MdG – Volume 2 – Capítulo 3 (Parte 3 de 6) – 3Lobos

MdG – Volume 2 – Capítulo 3 (Parte 3 de 6)

Sucedia naquela hora do vinho estar fazendo seu trajeto através dos corpos deles, aquecendo seus membros.

— …Hmm?

O Matador de Goblins de repente fez um som. Ele imediatamente se levantou num joelho e olhou atentamente para a água.

— Algum problema, Matador de Goblins, senhor…?

— Não, — ele murmurou. — …Mas fique alerta.

A Sacerdotisa assentiu à sua resposta vaga.

Ele deve ter sentido alguma coisa. A Sacerdotisa começou a guardar suas coisas em sua bolsa rapidamente, mas atenta ao seu arredor. Mesmo que não houvesse nada ali, já era hora deles continuarem.

— Vou o ajudar. Meu senhor conjurador, sua manta.

— Aqui.

Ninguém precisava lhes dizer o que fazer. Os aventureiros veteranos se mexiam com rapidez e eficiência.

A Alta-Elfa Arqueira, inclinada com o Matador de Goblins, manteve a mão em cima da aljava, escutando. As suas orelhas mexiam para cima e para baixo e eram as mais astutas do grupo.

— …Alguma coisa está vindo.

Cada um deles imediatamente preparou suas armas. O Matador de Goblins tirou a espada longa que ele tinha acabado de recolher, o Lagarto Sacerdote uma espada-presa. A Sacerdotisa segurou ansiosamente seu cajado; o Anão Xamã tinha sua funda; e a Alta-Elfa Arqueira pegou uma flecha de sua aljava.

— Corta-barba!

— Certo.

O Matador de Goblins pegou o lampião do Anão Xamã com sua mão esquerda, a mesma com o escudo amarrado. Não havia tempo para acender uma tocha. Deveria ele segurar o lampião em sua mão?

Não. Ele o pendurou em sua cintura em vez disso.

Todos eles olhavam além da chuva, para o outro lado do canal, na qual a névoa baixa tinha dispersado em uma neblina fina.

Desta vez, todos eles podiam claramente ouvir o som de pancadas na água.

Não eram ondas. Algo estava chegando pela água na direção deles.

Sem hesitação, o Matador de Goblins alinhou a luz do lampião ao nevoeiro fino. Eles puderam distinguir uma embarcação rudimentar, como uma jangada, modelada com troncos.

— Goblins!

No instante seguinte, os monstros na jangada atiraram com seus arcos artesanais. Seus disparos faltavam precisão, mas no espaço estreito, eles caiam como chuva sobre eles.

— Ó Mãe Terra, abundante em misericórdia, pelo poder da terra conceda segurança para nós que somos fracos…!

Não só as flechas, mas até as gotas de água pararam milagrosamente de cair sobre eles.

A barreira intransponível deu um ligeiro lampejo. Em seu centro ficou a Sacerdotisa, segurando seu cajado com as duas mãos. A oração tinha custado parte de seu próprio espírito, mas tinha alcançado o céu, e a toda-misericordiosa deusa tinha concedido o milagre de Proteção.

— Não consigo o manter po…

— É o suficiente.

A Sacerdotisa estava começando a suar, mas o Matador de Goblins a tranquilizou brevemente. A espada longa já estava na sua mão direita, e seu escudo estava na sua esquerda. — Quantos são? —, ele perguntou.

— Já perdi a conta! —, respondeu a Alta-Elfa Arqueira conforme ela prendia outra flecha no seu arco, e a corda do arco esticada cantou quando ela a soltou. — O que você vai fazer?

— O que sempre faço, — o Matador de Goblins disse, indiferente à chuva de flechas. Ele girou a espada longa na sua mão em um apoio inverso. — Matar todos os goblins.

Ele segurou a espada acima da cabeça e então, quase rápido demais para ver, ele a lançou.

Já que não havia intenção de prejudicar a Sacerdotisa, a lâmina podia passar pela barreira de Proteção, de acordo com as regras.

A espada passou cortando as flechas chegando e trespassou a cabeça do goblin que parecia ser o chefe. Ele nem sequer teve tempo para gritar quando caiu no esgoto, e o cajado que ele estava segurando atingiu a água com um impressionante splash.

— GROOARRB!!

— GAROOROROROR?!

