MdG – Volume 2 – Capítulo 8 (Parte 3 de 4) – 3Lobos

MdG – Volume 2 – Capítulo 8 (Parte 3 de 4)

— Me pergunto o que aquele lugar está vendendo.

A esta distância, era difícil dizer, mas a julgar pelas expressões das crianças, era algum tipo de doce.

A Sacerdotisa deu uma olhadela para Matador de Goblins, que assentiu e disse: — Pode ir.

— Sim, senhor! Obrigada!

A Sacerdotisa balançou a cabeça rapidamente assentindo, toda sorridente, depois correu, com seus cabelos voando por trás dela.

Ela ficou um pouco envergonhada por fazer fila com as crianças, mas…

Ainda estou com quinze.

Era só uma diferença de dois ou três anos, ela disse a si mesma. E finalmente ela teve um dos doces para si.

O ice crème acabou por se parecer com um gelo branco derretendo. Havia uma cereja vermelho-viva no topo, possivelmente para lhe dar uma coloração. A Sacerdotisa pegou uma parte boa do recipiente crocante e frito, e levou a sua boca.

— U-uau!

Instantaneamente, suas bochechas se avermelharam, e um sorriso desabrochou no seu rosto. Ela se virou para o Matador de Goblins com uma mistura de surpresa e empolgação.

— Isso é incrível! É gelado e doce…!

— Você gosta disso?

— Sim, muito! No Templo, nós não conseguíamos comer muitas coisas doces… — Ela sorriu desconfortavelmente com um pequeno riso. — Me sinto como se estivesse quebrando as regras… só um pouco.

— Entendi. Hmm. Uma sobremesa gelada.

O Matador de Goblins observou a barraca com uma certa quantidade de fascínio.

O ice crème estava armazenado em um recipiente de metal bem arrefecido. Ele seria tirado e empilhado nos potes. Tanto quanto ele poderia dizer, não tinha sinais de magia envolvido.

Ou seja, o comerciante moreno não parecia ser nenhum mago.

— …Isso não é magia. Como é que você faz isso?

— Beeeem, tenho de admitir que é um mistério para mim como funciona. — O comerciante não pareceu incomodado com a questão; ele continuou a sorrir enquanto deslizava uma tampa sobre o recipiente. — Algum professor descobriu que a água esfria mais rápida se colocar um pouco de impurezas nela.

— Hmm?

— E se você adicionar mais disso no gelo, ele fica ainda mais gelado!

— Entendi.

— Quer um pouco de vinho gelado? É fácil com isso, acredite em mim, funciona com frutas também.

— Hmm.

— Então ele pensou, e se você tentar com leite de vaca? E aqui estamos nós!

— Entendi. Muito interessante. — Ele parecia tão intrigado quanto uma criança que tinha aprendido o segredo de um truque de mágica. Era um tom pouco familiar para ele que provocou a Sacerdotisa piscar várias vezes.

O Matador de Goblins pegou uma peça de ouro grande da sua bolsa e deu ao comerciante.

— Um, por favor. Fique com o troco.

— Certamente, senhor!

O comerciante extasiado pegou o ice crème com um movimento treinado. O Matador de Goblins o observou, hipnotizado.

— …Hee-hee.

O Matador de Goblins olhou para trás, mistificado pela risada que escapou da Sacerdotisa.

— O que?

— Nada. Eu só finalmente entendi como você conseguiu saber tanta coisa, senhor.

— …Entendi.

Talvez fosse bom se sentar calmamente em vez de ficarem em pé enquanto eles comiam. Com a sugestão da Sacerdotisa, os dois se sentaram em um banco ao longo da beira da estrada.

Eles se sentaram lado a lado, levando a sobremesa até suas bocas e saboreando o frio e a doçura em suas línguas, vendo a multidão passar.

Quando a Sacerdotisa roubou um olhar de soslaio, ela o viu comendo através da sua viseira como de costume.

