PA – Capítulo 1 – 3Lobos

PA – Capítulo 1

O medo da Cinderela

 

 

— Eu acho que o meu namorado está… planejando me matar.

Era final de semana, e o McDonald’s onde elas estavam estava cheio de pais que tinham trazido seus filhos, e assim havia os incessantes gritos e gargalhadas das crianças brincando na área de lazer ao lado. Naturalmente, era difícil para a branquinha e rechonchuda Mei Zhu acreditar no que sua amiga tinha falado.

— Bobagem! Mesmo que vocês estejam brigando, não fala mal dele a esse ponto. — Mei repreendeu brincando. Pausando por um momento, ela levantou uma sobrancelha e perguntou com um pouco de hesitação — Quando vocês discutem, não chega a partir para o físico, certo?

A mulher que estava sentada do lado oposto tinha seus vinte e poucos anos. Mesmo que seus traços pudessem ser considerados bastante requintados, em uma cidade cosmopolita e movimentada como a delas, ela não era o que se chamaria de uma beleza rara. No entanto, sua característica mais atraente eram seus olhos grandes levemente puxados. As íris claras possuíam um brilho âmbar que era difícil não associar com gatos exóticos.

Sanji Lin sacudiu a cabeça e não continuou. Ela não podia culpar Mei por não acreditar nela, tais palavras pareciam até mesmo um tanto absurdas para si mesma. Talvez fosse porque não tinha dormido bem, se sentia bastante ansiosa … Sanji tomou dois golinhos de Coca-Cola, sem saber em que estado de espírito ela estava, e disse meio brincando:

— Se um dia a polícia chegar perguntando com quem eu não me dou bem …

— Sheesh! — O tom de brincadeira da sua amiga aliviou Mei de qualquer migalha de dúvida. Ela acenou com as mãos de forma feliz e comentou,  — Sério, você conseguiu um bom partido! Diz aí, quais são as falhas do Ren Nan?

A última metade da frase passou por ela como uma brisa, Sanji nem sequer escutou. Seus olhos semelhantes aos de um gato olhavam pelas janelas nos arredores, enquanto o maxilar inferior se apertava ligeiramente.

Para esconder a reação, ela abaixou a cabeça e deu uma mordida no hambúrguer.

No mesmo instante, o silêncio reinou por alguns segundos no McDonald’s sempre tão barulhento. A porta semi-transparente escureceu à medida que alguém se aproximava, e um homem alto entrou caminhando em um ritmo constante. Alguns clientes na fila inconscientemente se afastaram, abrindo um caminho para ele.

Vestindo uma camisa cinza-metal sob medida, o design justo exclusivo da Armani, cada detalhe retratava uma qualidade superior. Suas calças de cor escura bem justas, elegantemente encaixavam sem nenhuma dobra, como se houvessem profissionais para arrumar suas roupas a todo momento. Mais do que isso, ele tinha uma proporção corporal de 1: 9, que asiáticos raramente possuíam, e uma aparência de arrasar. A todo momento, Ren parecia um super modelo que acabou de sair de algum desfile de moda — direto para um McDonald’s. Não era de se admirar que ele estivesse sob os olhares da multidão.

Quando ele se sentou, a suave fragrância da colônia Cool Waters Davidoff se espalhou pelo ar.

— Por que você está comendo isso novamente? — Ele acenou, cumprimentando Mei enquanto tocava suavemente os cabelos de Sanji como se não soubesse mais o que fazer com ela. Seu relógio Patek Philippe ficou parcialmente escondido debaixo dos cabelos dela. — Eu até planejei em te levar ao restaurante japonês que nós visitamos outro dia.

— Eu senti fome quando passei por aqui, então … —  Sanji forçou um sorriso, evitando o olhar de Ren. Abaixou a cabeça e colocou uma batata frita em sua boca. Seu cabelo deslizando pelos ombros escondia a expressão em seu rosto.

Dizer que Ren tinha algum tipo de falha parecia quase inimaginável.

Ren rapidamente conquistou os conhecidos e amigos dela com seu comportamento perfeito em apenas alguns meses de namoro, sem contar o coração da própria Sanji. Não, não apenas a atitude dele: sua aparência, riqueza, personalidade. Cada aspecto era tão perfeito … ele era exatamente o que as mulheres sonhavam.

