MdG – Volume 2 – Capítulo 1 (Parte 1 de 9) – 3Lobos

MdG – Volume 2 – Capítulo 1 (Parte 1 de 9)

— Se você não gosta, pode ir para casa.

Uma voz clara ressoou no meio da floresta, que estava escura mesmo ao meio-dia.

Arvores, musgo, hera. Este era um mundo onde as pessoas pisavam sobre os restos das construções de calcário abandonadas, um lugar governado por plantas tão profusas que elas se enredavam. As ruínas de uma grande cidade, provavelmente construída na Era dos Deuses, ou pelo menos, na primeira era daqueles que possuem palavras.

Até mesmo os elfos supostamente reconheciam que coisa alguma resiste sob o peso dos meses e anos, e, no entanto…

Esta cena era particularmente triste. Fissuras percorriam brutalmente sobre os entalhes bem trabalhados; pisos de pedras uma vez alinhados, agora estavam despedaçados. Entre os ramos que se estendiam acima como um teto, uma difusa luz tênue pouco visível para enxergar se infiltrava. Este lugar tinha sido uma cidade uma vez, mas agora ele era nada, senão ruínas. Atualmente, apenas as árvores e plantas viviam nesse lugar.

Através deste cenário marchavam cinco figuras em uma fila, carregados com todos os itens que se pode imaginar. Eles eram, é claro, aventureiros.

A voz pertencia à garota na vanguarda deles, responsável pela exploração. Suas orelhas longas, a prova que ela era uma alta-elfa, tremeram.

— Isso não significa nada se forçar.

— O que é que não faz? — A resposta foi curta, uma voz quase mecânica.

Ela veio do segundo na fila, um guerreiro humano em um elmo sujo e armadura de couro. Em seu quadril estava uma espada que parecia ter um comprimento estranho; no seu braço estava um pequeno escudo redondo; e em sua cintura estava pendurado um saco cheio com os mais variados itens.

Ele usava equipamentos um pouco melhores comparado aos que os jovens sonhadores do país poderiam ter. Mas por pouco. Ele não parecia grande coisa. Embora seu caminhar, a maneira como ele se portava, irradiava confiança.

Tal como os guerreiros, ele teria dado uma impressão entranha a qualquer pessoa que o observasse.

— Essa aventura! — A Alta-Elfa Arqueira não se virou. Suas longas orelhas se moveram impacientemente para cima e para baixo.

Muitos elfos se tornaram patrulheiros. Eles eram batedores à altura dos rheas, mesmo que não fosse sua classe principal.

Ela saltou com tanta facilidade sobre uma raiz de árvore que se estendia para fora do chão que ela parecia pesar absolutamente nada.

— Eu não desgosto disso, — o guerreiro disse.

As orelhas da Alta-Elfa Arqueira se ergueram.

— Isso foi o que nós combinamos. Não vou recusar a pagar o que te devo, — ele acrescentou.

Suas orelhas caíram outra vez.

A terceira pessoa na fila suspirou quando ouviu as palavras do homem.

Pequena, jovem, inexperiente e a mais bela do grupo, uma garota humana. Ela agarrava um cajado de monge com as duas mãos e vestia as vestes clericais sobre a sua cota de malha. Ela era uma sacerdotisa.

Ela balançou o dedo reprovando o guerreiro, como se dissesse: Não há o que fazer.

— Bem, isso não pode continuar. Você precisa ter um comportamento melhor.

— …Preciso?

— Sim, precisa. Justo agora ela está sendo muito atenciosa com você e com todos!

— É mesmo…? — O guerreiro murmurou, depois se calou. Não era possível observar sua expressão que estava escondida atrás do elmo de aço. Com uma breve deliberação posterior, ele virou sua viseira sinistra em direção à elfa e perguntou diretamente a ela: — É verdade?

— Você poderia não perguntar isso? — A Alta-Elfa Arqueira disse inflando suas bochechas.

Na realidade, desde que ela tinha pedido “uma aventura” como sua recompensa por ajudar o guerreiro a defender uma certa fazenda, a elfa tinha estado com bastante disposição.

Se ela admitiria isso em voz alta, entretanto, era outra questão.

— Ahh, desista! — Um anão gorducho alisou sua barba, dando uma risada sincera.

Ele era o quarto na fila, era um usuário de magia vestido ao estilo Oriental; um Anão Xamã. Ele era ainda mais baixo que a Sacerdotisa, porém sua constituição física era como uma rocha. O senso comum sustentava que os conjuradores eram fracos fisicamente, mas os anões eram diferentes.

Não que o pequeno tamanho de seus membros nunca fossem um problema. Seguir ao longo das trilhas de animais era um problema particular para eles.

