MdG – Volume 1 – Capítulo 7 (Parte 1 de 2) – 3Lobos

MdG – Volume 1 – Capítulo 7 (Parte 1 de 2)

O ninho estava bem no meio de um campo enorme.

Talvez, ninho não fosse a palavra certa para isso. Ele tinha uma entrada de pedra branca que se erguia do chão, como se estivesse enterrada. Isto não era uma caverna. Era claramente artificial: ruínas antigas.

A pedra pálida captava a luz do sol que se desvanecia, cintilando um vermelho como sangue.

Dois goblins estavam de guarda. Eles estavam parados em ambos os lados da porta de entrada, com lanças em suas mãos e precárias placas de couro cobrindo seus corpos. Com eles estava um cão — não, um lobo.

— GURUU…

— GAU!

Um dos goblins, olhando ao redor, foi se sentar e foi repreendido pelo outro. O primeiro monstro se forçou a ficar de pé, deu um grande bocejo e olhou para o sol com um ódio indisfarçável. O lobo estava no chão ao lado deles. Suas orelhas se contraíram. Os animais selvagens não baixavam a guarda, mesmo quando descansavam.

A elfa viu tudo isso dos arbustos não muito longe.

— Goblins com um cão de guarda? Só podem estar brincando comigo.

— Isso prova que esta horda tem tempo e recursos disponíveis. — Ao lado dela, o Matador de Goblins estava deitado no chão. Ele estava amarrando um pedaço de corda em uma pequena pedra, e seu olhar nunca se afastou dos goblins. — Fique alerta. Deve haver muitos deles dentro.

— Por curiosidade, e se a horda não tivesse recursos extra?

— Então eles não manteriam o cão. Eles o comeriam.

A elfa sacudiu a cabeça. Ela não deveria ter perguntado. O Lagarto Sacerdote riu silenciosamente.

— Isso é seguro? — a elfa perguntou. — A noite vai chegar em breve. Não deveríamos esperar, e fazer nosso movimento amanhã, durante o dia?

— Está no início da manhã para eles agora. É a hora certa.

— …Tudo bem, então. Aqui vai.

A elfa puxou uma flecha enquanto respirava profundamente.

Os elfos não usavam ferro. As hastes de suas flechas eram feitas de galhos de árvores que, naturalmente, tinham o tamanho e a forma adequada; as pontas eram de dentes de animais, e para as penas, eles usavam folhas.

O arco da Alta-Elfa Arqueira, feito de ramos de uma grande árvore de faia e amarrado com seda de aranha, era maior que ela. Entretanto, ela lidava com ele de forma hábil, se agachou na vegetação e encaixou uma flecha na corda.

A seda de aranha fez um som sibilante quando ela a puxou a corda retesada.

— Me diga que essa coisa funciona melhor do que parece, — o anão disse desesperançoso. Ele achou que não poderia confiar em um pedaço de madeira e folhas. — Por favor, não erre! Você tem uma aljava cheia de flechas, mas temos apenas poucos feitiços.

— Silêncio, — a elfa ordenou rigidamente. O anão fechou a boca obedientemente. Depois disso, ninguém disse nada.

O arco dobrou fazendo um mero som de madeira tensionando. O vento assobiou. A elfa moveu suas longas orelhas ainda que ligeiramente.

O goblin à direita bocejou. A elfa soltou a sua flecha.

Ela deixou seu arco sem fazer um som. Mas, parecia cair a vários passos à direita dos goblins.

O Anão Xamã estalou a língua fracamente. A elfa, porém, estava sorrindo. Ela já tinha uma segunda flecha em sua mão.

Em um instante, a flecha desviada desenhou um grande arco pelo ar, passando pelo goblin à direita e tomando parte de sua coluna vertebral com ela. Ela continuou a ir para a bochecha do goblin à esquerda. A flecha encontrou seu olho e atravessou diretamente.

O lobo saltou, sem saber o que aconteceu, mas abriu sua boca para uivar sobre o perigo…

— Tarde demais!

A elfa soltou a segunda flecha quase que mais rápido do que se poderia ver. O lobo voou para trás. Foi só então que os dois goblins caíram no chão como sacos de tijolos, mortos.

Foi uma exibição espetacular de habilidade, muito além da capacidade humana.

— Isso foi incrível! — A Sacerdotisa olhou admiravelmente para a elfa.

— De fato, — o Lagarto Sacerdote disse, com os olhos grandes aumentando cada vez mais. — Mas o que você fez? É algum tipo de feitiçaria?

A elfa deu uma risada orgulhosa e sacudiu a cabeça.

— Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia. — Suas orelhas sacudiram como se demonstrasse seu conhecimento.

— Essa é uma afirmação ousada comigo aqui em pé, — o Anão Xamã disse, pois era muito bem versado em tecnologia e magia.

— Dois… Estranho. — O Matador de Goblins se levantou dos arbustos. Se a flecha da elfa errasse, ele estava planejando lançar sua pedra no inimigo.

— O que? Tem algum problema? — A elfa disse, pensando que ele estava se referindo a seu disparo com o arco.

Ele balançou a cabeça com uma pitada de exasperação.

— Eles estavam com medo. Você já encontrou um goblin diligente?

— Você não acha que eles estão preocupados porque estão ao lado de uma floresta de elfos?

— Nós poderíamos esperar, — ele disse, e com a resposta indiferente, ele caminhou até os goblins e se ajoelhou para inspecionar seus cadáveres.

— Ah, hum… — A Sacerdotisa parecia adivinhar o que ele estava fazendo. — Eu de-devo ajudar…? — Ela perguntou com uma voz tênue, com um sorriso tenso em seu rosto.