Os goblins começaram a uivar pela perda de seu xamã, e por um momento, o ataque titubeou.

— Foi um. Quantas magias ainda tem?

— Muitos. Tenho os poupado! — O Anão Xamã respondeu ele colocando uma pedra preciosa na sua funda e a disparou.

— …Túnel, então. Nos faça um buraco.

Seus olhos arregalaram com a instrução franca.

— Não seja tolo. Quer destruir essa cidade aqui de cima?!

— Não para cima. Para baixo.

O Matador de Goblins levou a mão em sua bolsa.

— Escave sob o canal e o drene, — ele disse, como se isso fosse a coisa mais óbvia do mundo.

— Uma cidade é como uma máquina finamente elaborada! — O Anão Xamã gritou. — Perturbado mesmo numa coisa, e os esgotos podem transbordar!

— Não é fogo. Não é água. Não é gás venenoso.

Sua perplexidade teria sido cômica em qualquer outro momento, mas nesse momento a Alta-Elfa Arqueira gritou para ele: — Outra coisa!

— …Hum.

O Matador de Goblins ficou calado, então começou a vasculhar sua bolsa.

Os goblins, é claro, não ficaram de braços cruzados. Eles dispararam flechas tão rapidamente quanto poderiam, com sua jangada cada vez mais próxima da margem.

A Sacerdotisa, com suas mãos ainda no seu cajado, exclamou:

— Não consigo aguentar mais…!

— Você não tem mais um daqueles pergaminhos Portal, tem? — O Anão Xamã disse.

— Se eu tivesse, teria trazido.

A tática que ele tinha utilizado contra o ogro ainda estava bem viva em suas memorias, porém, um pergaminho Portal era um item muito valioso e difícil de conseguir. A parte que fazia o Matador de Goblins singular, era sua vontade de usar algo tão precioso sem sequer hesitar. Afinal de contas, ele tinha provavelmente a intenção de usá-lo contra goblins em algum momento.

Enquanto falava, o Matador de Goblins tirou uma coisa da bolsa dele.

— Você tem uma estratégia? — O Lagarto Sacerdote indagou.

— Atacamos no momento que a Proteção desaparecer, — o Matador de Goblins respondeu.

— Claro.

— Goblins ou a jangada? Qual é o melhor?

— A jangada, eu suponho.

— Muito bem.

Com essa breve troca de palavras, o Matador de Goblins se virou para a Sacerdotisa.

A garota estava agarrada ao seu cajado com toda sua força; ela mal poderia poupar o esforço para olhar para ele.

O Matador de Goblins olhou para cima por um instante. O que dizer a ela?

— …Lance Proteção de novo. Consolide nossa defesa.

— S-sim, senhor!

A Sacerdotisa assentiu firmemente. O Matador de Goblins soltou um suspiro. Sua mão direita vazia se abria e fechava.

Ele precisava de uma arma. Se calhar ele podia ao menos encontrar uma faca em algum lugar…

— Só um momento, meu senhor Matador de Goblins.

O Lagarto Sacerdote pegou uma presa de besta de sua bolsa e a agarrou com um gesto estranho.

— Ó asas falciformes de Velociraptor, rasgue e dilacere, voe e cace…

Uma oração para seus veneráveis antepassados. Um apelo a seus antepassados.

Suas duas mãos escamadas passaram pela presa, a imbuindo com o poder do temível naga. Enquanto falava, ela cresceu e transformou em uma Espadagarra.

— Creio que esse é o tamanho de lamina que você prefere. Ah, mas… tente não a arremessar. Se puder.

— Vou tentar.

O Matador de Goblins pegou a lamina oferecida com uma mão acostumada. Nada mal.

— Apenas… um pouco… mais…!

A barreira invisível estava começando a chiar sob o incessante disparo de flecha.

O ruído se transformou em uma fissura, e depois o escudo se partiu em partículas.

— Fechem os olhos e a boca, e não respirem. Lá vai!

No instante seguinte, o Matador de Goblins arremessou o ovo com a mão esquerda diretamente na jangada.

— GARARAOB?!

— GRORRR?!

Berros.

Pimenta triturada e pedaços de cobra misturados em uma casca de ovo quebrada no ar. Os olhos dos goblins enlouqueceram. Eles se sufocaram com a mistura e esbracejaram com a dor.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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