Todos os seus amigos falaram que o destino sorriu para ela.

Quando eles começaram a namorar, Sanji quase não conseguia acreditar na sua própria sorte. Na época, acordava sorridente todas as manhãs, abraçando o novo mundo que Ren tinha apresentado para ela.

Quando foi que ela começou a sentir que algo estava errado?

De repente, a voz entusiasmada da Mei a tirou de seus pensamentos.

— Eu roubei um dia inteiro do tempo da Ji, não vou atrapalhar seu tempo juntos! Ela acabou de me dizer que estava um pouco cansada, por quê vocês não voltam juntos?

Sanji foi trazida de volta para a realidade.

A voz do Ren tinha sempre um tom alegre e gentil:

— Nós te damos uma carona. Está fazendo muito calor hoje.

Mei sorriu imediatamente de forma infantil:

— Ah, então eu aceito a sua oferta! Hoje está tão quente. Eu caminhei só um pouco, e já estou toda coberta de suor… — As roupas nas costas dela ainda estavam úmidas.

Sanji levantou-se imediatamente, tanto por não estar com muita fome quanto por sua melhor amiga já ter terminado de comer. O namorado e a amiga a seguiram enquanto saiam do McDonald’s.

Do lado de fora, o asfalto tinha sido castigado pelo sol da tarde, fazendo com que uma onda de calor cercasse os três. Já era outubro, mas o calor intenso não mostrava nenhum sinal de diminuir, e continuava a manter a cidade cosmopolita em seu controle. Na rua, algumas pessoas usavam guarda-sol, enquanto outras tinham a testa coberta de suor. No rosto de todos, muito desconforto — estava realmente muito quente. Mesmo no ápice do verão, não foi tão quente.

Dentre os três, Mei era a que menos se dava bem com o calor. Depois de caminhar apenas alguns passos, já estava coberta de suor, tendo de limpar a testa a todo o momento. Sanji sentia o cabelo molhado grudando em seu pescoço. A sensação era tão desconfortável que por fim ela não aguentou mais e perguntou:

— Onde você estacionou seu carro?

Ren indicou com a cabeça um local não muito distante de onde eles estavam. Em sua pele, nenhum sinal de transpiração.

— Está ali na frente, — ele parou de falar por um instante, ainda mantendo o comportamento habitual e elegante. — Já te falei várias vezes, não ter um carro é muito inconveniente. Como já tirou a sua habilitação, você não quer comprar um carro?

Mei imediatamente exclamou com inveja:

— Você está planejando comprar um carro para a Ji? Você é realmente o senhor perfeição. Já o meu namorado só me deu um ursinho de pelúcia no meu aniversário…

Sanji concordou sem prestar atenção. Sua cabeça estava longe de pensar em carros. Felizmente, Mei era muito animada, e enquanto ela conversava com Ren, ele não percebeu o mal-estar que Sanji sentia.

Já faziam três meses que Sanji tinha concordado em morar com Ren, depois de muita insistência da parte dele. Ela fez as malas, rescindiu o aluguel da casa e mudou-se para o prédio onde ele morava, situado no centro da cidade. Vários amigos vieram visitar seu novo apartamento, e a inveja era visível no rosto de todos eles. Era comum, ao saírem do apartamento, puxar ela para uma conversa e aconselhar:

— Ji, você precisa segurar as rédeas de um achado desses.

— O Ren tem algum irmão? Ou amigo ainda solteiro? Não esquece de me apresentar eles!

— Não espere muito tempo para falar de casamento…

As vozes triunfantes dos amigos ressoavam em seus ouvidos. A emoção e felicidade no coração da Sanji era dez vezes maior que a dos seus amigos. Entretanto, depois de passarem alguns meses juntos, o QI dela, que tinha sido naturalmente reduzido pelo fato de estar apaixonada, lentamente voltou ao normal.

Foi quando começou a perceber os detalhes na vida cotidiana.

No presente momento, Sanji estava com medo de Ren, apesar de não conseguir explicar exatamente o motivo.

