MdG – Volume 1 – Capítulo 9 (Parte 1 de 2) – 3Lobos

MdG – Volume 1 – Capítulo 9 (Parte 1 de 2)

— Eu pensei que os goblins estavam quietos demais. É tão difícil encontrar uma boa ajuda nestes dias… — A boca do ogro era como um rasgo em seu rosto; sua respiração se agitava para fora. Sua voz era um uivo. — Vocês não são como aquela moradora da floresta de antes. Vocês vieram aqui sabendo que esta era a nossa fortaleza, buscando nos trazer violência. — A sede de sangue do ogro era tangível, hipnotizando os aventureiros. Os olhos dourados estavam queimando em sua face.

Os membros do grupo empunharam suas armas, ficando em posições baixas e se preparando para batalha. De suas fileiras, o Matador de Goblins disse com calma:

— O que? Você não é um goblin?

— Eu sou um ogro! Não me diga que você não sabia?! — ele gritou.

A Alta-Elfa Arqueira aproveitou esta conversação para colocar uma flecha em seu arco curto.

Um ogro. Um canibal.

Se os goblins eram motivados pelo seu ódio para com aqueles-que-possuem-palavras, os ogros eram movidos apenas pela sua sede em caçar presas. Esses infiéis, criaturas que-não-rezam, provocavam o medo nos corações dos aventureiros em todos os lugares. Quem conheceu um ogro e viveu para contar a história, falava de sua força e presença e terror.

Eles disseram que um cavaleiro com um escudo resistente morreu quando tentou bloquear o ataque de um ogro, apenas para encontrar seu próprio escudo enterrado em sua cabeça.

Eles disseram que um grande guerreiro tinha desafiado um ogro para uma batalha de cem dias, mas o monstro nunca sofreu um arranhão, e depois de meses de combate, o Guerreiro caiu exausto.

Eles disseram que um feiticeiro, que conhecia um grande número de feitiços, tentou um desafio de inteligência com um ogro, mas o feiticeiro queimou até a morte quando descobriu que o ogro sabia mais feitiços do que ele.

Era suficiente dizer que os ogros eram adversários difíceis, mesmo para àqueles no ranque Prata. Os de ranque Porcelana, então, poderiam simplesmente ser esmagados como insetos.

Medo estava escrito na face de todos os membros do grupo. Os braços da Sacerdotisa tremiam, fazendo com que o seu cajado de monge chacoalhasse em suas mãos.

Mas o Matador de Goblins disse com profunda exasperação:

— Não. Eu não sabia.

Houve um tremendo som de algo rachando — o ogro estava rangendo os dentes. Ele olhou para o guerreiro diante dele, com uma armadura de couro desprezível e um capacete de aço, como se ele não pudesse acreditar no que estava vendo.

— Seu vira-lata! Você se atreve a zombar de mim?! Me foi concedido um exército pelos Generais Demônios…

— Hmm… eu sabia que alguém precisava estar no comando, — o Matador de Goblins disse, sacudindo a cabeça. — Mas eu não sei nada sobre ogros, ou Generais Demônios, ou seja lá o que for.

Com um rompante de fúria, o ogro soltou uma série de uivos ininteligíveis. Com cada rugido, ele batia seu martelo de guerra contra as paredes, agitando as ruínas e fazendo com que as pedras brancas trincassem.

— Então, me deixe lhe ensinar sobre nós, ignorante! — O monstro estendeu a sua grande e pálida mão esquerda e começou a recitar: — Carbunculus… Crescunt…

Uma luz fraca apareceu na palma da sua mão e girou até se tornar uma chama. A chama queimou em vermelho, depois gradualmente branca, e finalmente azul…

— Ele está invocando uma Bola de Fogo!

— …Iacta!

O Anão Xamã gritou seu aviso quando o ogro terminou seu feitiço. Uma esfera de fogo letalmente quente veio voando pelo ar, trilhando uma cauda como um cometa.

— Se espalhem! — A Alta-Elfa Arqueira gritou.

A coisa obvia a se fazer em face de um feitiço com efeito em área como esse, era se dividir para que o grupo inteiro não fosse exterminado com apenas um golpe. Assim, os membros do grupo correram para todas as direções, e um entre eles foi diretamente para frente.

