MdG – Volume 1 – Capítulo 12 (Parte 2 de 2) – 3Lobos

MdG – Volume 1 – Capítulo 12 (Parte 2 de 2)

Como isso pôde acontecer?!

O senhor goblin correu tão rapidamente que ele quase estava tropeçando. Assim que ele percebeu que não havia chance de vitória, ele fugiu do campo de batalha. Atrás dele, ele podia ouvir armas ressoando, gritos e sons de feitiços reverberando.

Alguns desses gritos deveriam ser de aventureiros. Mas a maioria era de goblins.

Isso deveria ser um ataque surpresa para estabelecer um ponto de apoio na área. E ainda assim…

Somos nós que sofremos! Então, como isso aconteceu?!

Sua horda estava perdida. Com suas forças em cheque, não havia razão para andar nas proximidades.

Enquanto ele sobrevivesse, isso era tudo o que importava.

Ele voltaria para o ninho, usaria as mulheres capturadas lá para construir suas fileiras.

Tal como antes.

O senhor goblin era um Andarilho, o sobrevivente solitário de um ninho destruído por aventureiros. Agora, ele vivia apenas para matar aventureiros.

Não é tão complicado.

Sua primeira vítima tinha sido a mulher que o havia poupado “porque ele era apenas uma criança”. Ela se tornou comida para ele assim que virou suas costas.

Ele tinha aprendido que, se você atingisse um aventureiro com força suficiente na cabeça com uma pedra, eles se tornariam bastante flexíveis. Quando ele descobriu que um porrete era ainda mais eficaz, ele o usou. Então, ele aprendeu a usar armas e vestir armaduras. Da forma como os aventureiros formavam seus grupos, ele escolhia as melhores maneiras de liderar uma horda.

Seus longos dias vagueando haviam treinado seu corpo e mente até que ele fosse um desafio até mesmo para um guerreiro humano.

Isto seria o mesmo.

Sob as duas luas, o senhor se afastava da batalha e corria por sua vida.

Através da grama, pisando sobre a terra, em direção a floresta. Dentro da floresta. Havia uma caverna. Seu ninho.

Ele havia falhado. Mas, enquanto ele vivesse, haveria outra chance.

Ele aprenderia e reabasteceria suas fileiras, e, da próxima vez, seria melhor. Da próxima vez…

— Eu sabia que você viria aqui.

Uma calma, fria e quase mecânica voz o pegou. Sem pensar, o senhor goblin parou em seu caminho. Ele preparou o machado de batalha que ele segurava em suas mãos.

Seus olhos podiam enxergar a figura diante dele no escuro. Era um aventureiro em armadura de couro miserável e um elmo de aço. Um pequeno escudo estava preso em seu braço esquerdo, e, em sua mão direita, havia uma espada quase longa demais para se empunhar. Ele estava salpicado com sangue de um massacre, de pé, em uma poça nauseante.

— Idiota. Eu vejo que ambos usamos nossos exércitos como iscas.

O senhor podia falar a língua comum, apesar d’ele a desprezar. Ele nãos sabia quem era esse aventureiro. Mas, ficou claro o que tinha ocorrido.

— Sua casa não é mais aqui.

— ORGRRRRRR!!

O senhor deu um grito de explodir os ouvidos e saltou para o Matador de Goblins. O senhor conduziu o seu machado para baixo em um arco, o que significava abrir o crânio do aventureiro ao meio, mas, o Matador de Goblins bloqueou o golpe com seu escudo. Houve um barulho de metal se partindo.

O Matador de Goblins deu uma grande sacudida com o escudo e afastou o machado, depois, ele fez um grande impulso com a espada.

— Hrm! — ele murmurou.

A ponta de sua espada golpeou o senhor em seu peito, mas ele fez apenas um baque fraco. O goblin estava usando um peitoral de placas.

O Matador de Goblins estava inabalável, mas, se congelou por um segundo, e, naquele momento, o machado veio a ele de lado.

Uma decisão instantânea. Ele se atirou para o lado, rolando para evitar o golpe. Ele se ergueu em um joelho, ofegante.

— …

O Matador de Goblins se levantou e rodou sua espada lentamente em sua mão, segurando seu escudo diante dele.

— GRRRR…

O senhor fez um som de desgosto e agarrou seu machado de batalha com as duas mãos.

O abismo entre eles em força e armamento era imenso.

Suas feridas de antes. O mês de recuperação. Ele precisava desse tempo para se curar, e ainda assim…

O Matador de Goblins estava profundamente ciente de que suas habilidades tinham diminuído. No entanto, não seria um problema. Ele não deixaria que fosse um problema. Havia um goblin na frente dele. Era tudo o que ele precisava.

— …!

O Matador de Goblins se lançou como uma flecha sobre o inimigo.

Ele se moveu em uma postura baixa; com a mão esquerda, ele agarrou um punhado de grama, a cortou e a jogou no senhor goblin.

No segundo que o senhor tomou para afastar com a mão a nuvem de grama, o Matador de Goblins empurrou sua espada.

Sangue voou, e um grito.

— GARUARAARARAA?! — O senhor balançou seu machado de batalha em frenesi, sangrando pela testa. Antes que um observador pudesse estalar sua língua, um ataque conectou com o Matador de Goblins.

Ele se sentiu flutuando no ar — e depois pousou dolorosamente no chão.

— Oof! Ugh… — As suas costas se encontraram com o chão duro, forçando o ar de seus pulmões. Ele viu que seu escudo havia sido dividido quase ao meio.

Suas habilidades podem ter enferrujado, mas seus músculos ainda recordaram de seu papel. O escudo que ele instintivamente levantou havia salvado sua vida novamente.

— Eles não são bons em ataques frontais…, — ele murmurou, se levantando apoiado em sua espada.

— GAROOOO!!

O senhor goblin não ia perder a sua chance. Ele veio investindo pela grama.

O Matador de Goblins deu um pequeno aceno com a cabeça. Ele segurou sua espada no alto e levantou seu escudo danificado, encarando o senhor.

Um instante depois, ele correu para o inimigo.

O machado de batalha do senhor goblin estava assobiando pelo ar. O Matador de Goblins segurou seu escudo para encontrá-lo e impulsionou sua espada.

Impacto.

O machado dividiu o escudo em dois e entrou profundamente no braço do Matador de Goblins. O aventureiro voou mais uma vez.

Mas no mesmo momento, sua espada havia cortado a barriga do goblins, que agora jorrava sangue no campo escuro.

— GAU…

Mas a ferida não era fatal. O senhor franziu a testa com raiva.

— Ugh, Uhn…?! — O Matador de Goblins começou a se levantar do chão. Mas ele não aguentava. Ele tentou usar sua espada para se erguer, mas estava quebrada.

— GURRR… — O goblin parecia quase aborrecido.

Pelo menos ele teria sua vingança por suas tropas caídas. Ele cortaria as mãos e os pés desse homem, o amarraria em uma estaca e o torturaria até a morte. Quando ele imaginou este futuro sombrio, o senhor goblin começou a gargalhar, em seguida, avançou lentamente em direção a sua presa.

Ele deu um chute violento no elmo do Matador de Goblins imóvel.

Silêncio.

O senhor não ficou satisfeito. As presas deveriam se encolher no momento da morte.

Mas, que assim seja.

A morte colocaria um fim a isso. A tudo. Talvez, a noite tivesse que se contentar com isso.

O senhor goblin levantou se machado de batalha lentamente.

Crac.

No segundo seguinte, o machado foi lançado para trás.

— GAU…?

Ele teria atingido uma raiz de árvore ou algo assim? O senhor olhou para trás com frustração, mas não havia nada lá. As árvores mais próximas estavam a uma certa distância.

— GA, RRR…?!

Desta vez ele tentou baixar sua arma, e o senhor descobriu que o machado não se movia. Não, era seu próprio corpo que não estava respondendo aos seus comandos. Os seus ossos rangiam como se algo estivesse pressionado contra ele. Como se ele estivesse preso entre duas paredes invisíveis.

— GA, GAO…?!

Os olhos do senhor varreram para frente e para trás; ele nem conseguia se mexer.

O que era…? O que estava acontecendo…?!

— Ó Mãe Terra, abundante em misericórdia, pelo poder da terra, conceda segurança a nós que somos fracos…

A resposta à sua pergunta veio na forma de uma voz miraculosamente clara entoando uma oração.

Uma bela jovem saiu do bosque nas proximidades. O suor pairava em sua testa, e em suas mãos trêmulas havia um cajado de monge.

Uma jovem sacerdotisa orando fervorosamente para a Mãe Terra.

É ela quem está fazendo isso!

— GAAAAUUAUAUAUAUAAA!!

O senhor goblin uivou todas as ameaças vis que ele conhecia. Ele arrancaria seus membros e fazia com que ela os comesse! Não, ele perfuraria ela com uma estaca tão fundo pela bunda que ele sairia pela sua boca! Ele quebraria seus dedos em pequenos pedaços, um a um, queimaria o seu rosto até que ninguém a reconhecesse…

Ela parecia tão frágil. Certamente, um pouco de intimidação era tudo o que seria necessário para assustá-la…

— …!

Mas ele estava errado.

Com o rosto pálido, mordendo seus lábios, a Sacerdotisa ainda segurava tremendo seu cajado.

O senhor começou a se preocupar.

— GA… RO…?

Talvez, esta menina não fosse bem o que parecia.

Uma mudança de tática então. O senhor colocou sua expressão mais lamentável e implorou por perdão. Ele nunca mais faria tal coisa novamente. Ele tinha estado errado, muito errado. Ele viveria tranquilamente na floresta, nunca mais vendo uma aldeia humana. Por favor, perdoe. Por favor.

Ele balbuciava em sua versão patética da linguagem comum. Se fosse possível, ele poderia ter se atirado em seus pés.

Não seria a primeira vez que ele convenceria um aventureiro a poupar sua vida através de uma demonstração de arrependimento.

A primeira vez foi a um longo tempo antes dele ter se tornado um senhor — de fato, ele ainda era uma criança. Pensando bem, esse aventureiro também era uma mulher. — Tudo bem, — ela disse, — mas você nunca deve fazer esse tipo de coisa novamente. — Ele concordou de bom grado. E então, é claro, a assassinou assim que ela se virou.

Ele tomou o deleite sombrio da lembrança daquela mulher implorando por ajuda enquanto ele a esfaqueava até a morte. Ela pensou que ela era forte.

Se ele pudesse viver, ainda haveria tempo para tramar sua vingança.

E, em primeiro lugar, eu levarei essa garota!

— Como se eu o deixasse. — Uma voz fria soou, como se o mordesse.

— GA, RR…?!

A voz emitiu gelo pelas suas veias como um vento das entranhas da terra.

O Matador de Goblins começou a ficar em pé lentamente.

Seu braço esquerdo pingava sangue. Em sua mão esquerda, ele segurava o escudo partido. E na direita, sua espada quebrada.

Ele caminhava audaciosamente em direção ao senhor goblin. Ele colocou sua espada no lado do pescoço do goblin paralisado.

— GA… GO…?!

A arma quebrada não podia cortar ou perfurar.

Mas ela poderia esmagar. A criatura algaraviava sem sentido enquanto a lâmina pressionava a sua traqueia.

— Um senhor? Ridículo. — O senhor tentou desesperadamente lutar.

— Você é um goblin.

O goblin abriu sua boca, lutando pelo ar.

— Apenas um imundo…

Mas ele não podia fazer nada.

— …e inútil goblin.

A face do senhor mudou de cor, e sua língua saiu. A saliva espumou para a borda de sua boca, seus olhos rolaram para cima em sua cabeça.

— E eu sou…

Quando o senhor sentiu sua consciência se esvaindo, uma questão surgiu em sua mente desaparecendo.

O que? O que é você?

— …o Matador de Goblins!

