MdG – Volume 1 – Capítulo 6 (Parte 1 de 2) – 3Lobos

MdG – Volume 1 – Capítulo 6 (Parte 1 de 2)

Três dias se passaram em um piscar de olhos.

Sob as estrelas e às duas luas, em um campo que parecia não ter fim, cinco aventureiros estavam sentados em um círculo. Uma longa e fina trilha de fumaça flutuava para o ar de sua fogueira. Bem atrás deles, a floresta onde viviam os elfos estava em escuridão.

— Pesando sobre isso, por que todos vocês se tornaram aventureiros? — A elfa perguntou.

— Por um jantar requintado, obviamente! E você, orelhuda?

— Claro que você queria comida. Eu… eu queria conhecer o mundo exterior.

— Quanto a mim, eu procuro aumentar meu status erradicando a heresia, para que eu possa me tornar um naga. — Disse o homem-lagarto.

— O quê? — A Sacerdotisa perguntou curiosa.

— Eu procuro aumentar meu status erradicando a heresia, para que eu possa me tornar um naga.

— Uh… Claro. Eu consigo entender isso, eu acho. Eu também sou religiosa.

— Eu queria matar… — O Matador de Golins, que estava em silêncio até agora, estava dizendo quando foi interrompido.

— Sim, de alguma forma, eu acho que consigo advinhar o que você quer dizer, obrigada.

— Não interrompa o homem, orelhuda! — O anão resmungou enquanto ele tecia folhas de grama seca juntas.

O fogo não queimava alto. Os elfos odiavam fogo e vigiavam constantemente para manter os incêndios sobe controle. Mesmo tão longe da floresta como estavam, os efeitos ainda eram visíveis.

A Sacerdotisa e o homem-lagarto haviam preparado isto, o último jantar que comeriam antes de chegarem ao ninho.

— Hmm, isso é delicioso! O que é isso? — A carne com boa textura tinha sido preparada com especiarias assim que começou a assar. O anão, encantado com o resultado cheiroso e crocante, tomou para si dois ou três espetinhos.

— Estou contente por você achar satisfatório. — O homem-lagarto respondeu aos elogios do anão com um sorriso gratificante, o que para ele significava arreganhar seus dentes longos. — É a carne seca de uma criatura do pântano. As especiarias incluem ingredientes que não são encontrados por estas bandas, daí o motivo de seu paladar achar incrível.

— É por isso que ninguém gosta de anões. Eles são gulosos e carnívoros para começar, — a elfa zombou.

— Bah! Como poderia um coelho como você apreciar as virtudes de uma refeição como essa? Me dê outro!

— Eca…

O anão lambeu a gordura em seus dedos e pegou outro grande pedaço de carne como se quisesse ressaltar seu ponto. A elfa resmungou com nojo ao vê-lo consumir tão vigorosamente algo que nem sequer podia contemplar em comer.

— Hum, talvez você gostaria de uma sopa? Não é muito, com apenas uma fogueira para cozinhar, mas…

— Sim, por favor!

A Sacerdotisa fez uma sopa de feijões secos com uma mão habilidosa. A elfa não tinha comido nenhuma carne, então a sugestão de algo que ela pudesse comer era suficiente para fazer suas orelhas regozijarem-se de alegria.

A tigela cheia de sopa que a Sacerdotisa passou para ela estava quase transbordando, e tinha um sabor suave que era inegavelmente deliciosa.

— Hmm. Eu tenho que te dar algo por isso… — A elfa pegou pequenas e finas pastilhas de pão envoltas em folhas de sua mochila e o quebrou em pedaço. O cheiro era levemente doce, mas não tinha fruta ou açúcar nele.

— Isso… não é pão seco, é? Não parece ser um biscoito também…

— É uma comida conservada que os elfos fazem. Na verdade, quase nunca compartilhamos com ninguém. Mas hoje é uma exceção.

— Isso é delicioso! — Mal tinha dado uma mordida, e o sabor impressionante trouxe palavras de apreciação aos lábios da Sacerdotisa.

