MdG – Volume 1 – Capítulo 5 (Parte 1 de 4) – 3Lobos

MdG – Volume 1 – Capítulo 5 (Parte 1 de 4)

— Orcbolg, — a elfa disse sem preâmbulo. Sua voz soou clara, como se estivesse entoando uma magia.

Era antes do meio-dia, quando os aventureiros que tinham acordado tarde vinham ver quais missões ainda estavam disponíveis. Era consideravelmente mais calmo do que logo de manhãzinha, mas a Guilda ainda estava cheia de burburinhos, e todos os olhos estavam fixos na elfa.

— Oh, meu… Olhá só para ela! — Um garoto guerreiro novato assobiou apreciativamente.

— Ei! —, seu membro de grupo, uma aprendiza de clériga, cortou.

— Desculpe, — o garoto disse com um sorriso apaziguador, mas seus olhos continuavam voltados a elfa.

Era difícil o culpar. Os elfos eram naturalmente possuidores de uma beleza de outro mundo, mas mesmo entre seus números, essa jovem era impressionante.

A idade tinha pouco significado para os elfos, mas pela aparência, ela poderia ter dezessete ou dezoito anos. Ela era esbelta e alta, vestida com um traje de caçadora ajustado, se movendo tão graciosamente quanto uma corça.

O grande arco pendurado em suas costas revelava que ela era uma patrulheira ou talvez uma arqueira. A insígnia em volta de seu pescoço era feita de prata.

— Ela é uma alta-elfa… Eles são os descendentes de sangue das fadas…

— Suas orelhas realmente são mais longas que de outros elfos…

Um druida e uma garota rhea sussurraram para um guerreiro meio-elfo de armadura leve enquanto seu outro membro do grupo, um guerreiro de armadura pesada, a olhava. Um batedor jovem que escutava nas proximidades disse conscientemente: — Claro que são.

A Garota da Guilda já tinha lidado com alto-elfos antes e não estava nervosa ao se deparar com essa, mas ela ficou confusa com as palavras que saíram da boca da garota.

— Sinto muito, minha senhora. Você quer dizer ork, como uma orca?

Ela estava acostumada com as pessoas se aproximando do balcão e simplesmente dizendo o nome de um monstro, mas essa era uma palavra que nunca tinha escutado antes. Por outro lado, há cinquenta mil tipos de monstros (sem exagero!), então era possível que esse fosse alguma variedade que ela não estava familiarizada.

Ou talvez fosse o nome de algum elfo? A língua élfica tinha o ritmo de uma magia ou uma canção.

— Não. Orc. Orcbolg. — Enquanto ela repetia as palavras, a Alta-Elfa Arqueira inclinou a cabeça como se dissesse, Entendeu? Sob a voz dela, ela acrescentou: — Estranho…

— Eu tinha ouvido dizer que eles estava aqui.

— Hum, entendo. Então está procurando por um aventureiro, sim? — A Garota da Guilda tinha muitos talentos, mas até ela não conhecia o nome completo de todos os aventureiros de cor. Ela se virou para pegar uma pasta grossa da prateleira atrás dela, mas depois ouviu:

— Idiota. É por isso que você, orelhuda, precisa descer do pedestal em que você as colocou.

As palavras vieram de um anão robusto e corpulento, parado ao lado da elfa. A única coisa visível por cima do balcão era a sua testa brilhante e sem cabelos. Ele acariciou sua longa barba branca refletidamente.

Sua roupa era de um estilo oriental incomum, e em sua cintura, ele carregava o que parecia um monte de tralha. A Garota da Guilda podia dizer que era um conjurador; um anão xamã. Ele, também, usava uma insígnia de prata ao redor do pescoço.

— Esse lugar pertence às pessoas altas, — ele disse. — Te engana se acha que suas palavras de orelhuda vão te dar qualquer benefício.

— Meu, quão inútil você é. Então como, em sua sabedoria, eu deveria chamar ele? —, a alta-elfa disse com um bufo e uma expressão bastante não-elfo.

Em resposta, o Anão Xamã enrolou seu bigode orgulhosamente e disse: — “Corta-barba”, é claro!

— Hum, lamento, senhor, mas também não há ninguém aqui com esse nome, — a Garota da Guilda disse apologeticamente.

— O que, ninguém?! —, o anão disse.

— Não, senhor. Sinto muito.

A alta-elfa balançou a cabeça em sinal exagerado de desgosto, e dando de ombros com um suspiro.

— Tamanha é a sabedoria que os anões possuem. Teimosos tanto quanto as rochas que trabalham, e sempre convencidos de que estão certos.

— Desça aqui e repita isso! — O Anão Xamã exclamou. Ele poderia ter começado uma briga naquele momento se a elfa não tivesse o dobro da sua altura. Ele mal conseguia a alcançar se ele tentasse saltar uns trinta centímetros do chão. A elfa ficou cada vez mais presunçosa.

O anão cerrou os dentes. Então de repente, ele pareceu pensar em algo, e um sorriso inesperado veio em seu rosto.

— …Heh. Vocês elfos… Corações tão rígidos quanto um tábua e igualmente planos. Isso explica tudo.

— O que?! — Dessa vez foi a elfa que ficou vermelha-vivo. Ela olhou para o anão e inconscientemente cobriu seu peito.

— Is-isso não tem nada a ver com nada! E-engraçado ouvir isso de você, quando todas as filhas de anões são cilíndricas!

— Nós as chamamos de rechonchudas, orelhuda, e é melhor que ser uma tábua!

Suas vozes ficavam cada vez mais altas.

A inimizade entre os elfos e anões era tão antiga quanto os deuses. Ninguém sabia, no entanto, exatamente como isso havia começado, até mesmo os elfos eternos não tinham bem a certeza. Talvez fosse simplesmente essa grande antipatia antiga: Os elfos reverenciavam as árvores e odiavam o fogo, enquanto os anões derrubavam árvores para fazer fogo.

Qualquer que seja a fonte desse ódio, esses dois não seriam aqueles que iriam o superar, enquanto eles discutiam na frente da Garota da Guilda, que manteve um sorriso cada vez mais desesperado em seu rosto.

— Hum, vamos… vamos deixar isso pra lá, tudo bem…?

— Com licença, vocês dois, mas se vocês querem discutir, por favor façam isso em outro lugar e poupem o resto de nós. — Uma grande sombra pairou sobre eles, interrompendo a discussão.

Um homem-lagarto se ergueu sobre eles, com o corpo coberto de escamas, sibilando ligeiramente seu hálito. Até mesmo a Garota da Guilda quase soltou um “caramba…” ao vê-lo.

Ela nunca tinha visto o traje tradicional que ele usava. Em volta de seu pescoço estava uma insígnia de prata, bem como um curioso amuleto.

O Lagarto Sacerdote juntou as mãos em um gesto incomum e curvou a cabeça para a Garota da Guilda. — Minhas humildes desculpas. Parece que meus companheiros estão causando problemas a você.

— Ah, n-nem um pouco! Todos os nossos aventureiros são pessoas tão impulsivas. E-estou acostumada com esse tipo de coisa!

Mesmo assim, o grupo diante dela era uma visão incomum. Não era só porque eles eram de raças diferentes.

Os alto-elfos eram raros, mas não era sem precedentes as pessoas jovens da floresta se tornarem aventureiras para saciar sua curiosidade acerca do mundo. Os anões eram muito semelhantes aos seres humanos em seu amor pelos tesouros e pela bravura, e assim frequentemente se tornavam aventureiros. E embora os homens-lagarto eram por vezes considerados mais semelhantes aos monstros, algumas de suas tribos eram amigáveis, e de vez em quando, um homem-lagarto se tornara um aventureiro.

Mas os três de uma vez, e todos ranque Prata. Para três aventureiros de origens tão diferentes formar um grupo juntos era algo que a Garota da Guilda nunca tinha visto antes.

— Hum… —, a Garota da Guilda olhou para a elfa e o anão, cuja discussão ainda não tinha diminuído, depois para o homem-lagarto. Exteriormente, ele parecia que poderia expor as suas presas e saltar sobre eles a qualquer momento…

— Então… quem você está procurando, senhor? — Ainda assim, ele parecia ser o mais fácil dos três para se conversar.

— Hmm. Lamentavelmente, eu mesmo não tenho facilidade com a língua dos homens…

A Garota da Guilda assentiu junto.

— Orcbolg e Corta-barba são o que vocês chamariam de apelidos. Na sua língua, vocês diriam… — Ele assentiu firmemente e, como ela tinha de alguma forma esperado, disse: — …Matador de Goblins.

— Ah! — O rosto dela brilhou, e ela bateu as palmas antes que soubesse o que estava fazendo. Ela suprimiu o desejo de dar um grito entusiasmada.

Outros aventureiros vieram aqui só para o encontrar. Sua reputação estava se espalhando.

Não posso deixar essa oportunidade escapar, por ele!

— Eu conheço ele, senhor! Muito bem!

— Oh, conhece?! — Os olhos do homem-lagarto se ampliaram e sua língua saiu de sua boca, no que parecia ser o equivalente a um sorriso dos homens-lagarto. A Garota da Guilda nem pestanejou frente a expressão bastante feroz.