Os olhos da criatura permaneciam enrolados na parte de trás de sua cabeça. O goblin que seria rei espasmou uma vez, duas vezes, e morreu. Houve um longo silêncio.

— Essa é uma… cabeça de goblin…

A espada do Matador de Goblins caiu de sua mão enquanto suas palavras saiam de seus lábios. Então, ele caiu para frente como se suas cordas tivessem sido cortadas.

A Sacerdotisa jogou seu cajado de lado, correu para frente, e o pegou.

— Senhor, Matador de Goblins! — Ele era bastante pesado para seus braços finos, coberto de couro, metal, lama e sangue.

Um momento depois, o milagre Proteção desapareceu, e o corpo do senhor goblin se colapsou próximo ao Matador de Goblins. A Sacerdotisa não olhou para ele, mas sim, para as feridas do Matador de Goblins. Havia um corte profundo em seu braço esquerdo. No pior dos casos, poderia chegar até o osso.

— Por favor… não faça essas coisas tolas…

— …Argh…

Ela soltou um gemido de sua mente, enquanto pressionava suas mãos em suas feridas, ignorando o sangue que manchava suas mãos.

— Ó Mãe Terra, abundante em misericórdia, coloque tua mão venerável sobre as feridas de teu filho…

A oração era discreta, obstinada e sincera.

O que aconteceu naquela primeira aventura…? Eu quero que nunca aconteça de novo…

A Mãe Terra graciosamente ouviu sua súplica e tocou o braço do Matador de Goblins com seu dedo iluminado. Foi assim que a Sacerdotisa usou seu milagre que restava.

Ele havia dito a ela que ele distrairia o senhor goblin enquanto ela usava Proteção.

Ela já não estava mais perturbada com o pensamento de usar dois milagres Proteção em conjunto, não para proteger seu alvo, mas para prendê-lo. Mas ela não havia acrescentado o terceiro milagre Proteção como ele havia a instruído.

Talvez, tenha sido uma revelação de que a impediu de esgotar seus milagres. Pois, se ela tivesse esgotado, a vida desse homem — esse estranho, persistente e sério homem — teria acabado aqui.

— …Deuses. Eu já disse a você…

— Senhor Matador de Goblins!

Para a voz bruta que a alcançou, ela respondeu com lágrimas em seus olhos.

— …A tolice não ganha batalhas.

O Matador de Goblins se sentou dolorosamente. A Sacerdotisa o ajudou o melhor que pôde, se colocando sob seus braços. Ele era quase pesado demais para se apoiar. Ela tentou ajudá-lo a se levantar. Lutando para o agarrar com seus flácidos e lindos braços, a Sacerdotisa o apoiou no ombro e se levantou.

— Você pode… dizer isso…

— …

— …Mas, eu acho que… você precisa ter mais cuidado…!

— É?

Ela ficou em silêncio.

— …Eu sinto muito.

Fungando, soluçando, a Sacerdotisa sacudiu sua cabeça veementemente.

Passo por passo com lágrimas, ela começou a andar devagar, seguramente para frente.

Tomando o cuidado para tirar o máximo de peso sobre ele como pudesse, o Matador de Goblins disse calmamente:

— Isso é porque eu confio em você.

A Sacerdotisa sorriu através das lágrimas que escorriam pelas suas bochechas.

— …Você realmente não tem jeito, não é?

Ela pensou em seus companheiros que haviam morrido em sua primeira aventura juntos. Pensou nos aventureiros que estavam sangrando e morrendo mesmo agora. Ela pensou nos goblins que haviam sido mortos. Ela pensou no senhor goblin que morreu diante de seus olhos.

À medida que todas essas coisas giravam em sua mente, ela tomou consciência do peso do homem apoiado nela. Era tudo o que ela podia fazer para mantê-lo com seu corpo exausto.

Ela avançava com um passo custoso de cada vez, mal se movendo. Os sons da batalha estavam longe, e as luzes da cidade ainda mais.

Mas, a cada passo, seu coração estava contente.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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