Uma pequena surpresa estava escondida na comida. O exterior crocante dava lugar a um interior suave e úmido.

— Oh? Isso é bom. — A elfa parecia estar desinteressada, mas a maneira como ela fechou os olhos ligeiramente a fez parecer muito satisfeita.

— Grh! Bem, agora a elfa está se exibindo, eu não posso deixar os anões ficarem sem ser representados, posso?

Assim que terminou de falar, o Anão Xamã pegou um jarro de argila grande e bem fechado. Havia um som de líquido se agitando dentro. Quando ele tirou a rolha e derramou um pouco em uma xícara, o aroma pungente de álcool fluiu por todo o acampamento.

— Heh heh. Diga olá para a nossa especialidade, produzido em nossas profundas adegas… vinho de fogo!

— Vinho… de fogo? — A elfa olhou com interesse para o copo que o anão segurava.

— Nada mais, nada menos! Não me diga que esta é sua primeira bebida alcoólica, orelhuda?

— Cla-claro que não, habitante da caverna! — Então, dizendo isso, ela tirou o copo da mão dele.

Ela lançou um olhar duvidoso no copo aparentemente normal.

— Está claro. Vinho não é feito de uvas? Eu já tive isso antes, você sabe. Eu não sou tão jovem. — Ela jogou a cabeça para trás e bebeu o copo inteiro.

Se seguiu um ataque de tosse incontrolável, provocado pela ardência seca da bebida.

— Vo-você está bem? A-aqui, pegue um pouco de á-água! — A Sacerdotisa ofereceu apressadamente um cantil para a elfa ofegante, cujos olhos estavam esbugalhados.

— Hahahahahaha! Talvez seja um pouco demais para uma garota delicada como você!

— Por favor, seja moderada. Uma patrulheira bêbada não servirá muito.

— Eu sei disso, Escamoso! Eu não vou a deixar ter muito.

O anão riu alegremente para a mulher enquanto o homem-lagarto sibilava em desaprovação.

— Oh você, Corta-barba! Gostaria de um gole?

O Matador de Goblins não disse nada, mas pegou o copo oferecido e bebeu com entusiasmo.

Ele não havia falado uma palavra durante o jantar, simplesmente levava a comida até a sua viseira. Logo depois, ele ficou absorvido em seu próprio trabalho. Ele limpou a espada, o escudo e a adaga; verificou a consistência do fio das lâminas; e as devolveu às bainhas. Ele lubrificou sua armadura de placa e cota de malha.

— Grh… — A elfa fez um ruído insatisfeito vendo o Matador de Goblins em suas tarefas. Seu rosto estava tão vermelho como um tomate cozido.

— …O que?

— …Você nem tira o capacete quando está comendo. O que há com você?

— Se eu fosse atingido na cabeça por um ataque surpresa, eu poderia perder a consciência.

— …E vo’ apen- comu, comu, coma. Por que você nõn cozinha algu para nós agura?

A elfa disse a ele toda esta frase sem sentido com uma língua complexa, enrolando suas palavras. Ela apontou acusadoramente para a grande rocha ao lado do Matador de Goblins.

Ele não respondeu, mesmo quando a elfa bêbada o encarou e emitiu outro — Grrhh?

— Aah, — o anão suspirou. — Seus olhos estão vidrados…

Observando a cena, a Sacerdotisa sugou ligeiramente suas bochechas.

Ele está pensando.

Ela ainda não conseguia ver o rosto dele, mas sabia disso.

Depois de um tempo, o Matador de Goblins procurou em sua mochila com uma pitada de exasperação. Ele rolou uma roda dura e seca de queijo.

— Isso é suficiente?

Oh ho. — O homem-lagarto lambeu a ponta de seu nariz com a língua. Ele levantou seu pescoço na direção do queijo, como se ele nunca tivesse visto antes.

— Que tipo de coisa é essa?

— É queijo. É feito agitando o leite de uma vaca ou uma ovelha.