— Esse é o Corta-barba. Ser cabeça dura não é novidade.

— …Suponho que sim. O Orcbolg é teimoso. — Com isso, a Alta-Elfa Arqueira suspirou. — Embora me custe admitir que um anão tenha razão sobre qualquer coisa.

O Anão Xamã soltou um “hmph” aborrecido, então sorriu convencidamente. — Como você espera encontrar um homem com essa forma de falar? Desse jeito você vai ser uma solteirona de dois mil anos!

— Tsc! — As orelhas dela balançaram. — Eu não me importo. Por que eu deveria me importar? Seja como for, ainda sou jovem.

— Oh, é mesmo? — O Anão Xamã disse, com seu sorriso se reforçando, como se tivesse encontrado a brecha que estava procurando. — Eu devia ter percebido… a julgar por essa bigorna que você tem como peito!

— Isso vindo de um barril que anda!

As encantadoras sobrancelhas da Alta-Elfa Arqueira se levantaram. Ela girou e encarou o anão. Então abriu a boca para revidar enquanto cobria seu peito bastante plano com os braços…

…mas foi interrompida por uma respiração estridente.

— Os habitantes desta terra podem ter partido para o outro lado, mas, alguns modos ainda seriam bons, não?

Era um homem-lagarto com um talismã em volta do pescoço quem falou.

Ele era a cauda — literalmente e figurativamente, com o seu movimento traseiro, — da formação. Ele era gigante, sua respiração sibilava das suas mandíbulas. Usando as roupas tradicionais de seu povo e juntando as mãos em gestos estranhos, ele era um lagarto sacerdote que seguia a vontade de seus ancestrais, os temíveis nagas.

— As pessoas não tem domínio nestas terras. Fiquem atentos e não se metam em problemas.

— Hmm. Talvez ela estivesse sendo um pouco barulhenta.

— Bah! O que? Isso é culpa sua por…

— Minha querida patrulheira, por favor, — o Lagarto Sacerdote implorou.

As palavras começaram a extinguir nos seus lábios.

O Lagarto Sacerdote não era o líder do grupo propriamente dito, mesmo assim, a Alta-Elfa Arqueira não tinha a coragem de ir contra esse semblante imponente.

— Talvez você possa prosseguir. Escalar essa raiz parece apto a ser um desafio.

— …Sim, senhor.

— E prezado conjurador, não distraia nossa batedora.

— Eu sei, eu sei.

O Anão Xamã não pareceu notar o quanto que as orelhas da Alta-Elfa Arqueira abaixaram sob a repreensão.

Enquanto isso o Lagarto Sacerdote revirou os olhos em irritação.

A Sacerdotisa riu quase inconscientemente. Ela gostava da forma energética que a Alta-Elfa Arqueira e o Anão Xamã ficavam quando eles discutiam.

É bom que eles são amigos o suficiente para discutirem assim.

— Hiup!

A Alta-Elfa Arqueira saltou sobre a raiz de uma árvore quase tão alta quanto ela em um, dois, três passos, em uma exibição acrobática que a maioria das pessoas não eram capazes de fazer.

— Você é experiente nisso, — o guerreiro que estava a observando disse calmamente.

— Oh, você notou?

Junto a resposta satisfeita da Alta-Elfa Arqueira, uma corda de escalada caiu sobre o obstáculo.

O guerreiro deu dois ou três puxões por segurança, então pôs os pés na raiz e começou a subir.

Ele escalou com uma velocidade e leveza que contradizia toda a armadura que ele estava usando. Possivelmente este era o resultado ao usá-los até mesmo fora das aventuras.

— Muito bem. Isso vai funcionar. — Em cima da raiz, seu elmo virou para eles abaixo, e disse: — Próximo.

— Ah… Certo!

A Sacerdotisa assentiu várias vezes e seguiu.

Ela colocou seu cajado nas costas e começou a escalar com insegurança, se apoiando atentamente contra a raiz para se sustentar.

— Mas… Ugh… E pensar que uma cidade grande dessa podia se transformar em ruínas… Caramba!

— Tenha cuidado.

Chiiiii. A Sacerdotisa escorregou em alguns musgos e quase caiu, mas o guerreiro agarrou rapidamente seu pulso e a puxou para cima.

Seu braço era tão fino, que parecia que a mão enluvada de couro do guerreiro poderia a partir.

— O-obrigada… — Ela disse com uma voz infimamente baixa, olhando para baixo na raiz e corando.

Ela esfregou seu pulso ligeiramente dolorido. Não que ela estivesse se queixando.

— Se você não está machucada, nós estamos descendo.

— Tudo bem.

A Sacerdotisa andou sobre a raiz com o guerreiro segurando sua mão para apoiá-la.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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