MdG – Volume 1 – Capítulo 8 (Parte 1 de 2) – 3Lobos

MdG – Volume 1 – Capítulo 8 (Parte 1 de 2)

A responsabilidade de fornecer uma escolta para a prisioneira elfa de volta a floresta caiu sobre o Lagarto Sacerdote.

Ele tirou várias pequenas presas de sua bolsa e as espalhou no chão.

Ó chifres e garras de nosso pai, Iguanodon, — ele entoou, — teus quatro membros, se tornam duas pernas para caminhar sobre à terra.

Quando ele falou, as presas no chão tremeram e começaram a crescer. Um momento depois, eles formaram o esqueleto de um homem-lagarto, que inclinou a cabeça para o Lagarto Sacerdote e se ajoelhou.

— Este é o Guerreiro Dente de Dragão, um milagre que recebi de meu pai, — ele explicou.

— Quão bem ele luta? — O Matador de Goblins perguntou.

— Como eu mesmo lutaria, ele pode lidar com um ou dois goblins se houver necessidade.

O homem-lagarto escreveu uma carta explicando a situação e a entregou ao Guerreiro Dente de Dragão. Após a criatura erguer a elfa sobre seu ombro, o guerreiro partiu.

Entre isso e a Cura Menor, o grupo já tinha usado dois de seus milagres. Ninguém se opôs.

— Que diabos…? O que está acontecendo aqui? — A Alta-Elfa Arqueira se queixou, agachada na sujeira. A Sacerdotisa lhe deu um tapinha nas costas.

Estranhamente, embora eles ainda estivessem no local cheio de sujeira, já não notavam o cheiro.

Acho que devemos ter acostumado com ele.

A Sacerdotisa deu um sorriso pesaroso. Seus braços e pernas tremiam um pouco.

O Anão Xamã estava puxando sua barba bruscamente e com um rosto carrancudo. Reivindicando que ele se sentia mal, ele estava parado na porta do local. O Guerreiro Dente de Dragão, carregando a elfa, passou por ele.

O Matador de Goblins tinha suas costas viradas para tudo que acontecia. Ele vasculhou a bagunça, empurrando as coisas ao redor, as jogando de lado, até que, finalmente, puxou algo do lixo.

Era uma mochila de lona pequena, claramente destinada a um aventureiro. Os goblins tinham metido suas garras no interior, mas tinham a jogado fora. Talvez eles tivessem se cansado dela. Estava muito suja. O Matador de Goblins, então, começou a vasculhar dentro.

— Ah, eu sabia que tinha que estar aqui. — Ele pegou um pedaço de papel, já amarelado pela idade.

— O que é isso? — A Sacerdotisa perguntou suavemente, enquanto dava palmadinhas nas costas da elfa.

— Ele deve ter pertencido a essa prisioneira, — o Matador de Goblins disse, calmamente desenrolando o papel.

Na verdade, era uma folha seca. Com o dedo, ele acompanhou as linhas que estavam desenhados nele, e depois balançou a cabeça, como se tivesse encontrado o que queria.

— É um mapa dessas ruínas.

— Essa elfa deve ter usado isso para transitar…

Havia uma boa chance de que, infelizmente, ela não soubesse que as ruínas se tornaram um ninho de goblins. Levando em conta que entrar em algumas ruínas abandonadas era uma aventura, o destino que ela sofreu foi certamente um resultado possível.

O fato de terem chegado a tempo de salvá-la, foi pura sorte, mesmo que a Sacerdotisa odiasse admitir isso.

— O caminho da esquerda leva a uma galeria, — o Matador de Goblins disse, estudando o mapa atentamente —, que está ao lado do átrio. Eu quase posso garantir que a maior parte da horda esteja lá. É o único lugar grande o suficiente para que todos eles durmam. — Ele dobrou o mapa e colocou em sua própria bolsa. — Parece que a esquerda era realmente o caminho correto.

— Hmph. — O anão deu um resmungo ofendido.

O Matador de Goblins também pegou algumas garrafas de pomada e outros itens pequenos da mochila.

E então, sem preâmbulo, ele jogou a bolsa para a Alta-Elfa Arqueira.

Ela ficou confusa.

— Leve isso.

Quando a Alta-Elfa Arqueira colocou a mochila, ela olhou para cima. Os olhos dela estavam vermelhos e inchados de tanto esfregá-los; ela parecia muito desconfortável.

— Vamos.

— Espere, você não pode falar assim com…

— Está tudo bem. — A elfa cortou o discurso indignado da Sacerdotisa. — Nós… nós temos que nos apressar.

— Isso mesmo, — o Matador de Goblins disse calmamente, — nós temos que matar esses goblins.

Ele andou ousadamente como habitual, de certa forma com passos violentos. Sobre a porta colapsada, ele se foi, deixando o lugar cheio de lixo para trás.

Ele não olhou para trás.

— E-ei, espere…!

A elfa gritou e correu para segui-lo, enquanto a Sacerdotisa foi junto em silêncio.

Os dois aventureiros restantes se olharam.

— …Deuses do céu, — o anão suspirou, torcendo sua barba. — Ele é um trabalhador notável, isso é. Eu me pergunto se ele é mesmo humano.

— Eu ouvi dizer que Eotyrannus, o Tirano da Alvorada, também era assim. Parece que as histórias não são completamente falsas. — O homem-lagarto abriu bem os olhos.

— Talvez você tenha que ser um pouco louco para ser bom neste trabalho.

— Seja como for, devemos ir. Eu, pessoalmente, não posso perdoar estas criaturas.

— Nem eu, Escamoso. Os goblins são antigos inimigos dos anões, indo direto ao assunto.

O Anão Xamã e o Lagarto Sacerdote olharam um para o outro, então foram atrás do Matador de Goblins.

O caminho da esquerda se torcia como um labirinto. Isso era natural para uma fortaleza. Se você não conhece o terreno, você não sabe para onde ir.

Mas eles tinham o mapa deixado pela elfa e duas pessoas estavam atentamente procurando armadilhas. Eles encontraram várias patrulhas de goblins em seu caminho pela fortaleza, mas não foi nada inesperado. A Alta-Elfa Arqueira disparou suas flechas neles com seu arco curto, e se isso não conseguisse os deter, o Matador de Goblins entraria na briga e acabaria com eles.

No final, nem um único goblin sobreviveu ao seu encontro com o grupo.

A Sacerdotisa olhou discretamente para o rosto da elfa, tenso como uma corda esticada.

Ela tinha visto os disparos quase que milagrosos da elfa na entrada das ruínas. A simples ideia de que suas flechas poderiam não matar seus alvos parecia quase insondável…

O Matador de Goblins, porém, não parecia se importar. Ele avançava com os mesmos passos calmos como sempre.

Finalmente, chegaram ao último local para descansarem um pouco antes da galeria.

— Quantas magias ainda nos resta? — O Matador de Goblins perguntou tranquilamente. Ele ficou perto da parede, mudando sua arma.

A Alta-Elfa Arqueira estava agachada no canto, e a Sacerdotisa se moveu para ficar perto dela, dando dois tapinhas acolhedores em seu ombro.

— Hum, eu usei a Cura Menor uma vez, então… eu tenho dois milagres sobrando, — ela disse.

— Eu invoquei um Guerreiro Dente de Dragão apenas uma vez, — o homem-lagarto disse. — Eu, também, posso usar até três milagres, mas… — Enquanto sua cauda sacudia de um lado para o outro, ele enfiou a mão em sua bolsa e tirou um punhado de dentes. — O milagre do Guerreiro Dente de Dragão requer um componente como material. Eu só posso fazê-lo talvez mais uma vez.

— Entendi. — O Matador de Goblins assentiu. Seu olhar caiu sobre o anão. — E quanto a você?

— Bem, vamos ver… — O anão começou a contar com seus dedos pequenos, murmurando “um, dois…” em voz baixa. — Depende do feitiço, — ele concluiu, — mas, digo quatro vezes, talvez cinco. Bem, quatro com certeza. Não se preocupe.

