

Os três se entreolharam. Sanji pensou por um momento e depois respondeu:

— Eu também moro aqui. Você pode caminhar lentamente até as escadas e nos mostrar o seu rosto?

— Ahh…  Por que você está pedindo para fazer isso? — perguntou a mulher, mas mesmo assim seguiu as instruções da Sanji e caminhou até as escadas. Os três levantaram a cabeça e olharam para cima seguindo a luz vinda do isqueiro da Marcie.

Sob o brilho laranja, eles viram um rosto comum de uma mulher perto dos corrimãos das escadas. Ela tinha pouco mais de trinta anos de idade e estava vestindo um pijama vermelho. Suas características faciais eram bastante elegantes, mas seus olhos estavam inchados. Ela também estava visivelmente aterrorizada. Quando viu Sanji, a mulher finalmente suspirou aliviada:

— Ah, é você. Eu já te vi lá embaixo antes!

Sanji não tinha nenhuma recordação da mulher. Já que ela não era uma degenerada, os três baixaram a guarda e foram para o andar de cima.

Vendo o rosto familiar de Sanji, a mulher ficou bastante amigável e disse com pressa:

— Você pode não ter me visto antes, mas eu já vi você um par de vezes. Você saía para passear com seu namorado com frequência. Ele é alto e muito bonito, né?

Depois de ter dito isso, ela olhou para o único homem, Lutero, e depois para Marcie. Ela evidentemente ficou bastante perplexa, mas não fez perguntas. Ela apenas se apresentou dizendo:

— Meu sobrenome é Kong, eu sou Yun Kong. Você viu meu marido?

Sanji quase não conseguiu lembrar quando foi a última vez que tinha visto uma pessoa normal e viva. Ela não queria dizer uma única palavra sobre o Ren. Assim que ela estava prestes a responder, Lutero de repente falou:

— Tia Kong, qual é a aparência do seu marido? Ele não estava em casa com você?

Essas palavras fizeram com que as lágrimas de repente fossem derramadas dos olhos de Yun:

— Na noite passada, fomos dormir juntos. Teve um apagão, eu acordei por que estava muito quente. Quando eu me virei para olhar para o meu lado, meu marido tinha sumido… Só o pijama dele estava na cama. Eu tenho certeza que ele saiu, mas não sei onde ele está… Eu não tive coragem de sair de manhã…

Provavelmente porque ela não tinha visto ninguém mais vivo por um bom tempo, ela parecia ter intenção de derramar todas as suas emoções:

— Mas, como é que o maldito clima ficou tão assustador? Eu fui até o térreo para procurar pelo seguranças, mas eles estavam todos caídos no chão. Não sei se eles estavam todos inconscientes ou mortos. Eu estava tão… tão assustada…

Sanji a ouviu e assentiu de forma reconfortante. De repente, ela sentiu um puxão no canto da sua camisa. Ela virou-se e percebeu que Marcie estava olhando para ela.

Assim como Marcie sussurrou na orelha de Sanji, Lutero deu um passo à frente ao mesmo tempo, como se tivesse olhos na parte de trás da cabeça. Ele bloqueou a visão de Yun impedindo que ela visse Marcie sussurrando e por perceber que havia algo estranho acontecendo.

— Nosso objetivo aqui é pegar o corpo do Ren. Não deixe que ela nos siga. Não precisamos de mais problemas, — murmurou Marcie.

Isso era verdade. Vendo o comportamento atual da Yun, se ela visse o cadáver, isso causaria muitos problemas desnecessários. Sanji assentiu com a cabeça e disse a Yun:

— Tia Kong, eu quero ir para o andar de cima para pegar algumas roupas. Que tal assim? Você volta para o seu apartamento para descansar e a gente te busca quando nós estivermos descendo. A gente pensa no que podemos fazer depois, okay?

Ter um rosto familiar certamente era útil, Yun concordou imediatamente.

— Ah, é mesmo, você precisa de algo para se reidratar? — Sanji olhou para os lábios ressecados dela e ofereceu o restante da meia garrafa de suco.

— Uh, eu… Eu… Eu não… — Yun de repente parou no meio da frase. Ela lutava com suas palavras por um momento enquanto olhava furtivamente ao redor. — Uh, eu quis dizer… Obrigado, vou beber um pouco. Obrigada!

Não só os seus dois companheiros que estiveram em campos de batalha, mas mesmo que Sanji que tinha experimentado dois encontros com a morte, eram extremamente sensíveis — ao ver aquela estranha reação de Yun, os três não conseguiram evitar de encará-la.

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.
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