— Ah, você gostaria de um chá, talvez?

— Eu não poderia a incomodar assim. — Ele chamou seus companheiros: — Vocês dois, parece que quem buscamos está realmente aqui.

— Viu? Eu te disse.

— Ahh, mas você não pôde dizer a eles, pôde, moça?

— Olha quem fala.

— O que foi?

O Lagarto Sacerdote soltou um chiado. A elfa e o anão olharam silenciosamente um para o outro.

— Bem, então, minha senhora Garota da Guilda. Onde está meu senhor Matador de Goblins?

— Hum… Ele foi caçar alguns goblins há cerca de três dias.

— Oh-ho. Entendo. Mas é claro.

— Suponho que ele voltará logo, senhor. — A Garota da Guilda olhou esperançosa para a porta da Guilda. Ela estava preocupada com ele, claro, mas confiante de que ele voltaria.

Ele nunca seria derrotado por meros goblins, afinal.

— Lá! — A Garota da Guilda gritou quando o sino sobre a porta soou, e dois aventureiros entraram.

O homem-lagarto, a elfa e o anão se viraram para a porta… e ficaram sem palavras.

Uma linda garota com vestimentas sagradas estava lá, segurando um cajado de monge nas mãos. Uma sacerdotisa. Excelente.

O problema era o homem que caminhava audaciosamente adiante dela. Ele usava uma armadura de couro suja, um elmo de aço e carregava uma espada que parecia muito longa para se empunhar, junto com um pequeno escudo redondo. Ele parecia patético. Qualquer novato em sua primeira missão estaria melhor preparado.

Ele caminhou até o balcão sem parar. A Sacerdotisa teve que correr para o acompanhar, mas à medida que seu ritmo diminuía, ela finalmente conseguiu chegar ao seu lado.

— Bem-vindo de volta, meu querido Matador de Goblins! Vocês dois parecem estar em boa forma. — A Garota da Guilda lhes deu um bom aceno, sua trança saltou na hora.

— Nós terminamos o trabalho com segurança.

— Sim, de certa forma.

O adendo da Sacerdotisa traiu um pouco de cansaço face ao relatório calmo do Matador de Goblins. Ela estava sorrindo corajosamente, mas… a Garota da Guilda assentiu. Ela podia entender. O Matador de Goblins pegava missões dia após dia, noite após noite, com quase nenhum descanso. O acompanhar deveria ser difícil.

— Está bem. Me dê os detalhes mais tarde. Não precisa ser agora.

— Hum?

— Sim. Há alguns visitantes aqui para o ver, Sr. Matador de Goblins.

Ele se virou para o grupo ao lado dele como se estivesse os notando pela primeira vez: uma alta-elfa arqueira, um anão conjurador e um lagarto sacerdote.

A Sacerdotisa soltou um pequeno barulho em choque e então fechou a boca rapidamente.

— São goblins?

— Dificilmente! — A Alta-Elfa Arqueira lhe deu um olhar suspeito como se ela não pudesse acreditar no que estava ouvindo, mas ele simplesmente respondeu: — Entendi.

— Então, você é o Orcbolg? Você não se parece…

— Porque eu não sou. Nunca fui chamado por esse nome.

A elfa ficou com uma expressão emburrada, enquanto o anão, afagando a barba, reprimiu uma risada. O Lagarto Sacerdote, embora parecesse um pouco incomodado, parecia acostumado com isso. Ele juntou as mãos em um gesto estranho, e então inclinou a cabeça suavemente para o Matador de Goblins.

— Nós, humildes visitantes, temos negócios com meu senhor Matador de Goblins. Poderíamos solicitar um pouco de seu tempo?

— Como quiser.

— Se vocês quiserem ter uma reunião, temos quartos no andar de cima… — O homem-lagarto fez um gesto de gratidão para a Garota da Guilda por sua sugestão.

— Vamos, então.

A Sacerdotisa tinha ficado em silêncio durante todo o intercambio mas agora disse, com um pouco de pânico no olhar ao ver o Matador de Goblins enquanto ele saía: — Hu-hum, eu-eu deveria…? Eu deveria me j-juntar a você?

Ele olhou de cima para baixo o corpo delgado dela, e então balançou a cabeça.

— Descanse.

Ele não parecia esperar um argumento. A Sacerdotisa deu um pequeno aceno.

E sem um segundo olhar, o Matador de Goblins subiu as escadas calmamente.

— Não se preocupe. Você o terá inteiro de volta. — A Alta-Elfa Arqueira deu a Sacerdotisa uma leve reverência quando passou. O anão e o homem-lagarto a seguiram.

A Sacerdotisa ficou ali, sozinha.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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