MdG – Volume 2 – Capítulo 8 (Parte 1 de 4) – 3Lobos

MdG – Volume 2 – Capítulo 8 (Parte 1 de 4)

A luz quente do sol irradiava do céu, e uma brisa fresca soprava sobre a água. Pessoas conversavam em um mercado animado, se divertindo.

Em um lugar onde tantas pessoas de raças e credos diferentes se reuniam, os aventureiros praticamente não eram uma visão incomum. Mas a maioria dos aventureiros não eram uma sacerdotisa jovem, e um homem usando um elmo de aço em sua cabeça no meio da cidade, em plena luz do dia.

— Estou tão feliz por termos um tempo bom!

— Sim.

A Sacerdotisa seguia atrás do Matador de Goblins, com seus lábios ligeiramente erguidos. Ela caminhava escrupulosamente, segurando algo cuidadosamente em seus braços.

— …Quer que eu segure?

— Não, estou bem, — ela respondeu com um sorriso.

— Percebo, — o Matador de Goblins disse, assentindo enquanto ele diminuía o ritmo.

Logo, seus ombros estavam nivelados com a cabeça da Sacerdotisa, e ela olhou para o seu capacete. O seu gesto lembrava um cachorrinho curtindo sua primeira caminhada.

Os pedestres olhavam para eles enquanto passavam; os comerciantes espreitavam para fora de suas barracas. A Sacerdotisa abriu a boca para lhe perguntar sobre isso, mas, acabou por fechá-la outra vez sem dizer nada. Esse era o Matador de Goblins. Sem dúvida, ele não estava dando nenhuma importância.

O que seus amigos achariam se eles vissem isso? Ela não conseguia imaginar.

Ela sabia, contudo, que a Alta-Elfa Arqueira, o Lagarto Sacerdote, e o Anão Xamã estavam os acompanhando naquele momento.

 

— Certo, Orcbolg! Vai com calma!

— Será menos um lutador na linha de frente e um conjurador. Não vamos tomar nenhum risco indevido.

— Mas eu vou te dizer o que é arriscado: um guerreiro sem armadura!

Os três aventureiros tinham mencionado essa ideia durante a refeição. A Sacerdotisa, que ainda estava se sentindo diferente, só podia curvar a cabeça e pedir desculpa.

O que os surpreendeu, no entanto, foi mesmo a resposta do Matador de Goblins bastante sincera.

— Obrigado. Vou deixar vocês cuidarem disso.

A Sacerdotisa ainda não conseguia compreender o que estava no fundo do seu coração, mas agora ela tinha um uma ideia bastante boa de como ele pensava.

Os goblins usaram aquela câmara funerária como o local para uma emboscada, significando que era claramente parte do território deles. Isso queria dizer que os aventureiros tinham de revistar a escadaria escondida que eles tinham encontrado atrás do caixão de pedra, se por qualquer outra razão o campeão ainda estivesse vivo.

Essa batalha presumivelmente tinha enfraquecido significativamente os goblins, mas também tinha impactado o seu grupo.

E o tempo estava no lado dos goblins.

O grupo tinha uma patrulheira, um monge e um conjurador, perfeitamente capazes, e não podiam se darem o luxo de perderem tempo. Nesse meio tempo, o guerreiro e a sacerdotisa ficariam para trás para descansar suas mentes, corpos e reparar seus equipamentos para estarem preparados para a próxima excursão.

Contudo, houve um problema.

Talvez devido ao volume de clientes, a oficina na Guilda dos Aventureiros daqui não prestavam ordens especiais. Quando o Matador de Goblins tinha solicitado por uma armadura de couro, um escudo e uma espada, lhe tinha sido recusado com um balançar lento de cabeça.

 

Por fim, ele tinha determinado em sair para comprar o que precisava, e a Sacerdotisa disse que iria com ele. Ela o questionava insistentemente, e mesmo ele dando respostas claras…

— Sei que todos estão preocupados com você. Tem certeza de que está bem?

— Sim.

— Seus ferimentos estão curados?

— Sim.

— Suas feridas foram muito piores que as minha.

