MdG – Volume 2 – Capítulo 2 (Parte 4 de 4) – 3Lobos

MdG – Volume 2 – Capítulo 2 (Parte 4 de 4)

— Foi então que ouvi uma canção do Matador de Goblins, herói da fronteira.

— Uma canção? — O Matador de Goblins disse, não compreendendo. — O que quer dizer?

— Você não conhece? Você está numa balada, Orcbolg. — A Alta-Elfa Arqueira fez um círculo no ar com o dedo indicador. — Acontece que ela não tem muito a ver com o seu eu verdadeiro, no entanto.

— Eu nunca tinha ouvido falar disso.

— Mas certamente você sabe, — o Lagarto Sacerdote disse, estreitando os olhos. — Onde quer que haja um bardo, eles cantarão sobre atos valorosos.

— Para que?

— Não me diga que você não vê a relação, Corta-barba.

Não que ele estivesse interessado.

O Anão Xamã bateu na barriga por causa da expressão perplexa do Matador de Goblins.

— Quando a notícia de seus feitos se espalham, todo mundo vai querer você para matar goblins para eles!

— Hmm…

Os olhos da Donzela da Espada, escondidos por trás do pano, encontrou rapidamente os do Matador de Goblins, escondido atrás do metal.

Ela mordeu o lábio, então com um olhar de determinação, arqueou a cabeça.

— Por favor. Eu te imploro para salvar a nossa cidade.

— Eu não sei se consigo, — o Matador de Goblins disse francamente. — Mas eu matarei os goblins.

Isso simplesmente não era como alguém falava com uma arcebispa, quanto mais uma antiga heroína.

A Sacerdotisa disse: — Matador de Goblins, senhor! —, e puxou seu braço, com os lábios contraídos. — Você tem que encontrar uma melhor, você sabe, maneira de… falar…

— É a verdade, não é?

— É por isso que é tão importante ser cuidadoso com a forma de falar.

— Hum…

O Matador de Goblins deixou escapar um bufo rude, mas ele só podia ficar em silêncio.

O Lagarto Sacerdote balançou a cauda alegremente com a visão de seu amigo enervado, mas o seu tom era sério.

— Se eles estão nos esgotos, as nossas artimanhas habituais não funcionarão.

— Estava mesmo enjoada dos nossos truques habituais, de qualquer forma, — a Alta-Elfa Arqueira disse abatida. — Eles são… estranhos. — Ela deu um soco gentil no cotovelo dele. — Você sabe o que quero dizer, né?

— Sim. — O Matado de Goblins assentiu. — Nós temos que entrar e os destruir, mas o subsolo é uma área grande. Seria problemático se alguns escapassem.

— Não! Estarmos nos esgotos significa que estaremos bem abaixo de todo mundo que vive aqui. Entende?

Ela não sabia porque ficou surpreendida. Orcbolg tinha sido assim desde que o tinha conhecido. Incendiar fortalezas, fazer as pessoas se encharcarem de vísceras, matar goblins das formas mais terríveis, os afogando, usando táticas de ondas humanas…

— Sem fogo! Sem água! Sem gás venenoso! Sem entranhas!

— Já te disse, não tenho a intenção de usar nenhum desses, — ele respondeu em um tom que ele normalmente reservava para repreender a Sacerdotisa, pegando a Alta-Elfa Arqueira desprevenida.

Suas longas orelhas se agitaram pelo aborrecimento, mas foi ela quem finalmente disse “bom”, e desistiu.

O Lagarto Sacerdote ignorou seu sussurro de “o que deu nesse cara?” e disse: — Mas por que não seus vigias noturnos ou seu exército para lidar com essas criaturas? — Ele bateu no chão de pedra com sua cauda para enfatizar suas dúvidas. — Eu não estou familiarizado com a situação desta cidade, mas certamente isso não está para além da sua competência.