— Não há necessidade, — o Matador de Goblins disse sem rodeios. A Sacerdotisa soltou um suspiro de alívio. Seu rosto tinha ficado um pouco pálido.

— O que você está fazendo? — A elfa, cuja curiosidade foi naturalmente atiçada por este intercambio, caminhou até o Matador de Goblins e olhou para baixo.

Uma faca tinha aparecido em sua mão. Ele a cravou no cadáver do goblin e cortou casualmente as tripas da criatura.

A elfa se enrijeceu e puxou o braço dele.

— Co-como você pode fazer isso com eles? Eu sei que você odeia goblins, mas você não tem que…

— Eles têm um excelente sentido de olfato.

— …Hã?

O Matador de Goblins estava calmo enquanto ele deu esta resposta que não era uma resposta. Ele cobriu suas manoplas com sangue, e depois tirou um fígado de um dos corpos.

— Especialmente para com o cheiro de mulheres, crianças e elfos.

— Es… espere um segundo. Orcbolg. Você não está dizendo que…

Em resposta, o Matador de Goblins envolveu o fígado em um pano e o espremeu.

A Alta-Elfa Arqueira, finalmente entendendo onde ele conseguiu as manchas em sua armadura, ficou mais branca do que as pedras que se erguiam na frente deles.

Momentos depois, os guardas mortos foram escondidos com segurança nos arbustos, e o grupo avançou em direção às ruínas. As paredes de calcário cercavam o caminho estreito que parecia se inclinar suavemente para baixo.

O Matador de Goblins estava na liderança. Com sua espada, ele bateu no chão e nas paredes. Então, ele jogou sua pedra de estimação para frente, viu que aterrissou com segurança, e a trouxe de volta.

— Sem armadilhas.

— Hmm. Eu especulo, mas, este lugar parece ser um templo.

— Parece que esse campo foi o local de uma batalha durante a Era dos Deuses, — a Sacerdotisa disse. Ela passou a mão sobre uma escultura na parede. — Talvez seja uma fortaleza ou algo da época… Embora a construção certamente pareça ser humana…

— Primeiro um lar para soldados, agora para goblins. O que é mais cruel? — O Lagarto Sacerdote ponderou tristemente, juntando suas mãos.

— Falando em crueldade, — o anão continuou, — você vai ficar bem, orelhuda?

— Errgh… eu acho que vou ficar doente, — a Alta-Elfa Arqueira choramingou.

Seu equipamento tradicional de caça estava coberto de sangue. O líquido que havia brotado do fígado do goblin, revestia seu cabelo e escorria pelo seu corpo. Mesmo o anão não tinha a vontade de provocá-la nesse estado.

— Se acostume, — o Matador de Goblins disse ao lado da elfa.

À sua esquerda, seu escudo estava fixado em seu braço, e em sua mão havia uma tocha. Na mão direita, sua espada brilhava. A elfa lançou um olhar feroz em sua direção, enquanto mudava seu arco para um menor, mas suas lágrimas reprimidas no canto dos olhos e suas orelhas caídas penosamente, a fazia menos intimidante.

— Quando nós voltarmos, espero que você se lembre disso!

— Eu vou me lembrar, — ele disse brevemente.

A tocha queimava. As alas dos elfos pareciam se estender até aqui. Ou talvez, muitas, muitas luas atrás, os elfos haviam vivido nesta terra.

Para o Matador de Goblins, o verdadeiro problema era que isso limitava sua capacidade de atacar com fogo.

— Vocês humanos são absolutamente inconvenientes, — o anão disse, acariciando seu bigode. Dos membros do grupo, apenas o Matador de Goblins carregava uma tocha. O anão, a elfa e o homem-lagarto tinham vários graus de visão noturna.

— Eu sei. É por isso que temos nossos truques.

— Bem, eu gostaria que você pensasse em algum melhor, — a Alta-Elfa Arqueira disse abatida.

A Sacerdotisa, sentindo pena dela, falou em uma tentativa de a confortar.

— Hum, isso sai quando você lava… geralmente.

— Você entende a minha dor.

— Eu estou acostumada com isso, — ela disse com um sorriso fraco. Suas roupas estavam, mais uma vez, cobertas por sucos de goblin. A Sacerdotisa estava no meio da formação, agarrando levemente seu cajado de monge.

O caminho era amplo o suficiente para que dois pudesse andar lado a lado, então, a Alta-Elfa Arqueira e o Matador de Goblins ficaram lado a lado na frente da Sacerdotisa, enquanto o Anão Xamã e o Lagarto Sacerdote ficaram atrás. Ela era ranque Porcelana, afinal. Ela era o membro mais fraco e frágil de seu grupo. Eles tinham que protegê-la.

Apesar disso, e de a Sacerdotisa sofrer de um complexo de inferioridade, nenhum dos outros enxergava ela como um fardo. Todo conjurador de feitiços poderia somente usar alguns feitiços, e algumas vezes. Nenhum deles eram aventureiros de ranque Platina que poderiam utilizar suas magias ou milagres dezenas de vezes por dia. Ter um curandeiro no grupo poderia significar que alguém teria um feitiço guardado para quando fosse necessário.

Ou melhor, alguém que poderia conservar seus feitiços era aquele que poderia sobreviver…

A Sacerdotisa observava seus companheiros, atenta em silêncio. Ela segurava seu cajado vagamente.

É quase como qualquer outra aventura…

E de repente, ela estava caminhando na frente da Maga novamente.

Assim como a primeira vez…

Com os lábios trêmulos, a Sacerdotisa recitou várias vezes o nome da Mãe Terra. Ela esperava que nada acontecesse nessa missão. Mas ela sabia que era um desejo fútil.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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