— Ó Mãe Terra, abundante em misericórdia, pelo poder da terra, conceda segurança a nós que somos fracos…

A Sacerdotisa estava parada, minúscula contra a grande bola de chamas, seu cajado estendido e sua voz alta.

E a Mãe Terra, em sua misericórdia, ouviu sua súplica calorosa. Ela concedeu o milagre da proteção.

A bola de fogo veio contra uma parede invisível e se prendeu no ar, rugindo enquanto queimava.

— Ouch…!!

A pressão e o calor assaltaram a Sacerdotisa, queimando sua pele e mãos, tostando sua carne. Seu cajado tiniu. O suor se formava em sua testa.

— Ó… Ó Mãe… Ó Mãe Terra, abundante em misericórdia, pelo poder da terra, conceda segurança a nós que somos fracos!

Seus lábios secando, seus pulmões ardendo, a Sacerdotisa repetiu a oração. Mas o tremendo calor foi gradualmente derretendo a barreira invisível…

— Ahhh! — A proteção foi finalmente superada pela Bola de Fogo.

A longa batalha do feitiço contra o milagre da Sacerdotisa diminuiu o calor, mas, ainda assim, um poderoso vento quente atravessou o átrio, atacando os aventureiros. A umidade se evaporou do ar em um instante, e o sangue de todos os cadáveres ferveram.

Mas não foi o suficiente para causar danos.

— Haa… ahh… — A Sacerdotisa estava de joelhos, com a língua para fora enquanto ela engolia o ar.

Ela estava em um estado de Sobrecarga — ela havia dito mais orações do que ela poderia lidar. O ritual a conectou diretamente ao céu, mas enfraqueceu sua própria alma, e agora seu rosto estava pálido, e ela estava incrivelmente fria.

— Eu-eu-eu sin-sinto mui-muito…!

— Não, — o Matador de Goblins disse, dando um passo à frente e preparando seu escudo. — Você nos salvou.

A Sacerdotisa, curvada, acenava com a cabeça vigorosamente se agarrando ao seu cajado.

— Bom trabalho, — a Alta-Elfa Arqueira disse, enquanto a sustentava. — Você ficará bem. Agora, deixe o resto para nós.

— Garotinha detestável! — o ogro disse. — Não pense que deixarei você ter um fim tão agradável como aquela elfa!

— Você pensa que pode lidar com a gente? Então venha pegá-la! — A Alta-Elfa Arqueira foi para a frente da Sacerdotisa e soltou a flecha do seu arco que já estava preparada.

O ogro balançou o martelo e deu um grito de guerra estrondoso.

— Convoque um Guerreiro Dente de Dragão, — o Matador de Goblins disse, sua atenção nunca se perdeu enquanto ele segurava o seu escudo acima para proteção. — Precisamos de mais aliados. — O elmo de aço não desviou do ogro, e a espada de aspecto inconvenientemente curta que ele tirou de um goblin, estava apontada para o inimigo.

— Bem dito, meu senhor Matador de Goblins. — O Lagarto Sacerdote fez seu estranho gesto com as mãos, e espalhou alguns pequenos colmilhos no chão.

Ó chifres e garras de nosso pai, Iguanodon, seus quatro membros se tornam duas pernas para caminhar sobre à terra! — Em um instante, os dentes se ergueram em um guerreiro esqueleto.

O Lagarto Sacerdote imediatamente seguiu isso com a oração da Espada de Garras:

Ó asas ceifadoras de Velociraptor, rasgue e dilacere, voe e cace! — A presa que ele segurava nas mãos juntas se desenvolveu e se ajustou diante de seus olhos, até o tamanho de uma cimitarra.

O homem-lagarto jogou a arma recém-criada para o guerreiro invocado e tirou sua própria espada curta de sua bainha.

— O Guerreiro Dente de Dragão e eu iremos com o meu senhor Matador de Goblins! Apoiem-nos pela retaguarda!

— Firmes como a rocha! — A resposta do anão foi tão firme quanto um martelo golpeando uma casa.

Ele pegou um punhado de pó de argila do bolso e o jogou no ar.

— Saiam, gnomos, pois tem o que fazer, não ousem fugir de seu valoroso dever… um punhado de pó, pode não surpreender, porém mil deles, uma pedra irão fazer!