— Eles…

— …com certeza te disseram que não tinha necessidade de envolver os militares por algo tão trivial como goblins, — o Matador de Goblins disse bruscamente quando a Donzela da Espada hesitou.

A Donzela da Espada olhou um pouco para baixo, e seus lábios tremeram. Uma resposta mais elegante.

Não era difícil de entender.

Os aventureiros vieram aqui justamente porque os vigias noturnos e o os militares não se envolveram.

Os vigias noturnos pegavam dinheiro para treinarem e se equiparem, e as suas famílias viviam na cidade. Se fossem feridos ou mortos, uma pensão tinha que ser paga aos seus familiares.

Quão diferente era com os aventureiros, que assumiam a responsabilidade por tudo por si mesmos.

Sobretudo, a ressurreição do Senhor Demônio na primavera ainda estava fresco em suas mentes.

— Não se pode fazer nada, eu suponho, — o Anão Xamã disse com um suspiro e um afago em sua barba branca. — Muitos desses demônios ainda perambulam ao redor da Capital. Acho que é para isso que os aventureiros servem…

— Mrrm. Dois grandes pontos problemáticos são o dinheiro humano e a política humana, — o Lagarto Sacerdote disse.

— Estou extremamente envergonhada em admitir a verdade de suas palavras, — a Donzela da Espada disse, como se confessasse um pecado.

As tragédias nesse mundo eram muitas e intermináveis.

Como a Donzela da Espada tinha dito, desde o começo do mundo, a lei e a ordem tinham sido a menor luz.

Ninguém tinha o poder de mudar isso, mesmo ligeiramente.

Mesmo a Mãe Terra, que oferecia salvação para aqueles que foram corrompidos, sua salvação era apenas para aqueles que a desejavam, pediam, e rezavam por ela…

Por isso que os monstros eram conhecidos como Aqueles-que-não-Rezam.

E mesmo assim…

— Eu não me importo muito com coisas assim, — a Donzela da Espada sussurrou, virando o rosto de lado.

Ela parecia uma mocinha que tinha feito alguma coisa embaraçosa.

— Não me interessa. — O Matador de Goblins cortou a conversa com palavras secas. — Como é que entramos no subterrâneo?

— …

Os olhos da Donzela da Espada passaram por todo seu elmo como se procurando alguma expressão.

— Ei.

— Ah. Sim, desculpe.

A voz que respondeu sua chamada estava de alguma forma distante, quase desvairado.

A Donzela da Espada mexeu no decote do seu vestido fino, retirando um pedaço de papel de seus seios generosos.

A folha dobrada parecia bastante velha; parecia ser um mapa dos esgotos.

— Acho que seria melhor para vocês entrarem nos esgotos através do poço no jardim detrás desse Templo.

Seus magros dedos brancos acariciava o mapa enquanto ela o estendia no chão. O velino amassado fez um farfalho quando ela o desdobrou.

— Então, durante as investigações, eu ofereço a vocês este Templo como alojamento.

— Hum.

O Matador de Goblins fazia um som suave enquanto estudava o mapa. Ele estava descolorido, já roído por insetos, contudo mostrava a dimensão dos esgotos. Talvez tivesse feito algum sentido para arquitetos velhos, mas agora…

— É como um labirinto, — a Sacerdotisa disse preocupadamente, olhando para o mapa sobre o ombro do Matador de Goblins.

Os goblins atravessavam completamente o labirinto subterrâneo para atacar os humanos? Enfrentar eles seriam muito mais difícil do que combater outros monstros, mesmo poucos.

Talvez eu esteja apenas nervosa. Ele tinha reparado que ela deslocava discretamente seu olhar para ele?

O Matador de Goblins trouxe o mapa mais perto, depois o tocou levemente.

— Quão preciso é esse mapa?

— Estes são projetos antigos de quando o templo foi construído…

A Donzela da Espada balançou a cabeça suavemente. O gesto formou lindas ondas através dos seus belos cabelos.

— Mas a água da cidade flui lá em baixo. Se nada entrou em colapso, não consigo o imaginar muito diferente disso.

— Tudo bem.

Com um aceno, ele enrolou indiferentemente o mapa e o jogou pelo ar.

O Lagarto Sacerdote habilmente estendeu o braço e o apanhou com suas garras afiadas.

— Você é o nosso guia.

— Certamente.

— Então vamos. Não temos tempo a perder.

Não muito tempo depois de ter falado, o Matador de Goblins partiu com seu passo ousado.

Os outros aventureiros olharam uns para os outros, então assentiram impotentes.

— Bem, esse é o Matador de Goblins de sempre, — a Alta-Elfa Arqueira disse suavemente, se levantando. Ela ajustou seu arco grande em suas costas, contou as flechas, depois foi atrás dele apressadamente.

Os passos dos elfos eram tão silenciosos que eles deveriam pesar nada; o Lagarto Sacerdote achou tudo praticamente inaudível. Ele abriu delicadamente o mapa que ele tinha apanhado, confirmou duas vezes, dobrou ele de novo, e o colocou cuidadosamente na bolsa dele. — Parece haver ruínas mais adentro, mas não saberemos até vermos por nós mesmos.

— Como você disse. E não podemos contar com a nossa moça orelhuda para liderar o caminho. O Corta-barba é outra história.

O Anão Xamã tocou sua barba, incapaz de ver eles entrarem em tal situação perigosa sozinhos.

Os dois se gabaram, então se levantaram, parecendo satisfeitos.

— Você deve nos dar licença então. Devemos ir andando.

— Não posso deixar a orelhuda e o Corta-barba esperando!

E os dois partiram.

A Sacerdotisa também não teve tempo para rir.

Correndo para preparar seu equipamento, ela endireitou suas vestes e parou.

— Bem, hum, senhora arcebispa. Eu… Eu vou indo, também.

Ahem. Ela agarrou seu cajado com as duas mãos e curvou a cabeça para a Donzela da Espada.

— Se me permite… —, a Donzela da Espada anunciou para a Sacerdotisa que se virou para sair. Ela estendeu uma mão fina como se a chamando.

— Sim? — A Sacerdotisa perguntou, olhando questionadoramente para ela.

— Talvez não caiba a mim perguntar isso, como uma provedora de missão…

A Sacerdotisa não podia entender bem a expressão da Donzela da Espada enquanto ela falava. Todas as emoções pareciam ter deixado seu lindo rosto, como um recuo da maré. Era difícil escapar da sensação que ela tinha vestido uma máscara.

— Mas você não está com medo?

Sua pergunta era calma, mas clara.

A Sacerdotisa franziu a testa um pouco; seus olhos vagaram pelo lugar. O que ela deveria dizer?

— Eu… Sim. Eu tenho medo. Mas…

Então, ela não disse mais nada. Ela nunca tinha deixado de estar com medo, não desde que ela tinha entrado num covil de goblins em sua primeira vez naquele dia, há muito tempo.

E no entanto…

Seu olhar desviado seguia aqueles aventureiros, caminhando à frente dela, um pouco longe…

Um enorme homem-lagarto. Ao lado dele, um anão atarracado. Uma elfa magra. E…

Um guerreiro. Usando um elmo de aparência inferior, uma armadura de couro suja com um pequeno escudo redondo e uma espada que parecia ter um tamanho estranho.

— Hee-hee.

Ali parada, quase sozinha, um sorriso brotou no rosto da Sacerdotisa.

Ela era uma discípula da Mãe Terra, mas se ela fosse rezar para o Deus Supremo ela ia pedir uma coisa:

Que ela nunca fique sem nenhum destes companheiros.

— …Tenho a certeza que ficaremos bem.

E com isso, ela ofereceu timidamente uma oração sob sua respiração.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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