— Sim.

— Você sabe que não deve fazer nada tolo, certo?

— Sim.

— Hmm. — A Sacerdotisa estufou as bochechas e parou de andar.

O Matador de Goblins deu vários passos a mais antes de notar. Ele parou e olhou para trás; ela estava o encarando. Ele inclinou a cabeça, claramente alheio a qualquer problema.

— Qual é o problema?

— …Céus! Como assim “Qual é o problema”? — A Sacerdotisa apontou o seu dedo diretamente para ele. — Estou zangada! — Ela franziu as sobrancelhas o máximo que pôde, mas não conseguiu o intimidar.

Em parte, era o olhar das pessoas à volta. Eles deveriam ter pensado que os dois aventureiros estavam tendo uma discussão de namorados ou talvez que estavam tendo uma briga de irmãos. Quem poderia dizer? Os transeuntes olharam desconfiados no início, mas logo alguns sorrisos surgiram entre eles.

— Matador de Goblins… senhor! “Sim” foi a única coisa que você disse nessa conversa toda!

— É?

— É!

— É…?

— E você disse muitos “É”, também.

— …Hum.

O Matador de Goblins cruzou os braços e grunhiu.

A dupla ficou em silêncio, cercados pelos balbuciar da rua. Os pássaros voavam vagarosamente no céu azul acima deles enquanto ele refletia sobre algo ao longo do tempo. Por fim, ele deu um aceno devagar.

— …Eu irei mudar.

— Por favor! — A Sacerdotisa disse e riu.

Quando um aventureiro sério desse dizia que iria mudar, ele provavelmente iria. Eles tinham apenas se conhecido há alguns meses, mas ela sabia bem sobre ele.

Ela partiu de novo com um ritmo alegre, e o Matador de Goblins logo a igualou. Em pouco tempo, eles estavam andando lado a lado de novo, com a Sacerdotisa mais uma vez nivelada aos seus ombros. De certa forma, isso, por si só a fez muito feliz.

— Você disse algo sobre compras…?

— Sim, — ele respondeu, então levantou a mão com se dissesse espere. Aparentemente ele tinha algo mais para dizer.

Outra pequena gargalhada escapou da Sacerdotisa com sua inexperiente demonstração de consideração.

— Irei ver algumas armas e armadura. As minhas estão danificadas.

O capacete do Matador de Goblins estava virado na direção dela. Ele escondia seu rosto e qualquer expressão, mas seus olhos vermelhos brilhavam ligeiramente dentro dele.

— O que você vai fazer?

— Hmm… — A Sacerdotisa pôs o dedo magro em seus lábios e inclinou a cabeça. A brisa levantou seu cabelo, o lançando atrás de sua cabeça.

Ela achava que a resposta ao que estava prestes a dizer era óbvia, mas…

— Você está realmente tentando perguntar a minha opinião?

— Acho que sim.

— Caramba…

O Matador de Goblins parecia achar que sua resposta foi bastante natural. A Sacerdotisa suspirou. Por ora, ela deixaria estar. — Minha cota de malha também foi arruinada, — ela respondeu obedientemente, ajustando sua expressão. — Pensei que talvez houvesse algum lugar que conseguisse consertar.

— Provavelmente seria mais rápido comprar uma nova.

A resposta do Matador de Goblins foi completamente inexpressiva.

Ele realmente não entendeu. A Sacerdotisa olhou para ele com os olhos entreabertos.

— Eu não quero.

— Por que não?

Dessa vez foi a vez do Matador de Goblins parecer perplexo.

A Sacerdotisa apertou o embrulho contendo sua cota de malha e murmurou: — Porque… essa é a primeira coisa que fiz no qual você me elogiou.

O Matador de Goblins parou e olhou para ela.

A Sacerdotisa ajustou o pacote em seus braços como se para lhe mostrar um tesouro. Envergonhada, ela desviou seus olhos.

— Você não se lembra? Você tinha dito que era um pouco largo, mas pararia uma lâmina.

— Disse? — Sua voz parecia de alguma forma tensa, e então ele sussurrou: — Eu suponho que sim.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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