MdG – Volume 1 – Capítulo 2 (Parte 3 de 3) – 3Lobos

MdG – Volume 1 – Capítulo 2 (Parte 3 de 3)

— …Oi, — a Sacerdotisa disse brevemente, de pé na frente dele. Ela parecia desconfortável enquanto fazia uma pequena reverência.

— Sim. — Isso foi tudo o que ele disse. O que quer que ele pensasse, estaria escondido dentro desse capacete. Ele não pareceu notar que a Sacerdotisa estava ainda mais nervosa por sua incapacidade de conseguir uma resposta adequada dele.

— Eu comprei alguns equipamentos. Assim como você me disse. — Ela enrolou as mangas de suas vestes. Um conjunto novo de cota de malha se agarrava ao seu corpo esbelto, os elos acorrentados cintilavam levemente.

— Nada mal.

Alguém que não o conhecia bem, poderia levar a cena para o lado errado, mas suas palavras não continham sarcasmo.

Ele finalmente se virou para a Sacerdotisa, olhou para ela de cima para baixo e assentiu.

— Os anéis são um pouco largos, mas será o suficiente para parar as lâminas deles.

— A Madre Superiora estava muito descontente comigo. Ela queria saber por que um servo da Mãe Terra usaria uma armadura.

— Ela provavelmente não sabe muito sobre os goblins.

— Não é isso. Isto é uma violação dos Preceitos…

— Se isso interfere com seus milagres, talvez você devesse mudar de crenças.

— Minhas orações chegarão à Mãe Terra!

— Então não há nenhum problema.

A Sacerdotisa estufou suas bochechas com raiva. Ambos ficaram em silêncio por um momento.

— Não irá se sentar?

— Oh, e-eu irei! Eu vou sentar!

Corando, ela se abaixou rapidamente para a cadeira ao lado dele. Seu pequeno traseiro fez um bonito buhmp quando ela se sentou.

A Sacerdotisa colocou seu cajado sobre o colo e juntou as mãos, como se tentasse se encolher no assento. Aparentemente, ela estava bastante nervosa.

— Hmph. — A Vaqueira soltou um grunhido inconsciente, mas não era como se ele nunca tivesse mencionado essa garota. Ela era uma aventureira com quem ele fez dupla a cerca de um mês atrás. Ele, na verdade, não disse que tinha a encontrado na primeira aventura dela e a colocou sob sua asa, mas a Vaqueira tinha concluído isso juntando os pedaços de informação que ela conseguiu dele.

Por um lado, ela sempre esteve preocupada com ele lá fora sozinho, então ela estava feliz que havia alguém com ele agora. Por outro lado… por que ela tinha que ser tão jovem?

A Vaqueira vinha com ele a Guilda dos Aventureiros todos os dias, mas esta era a primeira vez que ela via a Sacerdotisa pessoalmente. Ela era tão magra que parecia que um abraço forte a partiria ao meio. A Vaqueira olhou para seu próprio corpo avantajado e deu um pequeno suspiro.

A Sacerdotisa nunca percebeu que a Vaqueira a observava. Em vez disso, ainda corando furiosamente, mas, parecendo ter achado sua coragem, ela abriu sua boca.

— So-sobre o outro dia…

O tom alto e rápido de suas palavras são consequências de seu nervosismo, certamente.

— E-eu acho que destruir toda a caverna com a mistura inflamável foi… foi desnecessário!

— Por que? — Ele continuou a aparentar como se nada disso o surpreendesse. — Nós nem poderíamos deixar os goblins por conta própria lá.

— Si-sim, mas e… e sobre as consequências? E se toda a mon-montanha viesse abaixo?

— Eu estou mais preocupado com os goblins.

— Eu sei! E-eu estou tentando te dizer que essa falta de preocupação com as demais coisas é o problema!

— …Entendo.

— E-e outra coisa! Eu acho que a maneira com que você se livrou do… do cheiro, devia ser um pouco… um pouco mais…! — Ela começou a se inclinar para fora do assento enquanto falava.

Seu tom sugeria que ele estava ficando irritado:

— Então, você aprendeu os horários de ataque?

A Sacerdotisa engoliu em seco, pega de surpresa pela mudança repentina de assunto.

A Vaqueira, inocentemente espiando, riu para si mesma.

Ele não mudou nem um pouco desde que éramos jovens.

— É… no início da manhã ou no fim da tarde, — a Sacerdotisa respondeu, enquanto tentava mostrar com o rosto que não o deixaria se safar facilmente.

— Por que?

— Po-por que essas são o entardecer e o amanhecer para os goblins, respectivamente.

— Correto. O nosso meio-dia é a meia-noite para eles. A guarda deles é mais rigorosa. Próxima pergunta: Como você ataca um ninho?

— Bem… se possível, você faz fogo para a fumaça expulsá-los para fora. Porque é… é perigoso… dentro do ninho.

