MdG – Volume 2 – Capítulo 3 (Parte 1 de 6) – 3Lobos

MdG – Volume 2 – Capítulo 3 (Parte 1 de 6)

Um grito estridente ecoou através da pedra do canal construída por aqueles povos antigos.

Um goblin caiu para trás, com uma machadinha enfiada na testa.

Sem hesitar, o Matador de Goblins chutou o cadáver no rio de esgoto que fluía nas proximidades. Ele caiu espirrando água, então flutuou entre as espumas de poluição por um momento antes de sumir de vista.

— Esse parece ser o último deles. — O Lagarto Sacerdote limpou o sangue da sua lâmina, uma espada-presa que tinha sido recentemente enfiada numa garganta de goblin.

A chama de uma tocha abandonada no chão tremulava, e a sua luz dançava durante a carnificina ao redor.

Os corpos eram porventura quarenta por cento de goblins; o restante eram restos mortais apodrecendo de aventureiros.

E ali, mais à frente onde a via fluvial se dividia em inúmeras bifurcações, se aproximava uma sombra misteriosa.

— Não… Há mais alguma coisa.

A Alta-Elfa Arqueira não era de perder uma coisa dessas. Enquanto falava, ela armava outra flecha no seu arco. Suas orelhas se agitavam para cima e para baixo; então, com um leve silvo, ela puxou a corda de seda de aranha e a soltou.

Com um bóim parecido a uma bela lira, a flecha trespassou pelo ar.

Ela se curvou, virando o canto como se tivesse vida própria. Um momento depois houve um “Aah!” estridente, e depois um barulho suave de algo atingindo a água.

Esse é o último deles.

— Ufa… Belo disparo.

Com a exclamação triunfante da Alta-Elfa Arqueira, a Sacerdotisa, que tinha estado agarrando seu cajado de monge, soltou um suspiro.

Ela manteve seu espirito continuamente aguçado, para que pudesse invocar um milagre a qualquer momento. Ela ficou contente, no entanto, que ela não tinha precisado usar um, ela poderia guardar para mais tarde.

— Mas… encontrar tantos goblins bem debaixo da cidade…

— Isso é o que eu esperava.

O Matador de Goblins segurou indiferentemente o corpo de um aventureiro. Um pouco de carne podre tombou no chão.

O cadáver estava tão bem roído por ratos que não era possível dizer se era homem ou mulher, mas ele não hesitou.

Cota de malha escurecida com sangue seco. Um elmo avariado. Ele foi provavelmente um guerreiro uma vez. Seu saco de itens já tinha sido feito em pedaços. O Matador de Goblins olhou através de tudo o que os goblins já não tivessem roubado e pegou uma espada longa, bainha e tudo, da cintura do corpo.

Ele sacou a lâmina e encontrou um fio de corte sem nenhuma ferrugem. Talvez tivesse sido bem lubrificada?

— Eles deviam ter sido emboscados. — Um golpe na cabeça muito provavelmente. Nem mesmo uma chance de sacar sua arma.

A espada era pesada demais para um goblin e maior que o Matador de Goblins gostava, mas não era uma arma ruim.

— Muito bem. — O Matador de Goblins assentiu, embainhando a espada de novo. A Sacerdotisa soltou um suspiro.

— Não está “tudo bem”. Posso?

— Vá em frente.

O Matador de Goblins empurrou o cadáver do aventureiro para o seu lado.

A Sacerdotisa se ajoelhou perto do corpo, com sua expressão sombria. Ela não prestou atenção na água suja que molhava suas vestes brancas.

— Ó Mãe Terra, abundante em misericórdia, por favor, com sua mão venerada, guie a alma dele que tem deixado este mundo.

Segurando seu cajado, com os olhos fechados, sussurrando em um ritmo quase musical, ela rezou, entoou e implorou.

Rezou para que as almas dos aventureiros e goblins que tinham morrido aqui, sejam salvos pelos deuses que residiam no céu.

— Bem que poderíamos deixar ele no solo em vez de abaixo dele…

O Lagarto Sacerdote, seguindo o exemplo da Sacerdotisa, colocou suas palmas juntas em um gesto estranho, rezando pelo renascimento dessas almas.

— Embora nos conforte que, ao alimentar os ratos e insetos, você vai retornar à terra com o tempo.

A Mãe Terra e o temível naga. Seus deuses eram diferentes; logo, assim também eram as suas doutrinas.

Mas no desejo da felicidade das almas dos mortos, eles eram iguais. Eles não sabiam onde suas orações iam, apenas que havia salvação.