— Você só pode estar brincando, Escamoso, — disse o anão. — Nunca viu queijo antes?

— Estou sendo sincero. Isso é bastante novo para mim.

— Os homens-lagarto não criam gado? — A Sacerdotisa perguntou. Ele assentiu.

— Na nossa sociedade, os animais são para caça. Não para se criar.

— Dê-me cá q eu vou o cortá. — A elfa surrupiou o queijo do Matador de Goblins e, quase mais rápido do que os olhos podiam ver, cortou em cinco pedaços com uma faca que tinha sido afiada em uma rocha.

— Eu aposto que assar um pouco faria maravilhas aqui. Agora, onde tem uma boa vara?

Na sugestão do anão, a Sacerdotisa disse:

— Eu tenho espetinhos, se você quiser. — Ela tirou várias longas hastes de metal da bolsa.

— Oh, moça, você sabe como se preparar para uma viagem! Ao contrário de algumas pessoas que conheço.

— Se você tem alguém em mente, vai logo e diga. — A raiva parecia colocar clareza de volta na voz da elfa.

— Por que você não pergunta ao seu coração? — O anão riu, acariciando sua barba. — Seu coração em forma de bigorna. — Então ele disse, — De qualquer forma, me deixe lidar com isso. O fogo é o domínio de meu povo!

E ele enfiou os queijos nos espetos e os colocou sobre o fogo. Ele os assou com movimentos rápidos e seguros como um feiticeiro lançando feitiços. Um cheiro doce misturado com a fumaça subiu.

Antes que eles percebessem, o queijo começou a derreter e escorrer. O anão passou os espetinhos para seus companheiros aventureiros, e todos os trouxeram até a boca.

— É doce, como néctar!

O Lagarto Sacerdote deu um grito em êxtase e bateu a cauda no chão.

— Como néctar, isso!

— Fico feliz que o primeiro queijo de sua vida não o decepcionou, — disse o anão, mordendo um grande pedaço de sua própria fatia e a lavando com um gole de vinho de fogo. — Ahh, vinho de fogo e queijo é uma boa dupla!

Ele limpou o vinho que gotejava na barba e deu um suspiro satisfeito. A elfa franziu a testa. Parecendo voltar bastante ao seu eu normal e altivo, ela deu mordidas delicadas em seu queijo.

— Hmm. É um pouco amargo, mas… doce, — ela disse. — Como uma espécie de banana.

Suas longas orelhas fizeram um grande movimento para cima e para baixo. Então seus olhos se estreitaram como um gato que parecia tossir uma bola de pelo.

— Isso é daquela fazenda? — A Sacerdotisa perguntou com um sorriso brilhante, a meio caminho de seu próprio pedaço de queijo.

— É.

— É uma delícia!

— É?

O Matador de Goblins assentiu silenciosamente e calmamente colocou um pedaço de queijo em sua boca. Ele mastigou, engoliu em seco, tomou um pouco de vinho de fogo e, em seguida, puxou sua bolsa para mais perto. No dia seguinte, eles entrariam no ninho de goblins. Ele precisava verificar novamente o equipamento.

A mochila estava cheia com uma variedade de frascos, cordas, correntes, e itens não identificáveis. A elfa, cujo estupor tinha sido limpo pelo queijo picante e doce, olhava para a coleção com interesse.

O Matador de Goblins estava examinando um pergaminho que estava amarrado de forma peculiar. A elfa se aproximou, enquanto o Matador de Goblins estava colocando o pergaminho de volta na mochila, satisfeito sobre os nós que tinha feito.

— Não toque nisso, — ele disse sem rodeios.

A elfa retirou a mão apressadamente.

— É perigoso.

— Eu-eu não iria tocar. Eu estava apenas olhando.

— Não olhe para ele. É perigoso.

A elfa fez uma pequena careta na direção dele. O Matador de Goblins não se perturbou.

Não aceitando um ‘não’ como resposta, a elfa olhou para o pergaminho de soslaio.

— Não é um pergaminho mágico?


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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