— Pensa que vou deixar você se safar com isso, seu encrenqueiro minúsculo? — O ogro correu para frente, balançando o martelo. Talvez ele quisesse romper a linha de frente para chegar aos defensores na parte de trás. Ele tinha a força para isso.

Mas ele foi impedido pela arqueira, que disparou flecha após flecha, todas com a mira certeira no ogro.

— Os anões podem aprender magias, mas não como mover suas pernas achatadas, hã?

— Urraaaghh!

Cada flecha encontrou seu alvo, e um desses alvos era o olho direito do ogro. Ele parou em confusão e recuou, com a mão em seu rosto.

— Me perdoe, sua majestade pernuda! Todos nós temos que lutar com o que os deuses nos deram!

Naquele momento, o pó que flutuava no ar se transformou em uma massa de pequenas pedras que voavam para o enorme corpo do ogro. Este era o feitiço Rajada de Pedra.

— Hrrgh! Você achou que um truque de magia como esse iria me parar? — O ogro cambaleou ligeiramente sob os impactos constantes.

Mas não mais. O canibal varreu as pedras com a mão e retomou seu avanço aos aventureiros.

O Matador de Goblins se opôs a ele sozinho.

Enquanto ele se movia, com o escudo em seu braço, ele golpeou rapidamente as pernas do monstro com sua espada.

Seus movimentos eram curtos, rápidos, precisos e tão implacáveis como sempre…

— Hrk…!

…e ela ricocheteou fazendo um som metálico. A pele do monstro, mesmo em suas pernas, era dura como uma rocha.

— Tal impertinência!

— Hah…?!

O martelo de guerra varreu e atingiu o guerreiro cambaleando. Sua armadura se amassou, e o Matador de Goblins voou pelo ar, atingindo uma pilha no chão.

— Orcbolg!!

— Senhor, Matador de Goblins! — Ambas a Sacerdotisa e a elfa gritaram, seus rostos estavam igualmente pálidos.

— Eu não sou um mero goblin! — o ogro berrou, tirando a flecha do olho e a jogando fora. O olho deveria ter sido arruinado, mas, em vez disso, ele borbulhou e se curou, e logo brilhou com maldade mais uma vez.

Então os ogros não eram apenas imensamente fortes, mas eram capazes de se curar. Os dentes da elfa começaram a ranger.

— Vocês pararam meu feitiço. Vocês destruíram meu olho. Eu vou cobrar caro por essas humilhações! — Ele ergueu o martelo novamente, direcionado para o Matador de Goblins. — Primeiro, irei despedaçar seus membros. Então, irei me diverti com sua elfa e sua pequena Sacerdotisa enquanto você assiste!

— Como se fosse tão fácil assim, canibal! — A salvação do Matador de Goblins veio na forma do Guerreiro Dente de Dragão que o homem-lagarto tinha invocado. O servo esqueleto arrastou o Matador de Goblins para longe do golpe na hora.

— Senhor, Matador de Goblins…!! — Com passos cambaleantes, a Sacerdotisa fez seu caminho para onde o guerreiro foi levado.

— Cuide dele, minha senhora Sacerdotisa! — O homem-lagarto e os outros se moveram para interceptar o ogro que estava avançando.

— Saia de meu caminho, seu morador rastejante do pântano! — O monstro moveu seu martelo para baixo, mas o homem-lagarto o varreu habilmente para o lado com sua cauda.

— Mestre anão, minha senhora Patrulheira… vossas ajudas, por favor!

— Lance um feitiço, anão!

— Estou preparando!

Correndo pelo chão despedaçado, a elfa disparou suas flechas como uma torrente. Haste após haste voavam pelo ar, perfurando a carne pálida do ogro.

— Você é tão irritante quanto uma mosca, garota!

— O qu…? Hã?!

Mas, isso foi tudo o que eles fizeram. O ogro não mostrou nenhum sinal de lesões, ele bateu seu martelo de guerra em uma parede. A elfa perdeu o equilíbrio de seus pés no chão, e foi lançada no ar.

Uma criatura sem asas é imóvel no ar, e esse ogro não era alguém que perderia essa chance. Ele pisou avançando com um balançar de sua arma.

— O queeee?!

