MdG – Volume 1 – Capítulo 6 (Parte 2 de 2) – 3Lobos

MdG – Volume 1 – Capítulo 6 (Parte 2 de 2)

— Não é um pergaminho mágico? — ela perguntou. — Nunca vi um antes.

Em suas palavras, não apenas a Sacerdotisa, mas o anão e o homem-lagarto se inclinaram para olhar.

Um pergaminho mágico. Um item às vezes encontrado em ruínas antigas, embora muito raramente. Ao desenrolar um pergaminho, até mesmo uma criança poderia lançar um feitiço que estivesse escrito nele. O conhecimento de como fazê-los foi perdido há muito tempo, até o mais antigo dos elfos não saberiam. Os itens mágicos eram raros, mas tais pergaminhos estavam entre os mais raros de todos.

Mas por causa de tudo isso, eles eram itens surpreendentemente inconvenientes para os aventureiros. Qualquer feitiço, de uma variedade infinita, poderia ser escrito nele, do mais útil ao mais mundano, e eles poderiam ser usados apenas uma vez, afinal. Muitos aventureiros simplesmente os vendiam — por uma soma considerável — para pesquisadores ou colecionadores de raridades. Um feiticeiro em um grupo era um conjurador de magias suficiente para um grupo de aventureiros. Logo, eles precisavam mais de dinheiro do que pergaminhos.

O Matador de Goblins era um dos poucos que mantinha seu pergaminho. Mesmo a Sacerdotisa não sabia que ele o tinha.

— Tudo bem, tudo bem. Eu não tocarei, nem olharei, mas você, pelo menos, poderia nos dizer qual feitiço está escrito nele?

— Não. — Ele nem sequer olhou para ela. — Se você for capturada e disser aos goblins, e depois? Você saberá o que é quando eu o usar.

— …Você não gosta de mim, não é?

— Não tenho nada em particular.

— Não é apenas uma maneira de dizer que não se importa?

— Não quero dizer mais do que eu já disse.

A elfa cerrou os dentes e suas orelhas baixaram com raiva.

— Desista, orelhuda. Ele é mais teimoso do que eu. — O anão riu alegremente. — Ele é o Corta-barba, afinal.

— Você quer dizer Orcbolg.

— Eu sou Matador de Goblins, — ele murmurou.

A elfa franziu a testa, e o anão acariciou sua barba em distração.

— Hum, me desculpe, — a Sacerdotisa interrompeu, — mas, o que Orcbolg quer dizer, exatamente?

— É o nome de uma espada que aparece em nossas lendas, — a elfa disse. Ela ergueu o dedo orgulhosamente como uma professora instruindo seus alunos. — Era uma lâmina de extermínio de goblins que ficava azul sempre quando um orc… um goblin… estivesse próximo.

— Dizem, no entanto, que foram nós, os anões, que forjaram ela, — o Anão Xamã interveio.

A elfa bufou.

— E o chamou de “Corta-barba”. Que nome horrível. Os anões podem ter boas cabeças para criação de itens, mas não para nenhuma outra coisa.

— Então, orelhuda, você admite que seu povo não são artesões tão habilidosos como o meu é! — Ele deu uma enorme gargalhada com a mão na barriga.

A elfa estufou suas bochechas.

O homem-lagarto rolou bem os seus olhos, como se não pudesse acreditar no que estava vendo, e trocou um olhar com a Sacerdotisa. Ela estava começando a entender que esta era sua maneira de fazer uma piada.

Ela também apreciava argumentos amigáveis. Era assim que os elfos e os anões eram. A Sacerdotisa, que estava pela primeira vez junta com pessoas de outras raças, sabia que nunca poderia confiar nos membros de seu grupo se não os conhecesse. Então, ela saiu de sua normalidade para conversar com eles, e em pouco tempo, eles se tornaram amigos rapidamente.

A fé ancestral do homem-lagarto não chocou com os ensinamentos todos compassíveis da Mãe Terra. E havia outra garota na equipe de mesma idade que a Sacerdotisa — ou, pelo menos, parecia. Isso a deixava muito à vontade.

O Matador de Goblins, por sua vez, não parecia especialmente abraçar ou rejeitar qualquer um deles. Mas isso parecia de certo modo o gosto do anão. Qualquer motivo que fizesse o Matador de Goblins irritar a elfa, o anão se agradava em tentar imitar.

Este estranho grupo tinha se encontrado de forma inesperada, e, de certa forma, havia uma sensação de que se pertenciam.

A Sacerdotisa sentiu um calor incomum se espalhando por ela.

— Ei, quer aventurar com a gente?

O que não significava que não houvesse nada que picassede preocupação em seu coração…

— Ah sim, há uma coisa que eu estava me perguntando, — disse o homem-lagarto, com sua cauda soando, abrindo o maxilar. O fogo dançava. Antes de fazer sua pergunta, ele fez o estranho gesto das palmas juntas. Ele alegou que era uma expressão de gratidão pela refeição.

— De onde vem os goblins? Meu avô me contou uma vez de um reino sob à terra…

— Eu — o anão arrotou — ouvi dizer que eles eram rheas ou elfos caídos.