A Sacerdotisa e o Lagarto Sacerdote olharam um para o outro, sabendo que cada um deles tinha exercido seus deveres.

— Hmm, aqui.

Olhando sem muita atenção para os dois, a Alta-Elfa Arqueira puxou uma flecha de um cadáver de goblin.

Ela verificou o broto na ponta e, satisfeita que não foi danificada, colocou a flecha de volta na aljava.

— Só para você saber, não vou fazer como você, Orcbolg. — Ela fixou seus olhos brevemente sobre o aventureiro armadurado com a expressão enigmática. Suas orelhas fizeram um vuup, como se para mostrar seu humor. — Parece que isso pode ser uma longa batalha. E eu não quero usar flechas de goblin. Elas são tão rudimentares, — ela resmungou.

Os olhos do Matador de Goblins viraram para ela. — São?

— Sim, elas são.

— Entendi.

— Deuses, — o Anão Xamã suspirou, tocando sua barba.

Ele tinha sua mão no saco de catalizadores, preparado com uma magia, mas…

Ele estava olhando para longe, para o preto além da luz da tocha. Como moradores do subterrâneo, eles podiam ver bem no escuro.

— Faz você pensar quantos são.

Mas até os seus olhos aguçados não percebeu sinal de nenhum goblin.

Havia feito três dias desde que eles tinham começado a exploração dos esgotos, e essa foi a quinta vez que eles tinham sido atacados só hoje.

Os esgotos da cidade da água tinham sido completamente transformados em um ninho de goblin. Aventureiros que entraram no local logo se encontraram atacados pelos pequenos demônios.

A sinuosa cadeia de canais — realmente um labirinto, — era o aliado dos goblins.

O grupo era atacado repetidamente em intervalos irregulares, e a busca continuava sem parar; eles nunca podiam abandonar a guarda.

— Me disseram que isso é normal para aventureiros da cidade labirinto.

As queixas do estoico homem-lagarto normalmente eram a prova do preço da fadiga que eles tinham.

Apenas batalha não teria feito isso neles, nem apenas caminhar por uma caverna. Era a vigilância constante que usava os seus nervos.

— …

A ansiedade era clara no rosto da Sacerdotisa, também. Mesmo seus passos pareciam de alguma forma inseguros.

— Fiquem calmos.

O Matador de Goblins, examinando cada centímetro do seu caminho atentamente, era tão contundente como de costume.

Ele tinha pego uma nova tocha de sua bolsa e acendeu, e agora estava batendo insistentemente nas paredes.

— Essa é uma parede de pedra. É pouco provável deles virem nos emboscar através dela.

— Por favor, não traga de volta más recordações. — A Sacerdotisa franziu a testa e tremeu. O horror daquela primeira aventura ainda assombrava ela.

— …Desculpa.

— Está tudo bem, — foi tudo o que ela disse em resposta ao murmúrio silencioso do Matador de Goblins.

Talvez o Anão Xamã sentiu o que se passava entre eles, porque ele sorriu discretamente e disse: — Pelo menos com tanto lixo ao redor, nós não precisamos se incomodar em esconder nosso odor.

— Por favor, não traga de volta más recordações, — a Alta-Elfa Arqueira disse com um cansado abanar de mão.

Ela esticou seu braço e deu uma fungada em sua roupa de caçadora.

No passado, em outra passagem de ruínas subterrânea, o Matador de Goblins a tinha forçado se untar com entranhas de goblin, alegando que isso cobriria o seu odor. Ela tinha sido capaz de lavar suas roupas e limpar seu corpo, mas ela nunca o tinha perdoado.

— Estou avisando você, Orcbolg, se algum dia me obrigar a fazer aquilo de novo, você vai ver.

O Matador de Goblins ficou calado. Ele mexeu a cabeça de um lado ao outro ligeiramente.

Talvez estivesse checando o cheiro da região. Depois de um longo momento, ele respondeu:

— É, não há motivo dessa vez.

— Tsc.

As orelhas da Alta-Elfa Arqueira caíram.

Com o olho entreaberto de um atirador fixado no Matador de Goblins.

— Ei, acabei de me lembrar.

— O que?

— Orcbolg. Você nunca me pediu desculpa.

— Porque foi necessário.

Sua resposta não podia ter sido mais direta. A Alta-Elfa Arqueira fez beicinho com um “grrr” e ficou com mau humor.

— …Hmm?

Repentinamente suas orelhas se moveram rapidamente para cima e para baixo, e ela olhou para o teto.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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