Mas, tampouco a elfa perdeu a oportunidade. Ela curvou seu corpo como uma acrobata e passou pelo martelo que se aproximava.

O movimento do ogro, no entanto, não era apenas para eliminar a elfa. Como se fosse para cumprir o voto de vingança do monstro, escombros caíram do teto com o impacto.

— Hrgh!

— Ooo!

O homem-lagarto se arrastou para fora do caminho, e o anão rolou para esquivar dos destroços. Porém, o Guerreiro Dente de Dragão esquelético não conseguiu se mover rápido o suficiente para escapar. As pedras choveram sobre ele, seguidas de perto pelo martelo de guerra. O Guerreiro Dente de Dragão voltou a ser nada mais do que era antes, uma pilha de ossos.

Ele certamente tinha servido ao seu propósito como um alvo extra, e ainda assim…

— Só isso não bastará! — O homem-lagarto gritou.

— Vocês pensaram em me parar com ossos, galhos e pedras?! — o ogro uivou, quebrando as flechas que acertaram seu corpo com um balançar do martelo. A elfa se afastou da pilha de destroços que o golpe anterior tinha feito, ansiosa para evitar uma repetição dessa performance.

— Neste ritmo, estaremos acabados! — ela gritou, enquanto pulava no ar, preparando e lançando outra flecha. Ela não tinha outra opção, embora os acertos não fizessem nenhum dano — e ela tinha apenas poucas flechas.

— Este é o último de meus feitiços, também! — o anão disse, lançando outra Rajada de Pedra. A saraivada de pedregulhos fez com que o ogro se encolhesse, mas, seja como for, o deixou ileso.

— É o melhor que vocês podem fazer, fadas?!

— Hrmph, eu sabia que deveria ter aprendido Raio de Fogo em vez disso! — O anão sacudiu sua mão vazia com uma careta e um ruído. — Ou talvez eu deveria ter ficado com o Estupor.

— Não é hora para preocupações do passado, — o homem-lagarto disse ligeiramente, revirando os olhos. — Devemos fugir?

— Nem pense nisso, — o anão disse alegremente. — Meu avô arrancaria minha barba!

— Concordo. Um naga não foge.

Enquanto eles se descontraíam, o infatigável Lagarto Sacerdote preparava sua espada curta, e o anão tirou uma funda.

— Ha-ha-ha-ha-haaa! Ficaram sem truques, aventureiros? — O salão tremeu com mais um golpe do martelo do monstro.

O golpe esmagou vários cadáveres de goblins, enviando pedaços voando no ar. Um pedaço de goblin pousou ao lado do Matador de Goblins, o salpicando. Ele grunhiu e se mexeu.

— Senhor, Matador de Goblins…! — A Sacerdotisa o chamou com lágrimas nos olhos, apoiando a cabeça dele com as mãos. Com a ajuda dela, ele finalmente levantou a cabeça.

— Eu não consigo… ver muito bem… O que está acontecen… do…?

— Todos ainda estão lutando…!

— Entendi… Me de uma poção de Cura. Uma poção de Estamina, também, — o Matador de Goblins disse calmamente, examinando seus suprimentos de relance. Ele se sentou rigidamente.

Parte de seu escudo e a armadura de couro sobre seu peito estavam esmagados. Ele sentia sua cabeça estranha de alguma forma, e quando ele estendeu a mão para tocá-la, ele percebeu que havia uma deformação em seu elmo. Seu corpo inteiro doía; toda vez que ele respirava, a dor o atravessava…

Mas, a dor era um sinal de que ele ainda estava vivo. Bom.

Ele certamente sofreu lesões não insubstanciais. Mas, essa armadura miserável salvou sua vida.

— Certo!

— Obrigado.

A Sacerdotisa encontrou os frascos em suas bolsas, tirou as rolhas e entregou para ele. O Matador de Goblins estoicamente bebeu uma, depois a outra. Ele jogou os frascos de lado; eles deixaram novos resíduos no chão de pedra enegrecidos quando se quebraram.

Ao contrário de um milagre dos deuses, poções como essas tinham efeitos relativamente menores. A dor do Matador de Goblins aliviou um pouco, mas seu corpo ainda se sentia como se fosse feito de chumbo. Mas ele podia se mover. Bom.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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