MdG – Volume 2 – Capítulo 4 (Parte 2 de 3) – 3Lobos

MdG – Volume 2 – Capítulo 4 (Parte 2 de 3)

 

A Donzela da Espada sorriu, falando das cicatrizes por todo seu corpo como se não valessem ser notadas. A expressão pareceu surgir por conta própria.

— Eles me golpearam na cabeça por trás… Isso foi há mais de dez anos.

— Ah, hum, eu…

A Sacerdotisa entendeu agora muito bem o que isso significava. O que ela deveria dizer? Como deveria dizer? Sua voz estava tensa, e ela não olhou para a outra mulher.

— Você está… bem… agora?

A Donzela da Espada parou de se mexer por um segundo. Se seus olhos não estivessem escondidos, certamente a Sacerdotisa teria visto ela piscar. — Você é uma pessoa gentil, não é? —, ela disse calmamente, e sua expressão desapareceu até que ela parecesse uma escultura. — A maioria, quando conto, diz que sentem muito.

— Eu… Eu só…

…não consegui pensar em mais nada para dizer, a Sacerdotisa pensou, mas as palavras pararam em sua garganta.

Ela mal conseguia dizer isso para a Donzela da Espada.

— Hee-hee… Não se preocupe.

A Donzela da Espada alcançou e pegou um ramo de bétula. Seus movimentos eram tão elegantes e precisos que alguém nunca poderia imaginar que os seus olhos estavam cobertos. Então, ela bateu o ramo contra si mesma como um chicote, um pequeno “Hmm!” escapou dos seus lábios. A Sacerdotisa afastou seus olhos, mas não pode deixar de olhar, olhar e olhar.

A Donzela da Espada finalmente parou de bater com o ramo em si mesma, quando ela percebeu que a Sacerdotisa estava olhando.

— Com esses olhos… —, a Donzela da Espada murmurou e pôs sua face perto da Sacerdotisa.

A Sacerdotisa engoliu silenciosamente.

— Com esses olhos, eu vejo muitas coisas… Uma grande quantidade de coisas.

A Sacerdotisa deixou escapar uma única respiração estrangulada pelo seu nariz. Uma sensação de meia embriaguez tomou conta dela, não muito diferente de quando ela cheirou o doce aroma floral.

— Coisas que você não pode imaginar…

— Ah…

Então, assim de repente, a Donzela da Espada deixou a Sacerdotisa cheia de temor e se retirou para a sauna fumegante do banheiro. Ela se envolveu nas nuvens como uma garota tímida. As ondas do seu cabelo cor de linho eram meras sombras agora.

— Aquele homem com você…

— O que…?

A Sacerdotisa balançou a cabeça para limpar a neblina quente de sua mente.

— Matador de Goblins, não era assim que se chamava? Ele parece uma pessoa… muito fiável.

— Ah, uhm, hum-hum… Sim. Ele realmente é.

A Sacerdotisa tinha o ar de uma criança inocente revelando um tesouro. As extremidades dos lábios da Donzela da Espada se tornaram levemente em um sorriso encantador.

— Estou muito feliz que suas investigações parecerem prosseguir sem problemas.

— Mas… —, ela acrescentou, o que lembrava a franqueza dele. — … Sem dúvida, ele um dia, também desaparecerá.

A Sacerdotisa engoliu cuidadosamente.

Ela me vê.

Ela podia sentir aqueles olhos sem visão em si; isso fez sua pele arrepiar. Os olhos da Donzela da Espada estavam cobertos. E ainda assim, a Sacerdotisa sentiu que a Donzela da Espada estava olhando diretamente para ela, para as profundezas do seu coração…

— A-ahn, eu… eu…!

— Sim. É melhor sair do banho antes que fique tonta.

A Sacerdotisa tinha parado sem se dar conta. A Donzela da Espada lhe deu um longo e lento aceno, e a Sacerdotisa saiu do banheiro, tropeçando ligeiramente nos pisos brancos escorregadios, desesperada para fugir daquele olhar.

Ela não sabia bem como ela tinha conseguido secar a si mesma ou vestir seu pijama depois que ela chegou ao vestiário. Ela só sabia que repentinamente, estava de pé no corredor do Templo da Lei, com a brisa da noite soprando à sua volta.

Às vezes durante à noite, a chuva mitigava, revelando um céu estrelado, bonito e gelado. As luas gêmeas pareciam emitir um frio, embora fosse verão. Olhando para elas, a Sacerdotisa se abraçou e tremeu.

Ela sabe.

Isso veio como um lampejo de compreensão, como uma revelação.

Aquela mulher sabe.

Sabe o que?

Sobre os goblins.

Ela sentiu um frio em seu coração muito maior que a da sua pele.

— Opa, aqui está.

Orcbolg — ou seja, o Matador de Goblins — disse que deviam se encontrar na Guilda dos Aventureiros.

Estava, é claro, próximo ao portão da cidade; maior que a guilda na cidade fronteiriça, mas, menor que o Templo da Lei. Havia um escritório administrativo, taverna, e pousada, juntamente com uma fábrica e várias outras instalações. Tudo como a guilda da cidade fronteiriça, mas essa aqui era muito diferente na aparência.

Era construída com pedra branca, que a concedia um ar de tranquilidade. Parecia que podia ter sido um banco. Não que a Alta-Elfa Arqueira tinha alguma vez ido em um banco. O que a surpreendeu em vez disso era o tamanho do local.

— Uou, olhe para lá. É uma alta-elfa…!

— Nem pensar. Nunca vi uma antes!

— Uau! Que espécime! E não quero dizer apenas como uma elfa!

Ela tinha estado nessa cidade antes, mas os aventureiros próximos ainda a observavam com fascinação. Suas bocas diziam tudo que queriam, e seus olhos a secaram com seus olhares de curiosidade ou luxúria.

— ……

A Alta-Elfa Arqueira franziu a testa bem ligeiramente. Nunca tinha a incomodado antes, mas ela tinha se habituado com sua vida confortável na cidade fronteiriça.

Isso é um pouco… desconfortante.

Talvez porque, ao contrário da pequena cidade fronteiriça, essa era uma grande cidade desenvolvida.

Tinha um grande número de aventureiros circulando à volta. A Alta-Elfa Arqueira olhava em volta com suas orelhas balançando.

— Vejamos, onde está o Orcbolg…? Ah, ali está ele!

Não havia como confundir aquele capacete de aparência barata e a armadura encardida. O Matador de Goblins estava sentado rigorosamente em um banco no canto do local, com os braços cruzados. Era assim que ele sempre se sentava, se não fosse no lugar de sempre, não seria ele. Mas havia outras coisas que eram diferentes do costume.

Um grupo sussurrou junto, claramente gozando dele. Talvez eles pensavam que ele não ouvia, mas para as orelhas compridas da Alta-Elfa Arqueira suas vozes eram tão claras como se estivessem gritando.

— Céus, qual é a dessa imundice aí?

— Sim, qual rio ele lavou isso? Por favor. Temos normas por aqui!

A Alta-Elfa Arqueira olhou para eles e deu um “hmph”. Ela não gostava nada disso. Ela atravessou o salão em direção ao banco, como se vagando pelos olhares dos aventureiros, e deliberadamente pisou ao longo do caminho de uma forma bastante contrariante a seus habituais passos silenciosos.

— Desculpe por ter feito você esperar, Orcbolg.

Então, ela se sentou ao lado dele, bem ao lado dele. Ela se aninhou para seu lado. Como uma gata, ela assistiu um sussurro entusiasmado atravessar a multidão de aventureiros e sorriu. Isso ia mostrar a eles. A Alta-Elfa Arqueira disse baixinho:

— Sinto muito. Eu meio que adormeci. Você foi capaz de enviar a carta?

— Sim, — ele respondeu suavemente.

Bem, não tinha parecido estar zangado com ela. Isso a ajudou a relaxar só um pouco. Então ela não tinha de se preocupar, também.

Sabendo ou não o que ela estava pensando, ele mostrou seu recibo para a Alta-Elfa Arqueira. Ele exibia um lacre indicando que a carta foi aceita.

— Encontrei um aventureiro indo na direção, então eu pedi a ele para fazer isso. Eu já paguei ele, também.

 


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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