A luz quente do sol se filtrava através das árvores. Uma brisa fresca soprava através da água. As pessoas conversavam alegremente. Homens e mulheres bem vestidos passavam, enquanto as crianças corriam pelas redondezas com sorrisos enormes em seus rostos. As carruagens puxadas por cavalos ribombavam pelos ladrilhos cuidadosamente colocados.

— É estranho, não é? — A Sacerdotisa sussurrou, franzindo sua testa com a cena. — Nenhuma dessas pessoas tem ideia de que existem goblins bem debaixo deles…

— …Sim.

— Algumas pessoas foram feridas, e tenho certeza… que eles têm medo disso, mas…

Mas ninguém parecia realmente se importar. O empregado da loja de equipamentos não. O vendedor de ice crème não. Ninguém perdia o tempo aqui.

E quanto a cidade fronteiriça? Ela sentia que a ameaça dos monstros era real e próxima, mas…

— …Quando eu era pequeno… —, ele murmurou.

— Que…?

— Houve uma época em que pensei que se eu desse um único passo, a terra poderia se abrir debaixo de mim e eu morreria.

— Hã…?

A colher ainda estava na mão da Sacerdotisa quando o Matador de Goblins falou.

— Eu estava com medo de andar.

A cereja tombou do topo do seu ice crème derretido e rolou para o fundo. Ela ignorou isso e se focou no rosto do Matador de Goblins, embora ela não pudesse ver a expressão dele por detrás do seu capacete.

— Tal coisa não é impossível. Mas ninguém se preocupa com isso. Eu acho isso estranho.

Mas ele parecia rir silenciosamente.

— Minha irmã riu de mim, e dela também, mas foi necessário muito tempo antes de perceber que, com medo ou não, eu tinha de caminhar.

— Isso é…? Isso é verdade?

— É verdade.

O vento passava por eles, trazendo consigo o farfalhar das folhas.

— Mas ainda hoje, estou com muito medo.

Do que e por que, ele não disse. Nem a Sacerdotisa considerou perguntar.

Faziam apenas alguns meses desde que eles tinham se conhecido, mas ela tinha estado com ele constantemente todo esse tempo. Não tinha como ela não compreender.

— Eu agradeço sua ajuda, — o Matador de Goblins disse, se esforçando para soar desapegado e legal, como sempre. — Mas sua ajuda não é estritamente necessária.

A Sacerdotisa não respondeu.

Ela olhou para baixo e rodou atoa sua colher no seu ice crème derretido. Por fim, ela pegou a cereja e a estourou em sua boca. Em meio ao gosto agridoce estava o caroço duro.

Ela estufou suas bochechas, ficando emburrada.

— Você disse para fazer o que eu gostasse, não foi?

— Disse?

— Sim, você disse.

— …

— …Você realmente não tem jeito.

O Matador de Goblins olhou para o céu azul, como se estivesse incerto se deveria responder a isso.

A Sacerdotisa brincou com o caule da cereja entre seus lábios, ignorando as boas maneiras.

Finalmente, ela disse só uma curta palavra.

— Desculpa.

— Não quero ouvir isso.

— …Desculpa.

— …Não que eu me importe.

— Quero dizer, têm coisas que me assustam também, — ela sussurrou.

Se as palavras alcançaram seus ouvidos ou não, ela não tinha certeza.

— …Que frio!

Um pouco do ice crème derretido pingou em sua mão, provocando sua exclamação surpresa. Ela olhou desajeitadamente para o Matador de Goblins e limpou a gota com um lenço.

A sobremesa crocante que servia como um recipiente estava completamente encharcada.

— …Tsc.

Ela enfiou o resto da sobremesa em sua boca, e o frio lhe deu dor de cabeça. Ela limpou discretamente as lágrimas que saltaram de seus olhos, fingindo que elas não estavam lá; então ela se levantou.

— Muito bem! Vamos agora, Matador de Goblins, sen…


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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