— Certo. Entre somente quando não tiver tempo ou outra escolha. Ou quando você quiser ter a certeza de ter matado cada um deles.

Ele a interrogou enquanto ela lutava para encontrar respostas.

— Itens?

— Pri-principalmente poções e tochas.

— Isso é tudo?

— E-e corda. Há sempre um uso para corda… eu acho.

— Não se esqueça disso. Feitiços e milagres.

— Se-seus itens geralmente podem substituir feitiços e milagres, portanto, você deve guardar sua magia para quando precisar dela.

— Armas.

— Hum, você deveria ter…

— Não, você não deveria. Tire-as do inimigo. Eles têm espadas, lanças, machados, porretes, arcos. Eu não preciso de ferramentas especiais. Sou um guerreiro.

— …Sim, senhor. — Ela assentiu como uma criança que tinha sido repreendida por seu professor.

— Mude suas armas, mude suas táticas. Fazer a mesma coisa repetidas vezes é uma boa maneira de se matar.

— Hum, eu posso… anotar isso?

— Não. Se eles tirarem as notas de você, eles aprenderiam com elas. Você tem que saber tudo de cabeça. — Ele disse calmamente enquanto a Sacerdotisa trabalhava para transferir suas palavras para a memória. Isso realmente parecia ser a ida e volta entre um professor e um aluno.

Ele alguma vez já falou tanto assim? — A Vaqueira se moveu inquieta quando a questão surgiu em sua mente.

Ela não conseguia entender por que isso a deixou tão inquieta. Ela queria obter a assinatura assim que pudesse e ir para a casa.

— Tudo bem, — ele disse, se levantando de repente.

Olhando em volta, ela percebeu que a multidão de aventureiros estava se espalhando para cuidar de seus negócios. Havia muito a se fazer — preparar equipamento, estocar alimentos e suprimentos, reunir informações.

A Sacerdotisa se apressou a acompanhá-lo enquanto ele caminhava em direção à Garota da Guilda sem sequer olhar para os aventureiros que partiam.

— Ah… — A Vaqueira tinha perdido sua chance novamente. Sua voz, como sua mão estendida, ficou no vácuo.

— Oh, Senhor Matador de Goblins! Bom dia! Que bom ver você novamente hoje! — A voz e o rosto da Garota da Guilda levavam todo o brilho que a Vaqueira não tinha.

— Algum goblin?

— Claro, sim! Não muitos hoje, eu temo, mas há três missões envolvendo goblins. — Enquanto ele permanecia lá calmamente, a Garota da Guilda pegou alguns papéis com sua mão experiente. Ela parecia tê-los preparado com antecedência.

— A aldeia nas montanhas no oeste tem um ninho de tamanho médio. A vila no rio do norte tem um ninho pequeno. E há um ninho pequeno nos bosques do sul.

— Aldeias de novo?

— Sim. Eles são todos fazendeiros, como de costume. Eu me pergunto se os goblins estão visando eles.

— Talvez. — Ele tomou suas palavras de brincadeira com seriedade. — Mais alguém pegou alguma dessas missões?

— Sim. Um grupo de novatos está nos bosques do sul. Esse é um pedido de uma aldeia perto da floresta.

— Novatos, — ele murmurou. — Quem estava no grupo deles?

— Vamos ver…, — disse a Garota da Guilda. Ela lambeu o polegar e começou a folhear através de um maço de papéis.

— Um guerreiro, um feiticeiro e um paladino. Todos ranques Porcelana.

— Hmm. Isso é bastante equilibrado.

— Eles estavam aqui mais cedo… Apenas três pessoas? Eles nunca sobreviverão! — A Sacerdotisa rangeu em pânico, contrastando fortemente com a avaliação comedida dele. — Quero dizer, nós tínhamos quatro, e…

Ela ficou tão pálida e tremia ligeiramente. Ela agarrou seu cajado de monge firmemente.

A Vaqueira olhou para longe, com o sentimento desconfortável crescendo mais nitidamente dentro dela.

Por que ela não tinha percebido antes?

Ele conhece uma aventureira em sua primeira missão… uma aventureira…

Ela deveria ter entendido o que isso significava.

— Eu tentei explicar para eles… eu realmente o fiz. Mas eles insistiram que estariam bem. — A Garota da Guilda disse desconfortavelmente. Ela obviamente conhecia a história da Sacerdotisa.

Mas, no final do dia, os aventureiros eram responsáveis por si mesmos.

A Sacerdotisa olhou para ele implorando.

— Nós não podemos deixá-los! Se não os ajudarmos…

Sua resposta foi imediata:

— Vá se quiser.

— O que…?

— Eu vou pegar a do ninho na montanha. No mínimo, um hobgoblin ou um xamã deve estar lá.

A Sacerdotisa olhou para ele vagamente. Não havia como adivinhar a expressão escondida atrás de seu capacete.

— Com o tempo, esse ninho crescerá, e então, as coisas serão piores. Eu tenho que cortar o mal pela raiz.