Ren ligou o carro novamente depois que a Mei virou a esquina da Rua Velha, e o barulho do motor se misturou com os sons do trânsito. Vinte minutos mais tarde, ambos estavam de volta em casa.

O edifício estava localizado no bairro mais caro da cidade. A construção tinha sido concluída há apenas dois anos. Cada centímetro do piso representava um estilo de vida que pessoas comuns como Sanji podiam apenas sonhar. Ela já estava quase acostumada a esse novo estilo de vida — não fosse o fato das dúvidas em sua mente crescerem a cada dia…

A cobertura ocupava todo o 38º andar. Momentos depois do ‘ding’ as portas do elevador pessoal se abriram e ambos entraram na sala de estar.

Em resposta ao movimento, as suaves luzes da sala de estar acenderam uma a uma.

— Eu comprei coca hoje, você quer uma lata? — Largando a bolsa, Sanji caminhou até a cozinha. Mesmo com o coração palpitando em seu peito, ela sorriu como se tudo estivesse normal — sabendo que sua expressão escondia perfeitamente os seus sentimentos.

Ren também se aproximou, com o habitual sorriso no rosto:

— Tudo bem. Não importa o que você comprou, é sempre bom.

Sem saber quando começou a se sentir assim, mas esse tipo de conversa à la ‘conto de fadas’ parecia estranho para Sanji. Sem saber como responder, ela entregou a latinha rapidamente — quando ele abriu a lata, o gás da bebida saiu com um som “tssss”. Provavelmente para agradar Sanji, ele bebeu metade da coca em um único gole.

Escondida atrás da porta da geladeira, com o corpo tenso, Sanji se concentrava para não perder nenhum barulho.

O silêncio reinou por meio minuto.

O tempo passou, segundo após segundo, até que a risada do Ren quebrou o silêncio. — O que você está procurando na geladeira?

O coração de Sanji deu um salto em seu peito. Ela fechou a porta e agiu casualmente enquanto observava Ren.

Nenhuma reação.

Ao beber meia lata de coca cheia de dióxido de carbono, Ren nem sequer parecia querer arrotar — como se ele tivesse bebido uma poça de água negra sem gás.

— Nada, eu só queria ver se havia algo para beliscar. —  Ela forçou um sorriso.

Nos três meses que eles viveram juntos, ela nunca tinha visto Ren arrotar uma vez sequer.

Não apenas arrotar — tossir, espirrar, peidar, suar … todos esses tipos de funções corpóreas que todo mundo tinha, Sanji nunca viu no Ren.

Se parar para pensar sobre isso, ela não tinha certeza de já ter visto ele usar o banheiro também.

—  Você comeu bem pouco. Por que não jantamos fora hoje a noite? —  Ren puxou Sanji pelos braços e beijou seu pescoço.

Arrepios se espalharam por todo seu corpo.

— Ah, não precisa. Eu estou com preguiça de sair hoje … eu quero dormir mais cedo. Amanhã tenho que acordar cedo.

— Eu pessoalmente cozinharei para você um pouco de salmão então — Ren respondeu sorrindo.

Sanji concordou rapidamente com a cabeça.

As habilidades culinárias de Ren eram como ele, perfeitas e sem defeito. Depois do jantar que ele havia preparado meticulosamente, o sol do lado de fora das janelas de vidro da sala se punha lentamente ao oeste. À medida que o céu escurecia, se transformava em uma noite estrelada.

— A onda de calor ainda continua. E hoje é o 104º dia … — Depois de limpar os pratos do jantar, Sanji assistia televisão como se estivesse interessada nas notícias. Ela honestamente não queria trocar olhares com Ren. — Após as mortes devido à hipertermia na África, na Índia e no Sudeste Asiático, o número de mortes de nosso país devido calor já atingiu 67 pessoas. Especialistas no assunto lembram que…

Ela sentiu que Ren se aproximava, e o sofá afundou quando ele se sentou ao seu lado.

Um braço acomodou-se naturalmente sobre o seu ombro, e o corpo de Sanji ficou tenso.

Mesmo sem virar o rosto, ela sabia que ele não estava olhando para a televisão.

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.
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