MdG – Volume 2 – Capítulo 5 (Parte 9 de 9) – 3Lobos

MdG – Volume 2 – Capítulo 5 (Parte 9 de 9)

— Hrrr!

O Matador de Goblins segurava o monte de cabelo como as rédeas de um cavalo. Ele se agarrou na parte de trás do campeão, que o balançava para esquerda e direita como um garanhão dando pinotes. No início, cada sacudida tinha o ferido tanto que ele achava que seu corpo talvez voasse em pedaços. Mas agora ele não sentia nenhuma dor, nada. Tudo o que restava era uma leveza estranha, como flutuando na água.

Alguma parte objetiva de sua mente estava soando um aviso. Dor era a prova de que estava vivo. E agora ele não sentia nenhuma dor. Talvez os seus nervos tivessem sido sobrecarregados.

Ele tinha feito a escolha errada?

Ele quase pensou ter ouvido um sussurro:

Avance até a morte. Martele o prego no seu próprio caixão.

Mas a falta de dor também acaso era conveniente para ele.

Qualquer que seja a coisa louca ou boba que for preciso para vencer, eu o farei.

— Ei…!

Sua voz saiu espremida por entre seus lábios.

Poderia as palavras que ecoaram em sua mente ter alcançado a mente do campeão goblin?

A criatura forçou para virar sua cabeça e ver o inimigo que se agarrava nas suas costas. Um elmo de metal sujo com sangue já seco refletiu seus olhos imundos amarelos.

— Dê uma boa olhada, goblin.

O Matador de Goblins ergueu seu braço direito quebrado e o enfiou em seu olho. Ele agarrou alguma coisa bem macia, arranhou e arrancou para ele.

— GRORARARAB?! GROOROROROB?!?!

O campeão uivou incoerentemente em agonia, se curvando para trás.

O Matador de Goblins foi com ele, rolando no chão de pedra. Ele quase não evitou ser esmagado pelo corpo gigante quando ele desabou ao chão com uma pancada ressonante.

Respirando irregularmente, o Matador de Goblins usou os ossos próximos para se levantar. O guerreiro estava coberto de sangue e ferimentos, à beira da morte, mas os goblins simplesmente o viam de longe.

Não havia uma boa razão para eles o fazerem. Teria sido fácil acabar com ele naquele momento.

E ainda assim eles estavam indubitavelmente com medo dele.

— Quem é o próximo…? — A voz era calma, inexpressiva, e fria como o vento soprando através de um vale. — É você…?

O Matador de Goblins jogou o pedaço de carne de sua mão direita. O globo ocular do campeão acertou o chão e estourou com um som molhado.

— GORB…! GARARARAB!!

O campeão debateu os pés e começou a balbuciar. Sangue e pus escorriam como uma cascata em sua face do seu olho esquerdo perdido.

— GOB…

Os goblins ficaram congelados. Um deles deixou cair sua lança. Seus olhos se moviam de um lado para outro, entre o campeão goblin e o Matador de Goblins, ambos envoltos em sangue.

Esse foi o gatilho.

— GORROROROB!!

O campeão goblin deu um rugido que só poderia ser uma ordem para retirada.

— GORARAB! GORAB!

— GROOB! GROB!

Gritando, os goblins se esqueceram de todo o resto e fugiram.

Nisso, como em todos as coisas, o campeão goblin os liderou. Um campeão ele era, mas ainda assim um goblin.

Cada goblin estava muito interessado na sua própria sobrevivência; tudo o que queriam era escapar desse lugar. Desse modo, a ideia de manter suas posições contra todas as probabilidades nem sequer lhes passou pela cabeça, e a derrota ganhou ímpeto rapidamente. Primeiro dois, depois quatro, então oito fugiram…

Um após outro, os goblins mergulharam para a saída, chorando e gritando. Por fim, apenas as pilhas de corpos de goblins e os aventureiros arfando restaram.

Nenhum deles sugeriu que deveriam perseguir o inimigo. Todos eles estavam feridos e exaustos; eles mal podiam pensar em se mover.

— ……

Só o Matador de Goblins era diferente.

Ele revirou cambaleante através dos ossos e usou a lança que encontrou como uma bengala improvisada para se arrastar pela sala. Arrastando seus pés lamentavelmente enquanto se movia, ele começou a verificar cada um dos corpos.

Enquanto ele andava, deixava um rastro de sangue, como se fosse um pincel passando ao longo de uma tela.

— ………hrr…

Um passo. Dois. Um tremor violento, então o corpo do Matador de Goblins se virou em um ângulo estranho.

— Orcbolg…!

A Alta-Elfa Arqueira fez seu caminho até ele e o apoiou de lado. Ela não se irritou com seu sangue que escorria por cima de suas roupas rasgadas e sua pele exposta.

Com uma voz extremamente fraca, o Matador de Goblins perguntou: — Você está… bem…?

— De alguma forma… Mas… — A voz da Alta-Elfa Arqueira era tensa, também. — Não tenho tanta certeza quanto a você…

Para ela, ele parecia como um saco cheio de peças soltas.

Mesmo assim, ele conseguiu sussurrar: — Talvez, — e acenou. — E quanto à menina…?

— …Por aqui. Você consegue andar?

— Posso tentar.

A Alta-Elfa Arqueira se esforçou para apoiar o Matador de Goblins, que parecia poder colapsar a qualquer momento. Ela sentiu um calor em suas bochechas e de repente percebeu que lágrimas estavam se formando em seus olhos.

Ela mordeu os lábios.

— Tentem ter alguma… dignidade, vocês dois.

Enquanto eles andavam juntos, eles encontraram os braços do Anão Xamã apoiando eles.

Ele não estava em um estado melhor que eles. Sangue encharcava ele desde o topo de sua cabeça até a ponta de sua querida barba, e sua bolsa de catalisadores, assim como seu cinto, tinham sido bem rasgados.

Ainda assim, o anão conseguiu manter o Matador de Goblins erguido com suas grandes mãos.

— Afinal de contas, ainda… temos de ir para casa…

— …Certo.

Então, juntos, eles caminharam pela distância aparentemente grande, mas terrivelmente curta. Logo eles estavam no centro da sala, ao lado do caixão destruído. Uma espada-presa quebrada repousava ali, com o Lagarto Sacerdote sentado ao lado.

— Bem, agora. Foi por um triz, mas acho que ela vai ficar bem.

A Sacerdotisa estava deitada a seus pés, envolvida em sua cauda.

As chamas do lampião quebrado era a única iluminação, a luz brincando sobre sua forma.

Suas vestimentas e cota de malha ensanguentadas tinham sido retiradas; ataduras envolviam o seus ombros e peito pálidos. Seu cabelo estava grudado em suas bochechas suadas, e seus olhos ainda estavam fechados. A subida e descida pouco perceptível do seu peito era o único sinal que ela estava viva.

— Como ela está?

O Lagarto Sacerdote semicerrou seus olhos e levantou gentilmente a cabeça da Sacerdotisa com sua cauda.

— Hmm. Sua vida não está em perigo. Entretanto, se a ferida tivesse sido um pouco mais profunda, poderia ter sido para além das minhas habilidades.

— Entendi.

— Aqui, espere. Eu vou te ajudar a sentar. Isso vai ser mais fácil, certo? — A Alta-Elfa Arqueira disse, quase sussurrando, enquanto o Matador de Goblins lutava para respirar. — Anão, fique com esse lado.

— Claro.

Juntos, eles abaixaram ele para perto do caixão de pedra, ao lado da Sacerdotisa.

Parecia como se ele pudesse tombar no momento que eles tiraram suas mãos. Até a forma como ele se sentou parecia mais como se ele tivesse caído de costas.

— M… Me… d-de… scul…

— Não se preocupe com isso.

O Matador de Goblins estendeu sua mão, enluvada com couro que estava esfarrapado, suja, em um estado completamente lamentável. Ele descansou ela no chão ao lado dela. A Sacerdotisa a tocou debilmente com a sua própria mão pequena.

— Mat… G…blins… senhor…

Por fim, ele murmurou:

— Essas coisas acontecem.

— Vamos voltar para cima, — a Alta-Elfa Arqueira disse. — Não queremos estar aqui quando eles voltarem. Orcbolg, consegue se levantar?

— Ahh, vá encontrar um casaco ou algo assim, moça. Eu posso ajudar o Corta-barba.

— Parece que terei de o suportar em meus ombros, — o Lagarto Sacerdote disse. — Se preparem. Estaremos em segurança em breve…

Alguém estava dizendo algo.

Mas o Matador de Goblins sentiu a consciência desaparecer, e então tudo ficou escuro.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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