— Então… então você vai simplesmente abandoná-los?!

— Eu não sei o que você acha que eu faço, — ele respondeu com um balançar constante de sua cabeça, — mas este ninho deve ser destruído. Como eu disse, você pode ir à floresta se quiser.

— Ma-mas então você vai enfrentar o ninho da montanha sozinho, não é?

— Eu já fiz isso antes.

— Ahhhh! — disse a Sacerdotisa, mordendo seus lábios com força.

Mesmo de onde ela estava, a Vaqueira podia ver a Sacerdotisa tremendo. Mas seu rosto não sugeria medo.

— Você é impossível!

— Você vem?

— É claro que eu vou!

— Você a ouviu.

— Oh, muito obrigado a ambos! — A Garota da Guilda disse, inclinando a cabeça para eles em gratidão. — Nenhum outro aventureiro experiente pega as missões de goblins…

— Experiente o escambal, — a Sacerdotisa resmungou mal-humorada, olhando para a insígnia de Porcelana. Ela parecia uma criança fazendo birra.

— Ha-ha-ha… bem, você quem sabe… Então, vocês dois estão indo?

— Sim, — a Sacerdotisa disse com um aceno relutante. — Sob protestos!

Ele sempre estava preparado, então, com o trabalho administrativo feito, eles estavam preparados para partir imediatamente.

Eles passariam pela Vaqueira em seu caminho para a porta. Não havia outra saída do edifício. O que ela deveria — ou não deveria — dizer? Confusa, várias vezes ela abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa. Mas no final, ela não disse nada.

— Eu estou a caminho. — Foi ele que, como sempre, parou bem na frente dela.

— O que? Oh… Sim. — Ela acenou com a cabeça. Houve uma longa pausa antes que ela conseguisse espremer para fora mais duas palavras: — Tenha cuidado.

— Você também, no caminho de casa.

A Sacerdotisa acenou com a cabeça enquanto passava, e a Vaqueira respondeu com um sorriso ambíguo.

Ele nunca olhou para trás.

A Vaqueira voltou para a fazenda sozinha, puxando a carroça vazia e depois cuidando dos animais sem dizer uma palavra.

A medida em que o sol se erguia lentamente, mas seguramente no céu, ela almoçou um sanduíche no pasto. E quando o sol descia para o horizonte, ela jantou na mesa com o seu tio. Ela não conseguia saborear a comida.

Depois do jantar, ela foi para fora. Um vento fresco surgido da noite acariciou suas bochechas. Quando ela olhou para cima, ela pôde ver todo o vasto céu com suas várias estrelas e duas luas.

Ela não sabia muito sobre aventureiros ou goblins. Ela não estava na aldeia quando os goblins atacaram, dez anos atrás.

Ela estava na fazenda de seu tio, ajudando com o nascimento de um bezerro. Em sua tenra idade, ela não percebia que era apenas uma desculpa para ela se divertir.

Foi pura sorte que ela tivesse evitado a catástrofe. Apenas sorte.

Ela não sabia o que aconteceu com os pais dela. Ela se lembrava de ter enterrado dois caixões vazios. Ela lembrava que o padre disse algo, mas tudo o que sabia era que a sua mãe e pai tinham ido embora.

Ela se lembrou de estar sozinha no início, mas já não sentia isso.

E sempre houve o se. Se ela não tivesse brigado com ele naquele dia. Se ela tivesse pedido a ele para vir com ela…

Talvez as coisas tivessem sido diferentes. Talvez.

— Fique acordada até tarde e você terá dificuldades amanhã de manhã, — disse uma voz grossa junto com o som de passos no mato.

Ela se virou e viu seu tio, com a mesma expressão preocupante que ele tinha naquela manhã.

— Eu sei. Eu vou para a cama daqui a pouco, — ela prometeu, mas seu tio balançou a cabeça com uma careta.

— Ele tem que cuidar de si, e você deveria fazer o mesmo. Eu o deixo ficar aqui porque ele me paga, mas seria melhor se você se mantivesse longe dele.

Ela ficou em silêncio.

— Eu sei que vocês são velhos amigos, mas às vezes o passado é apenas o passado, — ele disse. — Ele não é o mesmo. Ele está fora de controle.

Você deveria saber disso.

A Vaqueira apenas sorriu para o seu aviso.

— Talvez. Mas ainda… — Ela olhou para as estrelas. Nas duas luas e na estrada que se estendia abaixo deles. Ainda não havia sinal dele.

— Eu vou esperar um pouco mais.

 

Ele não voltou naquela noite.

Era meio-dia do dia seguinte quando ele retornou. Então, ele dormiu até o amanhecer.

No dia seguinte, não mostrando nenhum indício de fadiga, ele se juntou com a Sacerdotisa para se aventurar nos bosques do sul. A Vaqueira ouviu mais tarde que os novatos nunca voltaram da floresta.

Naquela noite, ela teve aquele sonho familiar de novo.

Ela nunca se desculpou.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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