MdG – Volume 2 – Capítulo 6 (Parte 2 de 2) – 3Lobos

MdG – Volume 2 – Capítulo 6 (Parte 2 de 2)

Ele obedientemente olhou para cima. Uma deslumbrante luz perigosamente brilhante encontrou seus olhos.

Era o campo de estalactites que cresceu no teto da caverna de neve. Com suas pontas perfurantes miradas diretamente para ele, elas pareciam como um exército de cavaleiros.

O calor do fogo tinha começado a surtir efeito: Uma única gota respingou em cima dele.

— Hora para um jogo de charada. Tenho uma charada para ti! Se quiser viver, é melhor responder rapidamente!

— Sim, mestre.

— Ótimo, ótimo!

Ele ouviu um som de estalo do Assaltante lambendo seus lábios. Charadas eram uma forma de batalha tão antiga quanto os deuses; sagrado, inviolável, absoluto. Era dito que elas remontavam mesmo antes dos deuses começarem a jogar dados.

É claro, nada disso importava para ele. Ele iria responder. Isso era tudo.

 

— Eu cruzo o céu.

— Com um bico feroz rasgo carne.

— Seu pesadelo! Seu inimigo mortal!

— Mas me mate, e é o seu sangue que irá fluir.

— O que eu sou?

 

A primeira coisa que ele pensou foi um goblin.

Mas goblins não voavam, e não tinham bicos.

Assim que ele estava prestes a cruzar os braços para pensar, outra bola de neve veio voando contra ele.

Ele deslizou de lado através do gelo para a evitar. Algumas gotas de sangue voaram de seu rosto e caíram no gelo, se misturando com a água derretida e se tornando rosado.

A resposta veio a ele em um lampejo.

— Um mosquito.

— Certo! — O Assaltante bufou sugerindo que ele não estava satisfeito. — Mas isso foi apenas um aquecimento. Próximo!

 

— Os mares estão secos.

— Os rios não correm.

— As árvores estão nuas.

— As cidades não têm edifícios.

— Os castelos sem homens!

— Onde estamos?

 

Ele não tinha a menor ideia.

Os nomes dos reinos devastados tanto históricos quanto míticos flutuaram em sua mente, depois se afastaram. Todos eram lugares que ele tinha ouvido falar nas histórias que sua irmã lhe contou. Nenhuma delas conheceu um destino tão terrível quanto o enigma descrevia?

— Blááá, qual é o problema? — O Assaltante demandou. — Não sonhe acordado assim! Vamos! Ou vai ser o seu fim!

Antes que pudesse sequer pensar nisso, ele reflexivamente rolou para o lado.

Uma estalactite atingiu o chão e se despedaçou.

Ele não tinha seu capacete. Ele tinha se concentrado em proteger sua cabeça.

Então, de repente, ele se recordou da resposta em um jogo de charada que ele e sua irmã tinha jogado há muito tempo. Embora na época, ele não tinha sido capaz de levar a melhor.

— Devemos estar em um mapa.

— Ha-ha! Exatamente! Mas por que demorou tanto tempo?

Ele ouviu aplausos gozador. Eles ecoaram pelas paredes até que ele não pudesse descobrir de onde é que estavam vindo.

Ele bloqueou o som em seus ouvidos, em vez de olhar para perto e longe, de um lado ao outro, depois para o teto. Ele não podia baixar a guarda. Seu pensamento tinha que ser claro. Controle sua respiração.

O lugar estava muito frio, mas a certa altura ele tinha começado a suar. Ele tentou limpar o sangue e o suor com apenas um braço para os impedir de chegar aos seus olhos, mas fazer isso trouxe uma ardência desagradável aos seus ferimentos.

— Vamos lá, continuemos!

 

— Mais justo que os deuses.

— Mais maligno que os Deuses das Trevas.

— Os ricos precisam de mim.

— Mas para mim os pobres não encontram utilidade.

— O que eu sou?

 

Para ele, essa foi particularmente difícil. E o Assaltante não estava disposto a deixar ele pensar calmamente. As bolas de neve vieram voando de todas as direções; ele rolou pelo gelo para as evitar.

Ele estava perdendo a sensibilidade dos membros; eles tinham ultrapassado o azul e estava se tornando roxo.

Mas não havia tempo para se preocupar com isso. Um chiado soou acima dele.

— Cuidado! Aí vem outro!

Outra estalactite se desprendeu do teto e caiu na direção dele.

— …!

O Assaltante nem mesmo o deixou desviar com segurança. Mais uma bola de neve veio e o atingiu no ombro; neve se espalhou por todo o lado e as pedras perfuraram sua pele. Ele se esforçou para suprimir um gemido de dor.

Não havia tempo. Ele não conseguia pensar. Ele não tinha uma resposta. Ele não tinha nada. Isso o deixou irritado, e então ele teve uma ideia.

Ele olhou para cima e gritou:

Nada! — Ele pisou na terra com ambos os pés, retornando sua postura, e acrescentando: — A resposta é nada!

— Sim! Mas há algo mais malvado que os Deuses das Trevas e que possui uma perspicácia mais feroz!

O Assaltante não tinha intenção de deixar ele descansar, mas sim arremessar charadas para ele tão rapidamente quanto ele podia responder.

Na escuridão branca, sangue fluía do seu ombro e da sua testa, ele se situou e enfrentou as questões.

 

— Escuro

— No interior escuro

— No interior escuro

— No interior escuro.

 

Ele gritou de volta imediatamente.

— Um goblin… no útero da mulher capturada em uma jaula goblin em uma caverna goblin!

Ele nunca se esqueceu dos goblins, nem por um segundo. A resposta não exigiu nenhum pensamento. Ele sorriu para o seu professor invisível e disse: — Simples.

— Ah, é? Então, tente essa!

 

— A qualquer momento, em qualquer instante,

— Você pode se encontrar com ele,

— Dele não há como escapar!

— Você não pode falar com ele!

— Ali, ele está ao seu lado!

— Azar o seu! Fim do jogo!

 

A última charada deveria ter sido apenas uma forma de comprar tempo suficiente para pensar em outra. O Assaltante era cheio de truques baratos. Elas lhe ensinaram muita coisa.

Mas a resposta a essa charada escapou completamente dele.

Respirando andrajosamente, ele passava pelas bolas de neve e esquivava das estalactites. A neve rasgou sua pele e o gelo a triturou, até que todo o seu corpo inteiro estivesse esfolado e sangrando. O sangue e o suor pingavam de sua sobrancelha aos seus olhos, ofuscando sua visão, enquanto a ferida em seu ombro latejava.

Apesar de tudo isso, ele pensava afincadamente. As engrenagens de sua cabeça giravam; ele piscou várias vezes, trabalhando toda sua inteligência, procurando por uma resposta.

Não levou muito tempo para descobrir o que estava bem perto dele.

Ele lambeu os lábios ligeiramente e disse a resposta tão claramente quanto podia.

— Ele é a morte.

— Ha-haaa! Uma bela resposta!

As gargalhadas do Assaltante repicaram ao longo de toda a caverna. Um borrifo de gotículas de água caiu, sacudidos pelo eco.

— Você não tem sorte. Você não tem perspicácia. A única coisa que você tem é coragem. Então, pense! Pense com toda a coragem que você tem!

— Sim, mestre.

Ele assentiu obedientemente. Ele não fazia ideia por que o Assaltante cuidava dele, mas ele estava sozinho, sua aldeia se foi, e ele tinha apenas um objetivo que lhe restava. O velho estava lhe dando os ensinamentos e estratégias que ele precisaria para o alcançar. Ele jamais considerou questionar as palavras do seu mestre.

— E sendo franco… sim, você se tornou bom nisso. Bom para um garoto como você, enfim. A última!

O Assaltante apareceu diante dele como se surgido do nada. Ele era um homem pequeno, menos da metade de sua altura, e negro como uma sombra.

O velho rhea segurava uma espada curta reluzente e usava uma malha de platina. Ele olhou para ele com seus dois olhos brilhantes e sorriu, revelando seus dentes irregulares.

— O que eu tenho no meu bolso?[1]

Era um truque cruel, tecnicamente contra as regras do jogo de charada.

Ele se esforçava para responder, mas ele não conseguia pensar em nada.

Ele abriu a boca para implorar por pelo menos três chances, mas no próximo instante, uma dor maçante percorreu sua cabeça mais uma vez, e ele sentiu sua consciência desaparecer.

Até os dias de hoje, ele não sabe a resposta para essa charada.


 

 

[1] Para quem nunca leu O Hobbit, pode não pegar a referência dessa parte, mas no quinto capítulo “adivinhas no escuro” do livro, Bilbo e Gollum fazem um jogo de charadas, e em um determinado momento, Bilbo, que estava com o Um Anel no bolso pergunta ao Gollum para ele descobrir o que tinha no bolso, e o Gollum pede pelo menos três chances…

KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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