— Que preconceito! — A Alta-Elfa Arqueira olhou para o Anão Xamã. — Me foi ensinado que os goblins foram anões que ficaram obcecados por ouro.

— Preconceito, de fato! — O anão olhou triunfantemente para a elfa, que balançou ligeiramente a cabeça.

— Ai, ai, nosso sacerdote não disse que eles vieram de debaixo da terra? E não é assim que vieram os anões?

— Grrr…! — O anão só conseguia ranger os dentes sobre isso.

A elfa deu uma risada satisfeita. O homem-lagarto, é claro, lambeu o nariz com a língua.

— Sob à terra, sim eu disse, mas não de elfos ou anões. Que histórias os humanos dizem, Sacerdotisa?

—Ah, hum… — A Sacerdotisa estava no meio do caminho de reunir a louça de todos e limpar. Ela deixou o trabalho de lado e se endireitou, colocando as mãos sobre os joelhos. — Nós temos um ditado que, quando alguém falha em alguma coisa, surge um goblin.

— O que?! — A elfa riu.

A Sacerdotisa assentiu com um sorriso.

— É apenas uma maneira de ensinar modos. Se você não faz tal e tal, um goblin virá até você!

— Isso parece uma notícia sombria, garota! — o anão disse, — Porque, a orelhuda sozinha, seria responsável por um exército de goblins!

— Ei! — As orelhas da elfa se apontaram para trás. — Que rude. Aguarde até amanhã. Você verá se alguma de minhas flechas não conseguirá atingir seu alvo.

— Oh, elas vão atingir em alguma coisa, sim… mas eu tenho medo é que elas me acertem, bem na parte de trás!

— Certo. Anões pequenos são bem-vindos para se esconderem atrás de mim.

— Maldição, eu irei! Você é uma patrulheira, não é? Um pouco de exploração ajudaria a todos, — disse o anão, acariciando sua barba com um sorriso malicioso.

A elfa levantou o braço e pareceu responder, quando uma única palavra saiu em murmuro entre eles.

— Eu…

Naturalmente, a atenção do grupo se voltou para a fonte.

— Eu ouvi dizer que eles vieram da lua, — o Matador de Goblins disse.

— Da “lua”, você se refere a uma das duas de nosso céu? — o homem-lagarto perguntou.

— Sim. — O Matador de Goblins assentiu. — A verde. Rochas verdes, monstros verdes.

— Bem, nunca pensei que eles poderiam ter vindo de minha cabeça, — o anão disse com um longo e pensativo suspiro.

Com grande interesse, a elfa perguntou:

— Então, as estrelas cadentes são goblins descendo aqui?

— Não sei. Mas não há grama, nem árvores ou água na lua. Apenas rochas. É um lugar solitário, — ele disse com sobriedade. — Eles não gostam de lá. Eles querem um lugar melhor. Eles têm inveja de nós, com ciúmes, eles descem aqui.

— Aqui?

— Sim. — Ele assentiu. — Então, quando você fica com ciúmes, você se torna um goblin.

— Entendi, — a elfa disse com uma respiração decepcionada. — Outra historinha para ensinar maneiras para as crianças.

— Hum, quem te contou essa história? — A Sacerdotisa perguntou, se inclinando para frente.

Ele sempre foi tão realista e racional. Esse tipo de história parecia diferente do que ele “costuma ser”.

— Minha irmã mais velha.

— Oh, você tem uma irmã mais velha?

Ele assentiu.

— Tive.

A Sacerdotisa sorriu suavemente. O pensamento desse aventureiro insensível sendo repreendido por sua irmã era de alguma forma animador.

— Então, — a elfa pressionou, — você realmente acredita que os goblins vêm da lua?

O Matador de Goblins assentiu ligeiramente.

— Tudo o que sei, — ele disse, olhando para os dois globos no céu, — é que minha irmã nunca esteve errada. Sobre qualquer coisa.

Com isso, ele ficou em silêncio. A fogueira crepitou. Com suas orelhas compridas, a elfa detectou uma pitada de suspiro.

Ela silenciosamente aproximou o seu rosto do capacete do Matador de Goblins. Ela ainda não podia entender sua expressão. Um sorriso malicioso se espalhou pelo seu rosto.

— Pfft. Ele adormeceu!

— Oh-ho, o vinho de fogo finalmente chegou até ele, não é? — O anão estava apenas agitando a última gota da garrafa.

— Pensando sobre isso, ele teve uma parte justa dessa coisa, não é?

A Sacerdotisa tirou um cobertor de seu equipamento e o colocou sobre ele. Sempre muito gentil, ela tocou a armadura de couro de seu peito. Ela também estava cansada, mas ele precisava descansar.

— Vamos, nós também precisamos descansar, — o homem-lagarto disse solenemente. — E vamos determinar a vigia. Uma boa-noite de sono será uma arma em nosso arsenal.

A Sacerdotisa, a elfa e o anão se ofereceram para a troca.

Quando ela se aconchegou debaixo de seu cobertor, a elfa deu uma olhada no Matador de Goblins.

— Hmm, — ela murmurou para si mesma. — Eles dizem que um animal selvagem nunca dorme em frente àqueles em que ele não confia…

Para sua própria inconveniência, ela achou que isso inspirou a ela um leve brilho de felicidade.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
FONTE
Cores: