PA – Capítulo 11 – 3Lobos

PA – Capítulo 11

A Pessoa do Outro Lado da Porta

 

 

— O que foi isso? Vocês não falaram que não havia mais ninguém no supermercado? — Marcie falou bem baixinho, com seu corpo tenso.

— Não havia ninguém quando procuramos. Sabe-se lá de onde eles vieram. — Lutero repreendeu falando baixo.

Dada a situação atual, todos os três tinham facas de cozinha em suas mãos. Liderados por Lutero, seguido por Sanji e depois Marcie, que se mantinha atenta para qualquer coisa que pudesse vir por trás, o grupo andou lentamente na direção de onde eles ouviram a batida.

Pegar as facas de cozinha foi ideia de Sanji, e eles encontraram facas na seção de comida  pronta. Talvez pelo fato delas terem sido usadas para o corte de carne assada, elas já não estavam mais tão afiadas — e embora eles tivessem limpado as facas, elas ainda tinham um fraco fedor de carne podre. Mesmo assim, os três se sentiam muito mais confiantes com elas em mãos.

“Bang!” outro som abafado soou no supermercado.

Desta vez, os três imediatamente identificaram a direção correta de onde o barulho tinha vindo, e depois mudaram o caminho e seguiram na nova direção, Marcie apontou:   

— É aqui!  

Não muito longe deles, sob a fraca luz das velas, eles viram uma porta com uma placa “Só Funcionários”. Os três se entreolharam. Sanji assentiu com a cabeça e começou a falar — não importa quem fosse a pessoa do outro lado, a voz de uma mulher jovem provavelmente faria a outra pessoa baixar a guarda.

— Quem está aí dentro? Saia daí agora!

O silêncio reinou por alguns segundos.

Depois de esperaram por um tempo, um inconfundível barulho de choro veio por detrás da porta, justamente quando Sanji estava prestes a repetir a pergunta impacientemente. Eles ouviram uma voz clara e tímida, perguntando:

— Quem é você?

Espantados e até mesmo um pouco aliviados, os três abaixaram as facas. Não apenas porque eles podiam claramente dizer que era uma voz de uma mulher, mas também porque a voz soava como uma criança — a pessoa atrás da porta não tinha mais que quatorze anos de idade.

— Ei, garotinha? Quantos anos tem? Nós não somos pessoas más… — Sanji perguntou cautelosamente, — Você está sozinha aí atrás da porta?

A menina murmurou — Sim — e com uma voz chorosa respondeu, — Eu tenho onze anos.

Ao ouvir a resposta, os três colocaram as facas no chão, Marcie até mesmo chegou a pegar uma toalha em uma das prateleiras para cobrir-las. Como se estivesse com medo de assustar a menina, ela perguntou com uma voz suave:

— Por que você está aqui sozinha? Onde estão seus pais?

O choro da garotinha se intensificou:

— Meu… meu… pai trabalha aqui. Ele me trouxe aqui ontem à noite. Depois disso, muitas pessoas vieram para o supermercado e começaram a brigar para pegar as coisas nas prateleiras, então meu pai me trancou aqui e me disse para não sair…

Olhares de pena apareceram em seus rostos. É claro que o pai da menina provavelmente estava morto — podia até ser que ele fosse um daqueles cadáveres que eles carregaram para fora.

— Garotinha, qual é seu nome? Por que não abre a porta primeiro? — Marcie bateu na porta gentilmente.

— Meu nome é Sisi Wang. Meu pai falou que eu não deveria abrir a porta se não fosse para ele… — a menina começou a chorar novamente, — mas ele não voltou até agora…

Os três não puderam evitar de se sentir emocionados. Ela era apenas uma garotinha, eles ainda nem sabiam como ela tinha conseguido sobreviver durante a noite…

— Você também deveria dizer algo para consolar ela. — Lutero sugeriu suavemente para Sanji.

Sanji tinha uma expressão complicada no rosto por uma fração de segundo. Marcie, que ainda falava suavemente na porta, olhou para Sanji de forma encorajadora, então Sanji não teve escolha. Ela tossiu e se preparou antes de falar, — Sisi, você vai ter que ser forte agora! — assim que estas palavras saíram de sua boca, os outros dois imediatamente olharam para ela como se ela fosse uma aberração.

Sanji olhou de volta para eles, impotente. Esse tipo de coisa estava bem além do que ela era capaz de fazer. Mesmo que ela fosse uma mulher, ela foi criada como um menino desde criança e ela não fazia ideia do que fazer quando o assunto era lidar com crianças. Além do mais, em uma situação onde a criança já estava tão assustada e frágil — poderia se considerar muito bom que seu “conforto” não deixasse nenhum tipo de trauma mental.

Ao ouvir as palavras frias de Sanji, Sisi instantaneamente gaguejou e parou de falar.

Marcie revirou os olhos para Sanji e sussurrou para os dois.

— A garotinha provavelmente já ganhou Resistência ao Calor. Não é bom para ela continuar lá dentro. — Então, ela rapidamente disse, — Sisi, seu pai disse para não sair, porque era perigoso naquela hora, mas o perigo já passou. Por que não sai daí? Podemos esperar por seu pai juntos, tudo bem?

Sisi, que estava atrás da porta, parecia bastante indecisa. Ela soluçou duas vezes como se fosse incapaz de tomar uma decisão.

Neste ponto, Marcie, que já estava sobrecarregada com o instinto maternal, sentiu seu coração derreter quando ela ouviu a garota soluçar. Ela caminhou rapidamente para a porta e continuou na voz suave.

— Você está aí dentro desde ontem à noite, acho que você deve estar com fome agora. Titia tem um monte de comida aqui, o que você gosta de comer?

— Bem, estou com muita fome. Eu queria poder comer o peixe que a minha mãe cozinha… — Sisi disse timidamente, — e uma barra de chocolate….

Lágrimas brotaram nos olhos da Marcie. Ela limpou o canto dos olhos e respondeu rapidamente.

— Claro, claro. Vamos abrir a porta. Titia vai te levar para comer, tudo bem?

Vendo que ela estava lidando muito bem com a situação, as duas pessoas ociosas por trás dela começaram a fofocar em sussurros.

Lutero falou baixinho:

— Marcie me falou que ela se casou uma vez anteriormente. Mas os dois não podiam ter filhos, então terminou em divórcio…

Sanji ficou um pouco perturbada quando ela ouviu isso. — Não é de se admirar! Então até mesmo uma segunda personalidade que tomou forma corpórea pode ter um conjunto de experiências de vida completamente diferentes…

Enquanto os dois estavam jogando conversa fora, Sisi finalmente concordou em sair sob a persuasão da Marcie.

— Tia, eu estou saindo… — Sisi falou um pouco apreensiva. Eles ouviram o “click” da porta, e a maçaneta virou.

Entretanto, a porta não se mexeu.

— Huh? — Marcie estava surpresa. Ela abaixou a cabeça e examinou a porta, em seguida, de frente para a moldura da porta, ela perguntou.

— Sisi, seu pai trancou a porta pelo lado de fora quando ele saiu?

A menina de repente parecia em pânico e respondeu:

— Sim… Eu acho que sim. Não me lembro!

Os três franziram a testa. Como o supermercado tinha consumidores de classe A, os materiais utilizados na construção foram escolhidos a dedo. Portanto, até a porta da sala dos funcionários era muito grossa. Marcie examinou o buraco do fechadura e gritou ferozmente:

— Afaste-se, Sisi! A tia vai derrubar a porta! — Antes que as outras duas pessoas pudessem detê-la, ela chutou a porta com força.

Marcie prendeu a respiração e imediatamente se sentou no chão, segurando a perna que doía. A porta não tinha se movido nem um pouco.

— O que devemos fazer? — Ela se virou e olhou para as duas pessoas atrás, se sentindo ligeiramente impotente.

Sanji abriu a boca, mas por fim manteve o silêncio. Talvez ela fosse capaz de “armazenar” a porta, mas somente se a tentativa no portão de metal não tivesse contato como um uso diário de sua habilidade, o que significaria que ela ainda teria mais uma chance para usar o poder. Porém, eram apenas 07:30 da manhã agora… Além disso, ela não poderia dizer com certeza se ela realmente poderia usar a habilidade mais uma vez… Sanji hesitou por um momento e por fim não falou nada.

Afinal de contas, haveriam outros métodos para abrir aquela porta. Se ela ainda pudesse usar a sua habilidade uma vez mais seria melhor para todos se ela guardasse para usar em outra coisa.

— Quando nós carregamos os corpos, eu notei que alguns deles eram os funcionários do supermercado. Eles até estavam usando seus uniformes, — Lutero falou depois de pensar por um tempo. Secretamente, Sanji se sentiu aliviada e menos culpada sobre a situação. Lutero olhou para a entrada do supermercado, insinuando para os outros dois, — Talvez, uma das pessoas lá tenha a chave…

Devia ser isso. Já que o pai de Sisi tinha trancado a porta, ele deveria ter a chave. Se a sua filha estava no supermercado, ele definitivamente não teria ido longe. Ele provavelmente morreu no supermercado e foi carregado lá para cima por eles.

Seguindo esse raciocínio, os três se reuniram para discutir, se sentindo um pouco mais animados.

Como a luz do sol lá fora estava muito forte, a temperatura provavelmente também estaria muito alta, e considerando que o corpo da Sanji ainda não tinha sido “reforçado”, eles decidiram que ela deveria ficar para trás para vigiar a porta da sala dos funcionários. Antes de ir embora, Marcie insistiu para Sanji com um olhar muito preocupado:

— Não diga nada que não deva. Não assuste a menina!

Sanji concordou completamente envergonhada.

Quando os dois saíram, o supermercado imediatamente ficou quieto novamente. Sisi pareceu perceber que a moça do “seja forte” era a única que restava do outro lado. Além do soluço ocasional, ela não disse uma palavra, o que deixou Sanji entediada. Ela começou a brincar com a faca de cozinha em sua mão, sentada no chão.

Para falar a verdade, agora que Lutero e Marcie tinham saído, esta era uma boa hora para ela verificar se ela ainda tinha uma última chance de usar sua habilidade por hoje. No entanto, ela não conseguia tomar uma decisão. Fora a ligeiramente fedorenta faca de cozinha em suas mãos, ela não tinha nada que valesse a pena armazenar. Se ela perdesse sua última oportunidade com algo desse tipo, ela realmente iria chorar sem derramar lágrimas.

Ela não sabia quanto por tempo ela se debateu e hesitou com essa ideia antes de ouvir os passos na escada rolante perto da entrada. Sanji levantou-se e olhou. Era o Lutero e a Marcie.

— Tão rápido assim? — ela perguntou, intrigada.

Lutero mostrou seus dois dentes de coelho e gargalhou:

— Nós demos sorte. A primeira mulher que procuramos era a gerente do supermercado. Eu encontrei um monte de chaves em seu avental… — depois que ele disse isso, ele pegou e mostrou para Sanji um molho de chaves. — Sorte nossa, essa gerente rotulou todas as chaves dela. Então, isso deve ser fácil para nós.

Sanji parou por um momento enquanto ela olhava a entrada.

— Sisi… onde está o pai dela? Vocês não deveriam ter, — ela abaixou a voz, — encontrado as chaves no corpo do pai dela?

— O mais importante é que nós temos a chave. Talvez não seja algo tão ruim que nós não tivéssemos achando… aquela pessoa. — Lutero casualmente entregou as chaves para a Marcie.

— Sisi, a tia voltou. Eu vou abrir a porta agora, — Marcie disse enquanto ela se agachava. Assim que Marcie colocou a chave no buraco da fechadura, Sanji de repente sentiu seu coração disparar. Quando ela finalmente estava consciente de que ela estava fazendo, uma luz branca tinha já brilhado na palma da sua mão. A faca de cozinha tinha transformado em uma carta, e ela estava segurando ela firmemente em sua mão.

Sanji olhou para a carta em sua mão assustada. Antes que ela pudesse se arrepender da sua ação impulsiva, ela ouviu o som da porta sendo destrancada. Em seguida, Marcie delicadamente abriu a porta e disse:

— Sisi, titia já abriu a porta…

Assim que Marcie deu um passo para frente, Sanji de repente jogou-se contra ela, empurrando-a para o chão.

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.
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