— Entendo.

O número de vezes que um conjurador de feitiços poderia usar magias aumentava com seu ranque — mas não drasticamente. O poder real dos conjuradores de feitiços estava na variedade e dificuldade dos feitiços que poderiam lançar. Se eles não fossem um aventureiro ranque Platina — e mesmo assim, um com um dom notável — o número de vezes que eles poderiam lançar por dia era limitado.

Isso significava que todos os feitiços eram preciosos. Os desperdice e morra.

— Hum, você gostaria de algo para beber? Você consegue beber?

— Obrigada. — A Alta-Elfa Arqueira pegou o cantil que a Sacerdotisa ofereceu a ela e o levou a seus lábios.

Ela tinha feito tudo, mas em silêncio até este momento. A elfa sempre recebeu as preocupações da Sacerdotisa com um sorriso fraco e balançando a cabeça.

Quem poderia culpá-la? — A Sacerdotisa pensou. — Depois de ver o que aconteceu com a outra elfa assim…

A Sacerdotisa às vezes sonhava com o que aconteceu com seus ex-companheiros.

Naquele tempo, ela e o Matador de Goblins tinham pegado uma missão atrás da outra quase sem parar. Olhando para trás, ela estava feliz que ela não tinha tido tempo para parar e pensar.

— Não coloque muito em seu estômago. Isso diminuirá o fluxo sanguíneo, — o Matador de Goblins disse calmamente. — Você não reagirá tão rápido.

Ele não estava dizendo isso pelo benefício da elfa. Era apenas uma prática. Ele estava se certificando de que todos estivessem cientes.

A Sacerdotisa parou, como se inconscientemente protegendo a elfa.

— Senhor, Matador de Goblins! — ela disse. — Você não poderia ser… um pouco mais…?

— Eu não quero enganar ninguém, — ele disse balançando a cabeça lentamente. — Se você é capaz de se juntar a mim, então junte-se. Se você não for capaz, então volte. É simples assim.

— Não seja ridículo, — a elfa disse, limpando as gotas de água de sua boca. — Eu sou uma patrulheira. Orcbolg… você, mesmo você, não poderia explorar, procurar armadilhas e lutar sozinho.

— Aqueles que podem, devem fazer aquilo que são capazes.

— Eu estou dizendo que nós não temos força. Há apenas cinco de nós.

— Os números não são o problema. Seria muito pior deixar este lugar assim.

— Ah, pelo amor dos deuses! — A elfa agarrou seus cabelos. Suas orelhas apontaram para trás. — O que está acontecendo aqui? Eu nem sei mais nada…

— …Você vai voltar, então?

— Como eu poderia?! Depois de ver o que eles fizeram a essa prisioneira?! E minha casa… Minha casa não está tão longe daqui…

— Entendo — essa foi a única resposta para a arqueira agitada. — Nesse caso, vamos. — Com isso, ele ficou de pé e anunciou o fim de sua breve pausa.

O Matador de Goblins foi em frente sem outras palavras. A elfa olhou cheia de ódio para as costas dele, cerrando os dentes.

— Calma, orelhuda. O território inimigo não é um lugar para começar uma briga.

Houve uma pausa.

— Você está certo, — a elfa disse.

O anão deu uns tapinhas suavemente em suas costas. As orelhas da elfa caíram.

— Eu sinto muito. Eu odeio concordar com um anão. Mesmo quando ele está certo.

— Ah, essa é a orelhuda que eu conheço!

Com o arco curto na mão, a elfa saiu. A Sacerdotisa deu ao anão um pequeno assentimento inclinando seu corpo enquanto passava. O anão seguiu, revirando sua mochila. E o homem-lagarto mais uma vez fez o papel de cauda na formação deles.

— Cuidado nunca é demais, — o anão disse.

— Certamente. Eu deveria fazer preparativos para orar. — O homem-lagarto fez o gesto estranho com as palmas das mãos.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
FONTE
Cores: