MdG – Volume 1 – Capítulo 11 (Parte 2 de 2) – 3Lobos

MdG – Volume 1 – Capítulo 11 (Parte 2 de 2)

A Guilda dos Aventureiros estava agitada mais uma vez. Repleto de sons da multidão, dos equipamentos sendo preparados, dos risos.

Aqueles que estiveram longe, lutando contra as forças do caos, voltaram. Nem todos, é claro, poderiam voltar. Mas ninguém falava sobre isso.

Alguns que não foram vistos novamente caíram pelos monstros nas cavernas ou ruínas, ou nas planícies, ou nas montanhas. Outros se mudaram para novas terras, ou ficaram ricos e largaram as aventuras, ou de outra forma se aposentaram. Ninguém iria perscrutar seus destinos. Aqueles que não voltaram, desapareceriam da memória de todos devagar, até que fossem verdadeiramente esquecidos. Esse era o fim de um aventureiro.

Então, quase ninguém olhou para cima quando o sino tocou e ele entrou, em sua armadura de couro miserável e seu elmo, com seu pequeno escudo preso em seu braço e sua espada ridícula em seu quadril.

— Oh, Matador de Goblins, — o Lanceiro disse acidamente. — Imaginei que você estivesse vivo.

Alguns outros reagiram de forma similar. Eles imaginaram que ele estava fora em uma longa missão ou talvez, estava fazendo uma pausa prolongada. O homem que aparecia todos os dias perguntando por goblins, havia se tornado a marca da Guilda.

O Matador de Goblins entrou com seu passo ousado habitual, mas ele não se dirigiu ao assento perto da parede. Ele nem sequer foi a recepção, mas caminhou diretamente para o centro do saguão. Os aventureiros que estavam sentados perto lhe deram olhares estranhos. Eles não podiam ver a expressão atrás de seu elmo.

— Com licença. Por favor, me ouçam.

Sua voz era baixa e suave, mas atravessou surpreendentemente bem através do tumulto na Guilda. Pela primeira vez, a maioria das pessoas no salão olharam para ele.

— Eu tenho um pedido.

Uma comoção começou.

— O Matador de Goblins tem um pedido?

— Eu nunca tinha ouvido ele falar antes.

— Ele não está sempre sozinho?

— Nah, ele tem uma menina com ele atualmente.

— Oh sim, aquela coisinha esbelta… Na verdade, ele não tem um monte de membros de grupo agora?

— Um homem-lagarto e um anão, ou algo assim. E eu achei que ele só se importasse com goblins.

— Aquela amiga elfa dele é quase tão fofa quanto a Sacerdotisa!

— Uau, talvez eu devesse começar a caçar goblins!

O Matador de Goblins olhou para os aventureiros tagarelando um após o outro. Alguns que ele conhecia pelo nome. Outros não. Mas ele reconhecia cada rosto.

— Uma horda de goblins está chegando. Eles estão direcionados a uma fazenda fora da cidade. Provavelmente esta noite. Eu não sei quantos são. — Ele falou calmamente para eles, essas pessoas que ele conhecia. O furor entre os aventureiros ficou ainda mais alto. — Mas, a partir do número de batedores, eu acredito que exista um senhor entre eles. Em outras palavras, pelo menos uma centena de goblins.

Uma centena de goblins! Sendo liderados por um senhor?

Isso não era uma brincadeira. A maioria dos aventureiros assumiram o extermínio de goblins como sua primeira missão. Alguns falharam e pagaram seu fracasso com sua vida. Outros, porém — seja pela sorte, força ou quem sabe o que — sobreviveram. Muitos deles estavam de pé naquele momento. Eles sabiam em seus ossos o terror — ou melhor, francamente, a dificuldade — dos goblins. Quem lutaria voluntariamente contra uma série dessas criaturas? E com um senhor como brinde — um goblin que se destacava não em força ou magia, mas em liderança.

Esta não era uma horda comum. Era um exército.

Mesmo um iniciante ignorante se recusaria a ajudar. Somente o Matador de Goblins poderia enfrentar uma coisa assim. E até mesmo ele, o Matador de Goblins, claramente, não estava disposto a ir sozinho agora…

— Não há tempo. As cavernas são uma coisa, mas em uma batalha campal, eu não posso fazer isso sozinho. — O Matador de Goblins se virou, se dirigindo a todos na sala. — Eu preciso da ajuda de vocês. Por favor.

Então, ele abaixou a cabeça.

Em um instante, vozes sussurrantes encheram o saguão.

— O que você vai fazer?

— O que você acha?

— Goblins, hein…?

— Ele deveria lidar com isso ele mesmo.

— Não conte comigo!

— Nem comigo. Essas coisas são imundas.

Ninguém disse nada diretamente ao Matador de Goblins. Ele ficou de pé com a cabeça baixa, imóvel.

— …Ei. — Quando outra voz baixa cortou a multidão, os aventureiros pararam o tumulto novamente. — Como sabemos que você está certo? — Era o aventureiro de lança. Ele fixou o Matador de Goblins com um olhar obstinado.

O Matador de Goblins, silenciosamente, ergueu a sua cabeça.

— Esta é a Guilda dos Aventureiros, — o Lanceiro disse, — e nós somos aventureiros.

O Matador de Goblins não disse nada.

— Nós não precisamos ouvir você. Você quer ajuda, então apresente a missão. Ofereça uma recompensa, entende o que estou dizendo? — O Lanceiro olhou para seus companheiros para obter suporte.

— Ele está certo! — alguém falou.

— Sim, somos aventureiros!

— Você quer que arrisquemos nossas vidas de graça? — As vaias iniciaram.

O Matador de Goblins de pé, olhou em volta. Não procurando apoio, exatamente.

Em uma mesa no fundo da sala, a Alta-Elfa Arqueira ficou de pé, seu rosto estava furiosamente vermelho, mas o Anão Xamã e o Lagarto Sacerdote a deteve. A Bruxa se sentou em um banco, um sorriso inconsistente estava pairando em seu rosto. Ele olhou para a recepção para ver a Garota da Guilda desaparecendo em uma sala traseira em pânico. Ele pensou em procurar a Sacerdotisa. Dentro de seu capacete, ele fechou os olhos.

— Sim, esse cara está certo!

— Que tal você nos dizer o que você vai nos pagar por lutar com uma centena de goblins?

Não houve hesitação agora. Ele hesitou uma vez, há dez anos. O Matador de Goblins respondeu com calma e com clareza:

— Tudo.

A Guilda ficou silenciosa.

Todos sabiam o que ele queria dizer com essa palavra.

— Tudo o que eu tenho, — ele disse calmamente.

Se qualquer aventureiro luta comigo contra uma centena de goblins, ele ou ela pode pedir qualquer coisa ou tudo.

O Lanceiro se aproximou de seus ombros.

— Então, e se eu lhe dissesse para se afastar da Garota da Guilda e me deixar ficar com ela? — Ele perguntou bufando.

— Ela não é minha, — o Matador de Goblins respondeu com absoluta seriedade. Ele ignorou o sussurro que atravessou a multidão, demonstrando ser incapaz de entender uma piada. — Tudo o que tenho, — ele disse, — isso é meu para dar. Meu equipamento, meus recursos, meu conhecimento, meu tempo. E…

— Sua vida?

O Matador de Goblins assentiu afirmativamente.

— Até a minha vida.

— Então, se eu disser morra, o que você vai fazer? — O Lanceiro perguntou. Ele parecia exasperado, como se não pudesse acreditar no que estava acontecendo.

Eles acharam que sabiam como ele responderia. Mas depois de uma longa pausa, ele disse:

— Não. Eu não posso fazer isso.

Não, claro que não. A tensão no ar diminuiu ligeiramente. Esse cara talvez não estivesse bem da cabeça, mas mesmo ele estava com medo de morrer.

— Se eu morresse, existe alguém que choraria minha morte. E eu prometi não fazer essa pessoa chorar.

Os aventureiros que haviam ouvido com a respiração suspensa se entreolharam.

— Então, a minha vida também não é minha para dar.

O Lanceiro engoliu profundamente. Ele olhou para o Matador de Goblins. No elmo de metal que estava entre ele e a expressão por trás dele. Ele encontrou os olhos do Matador de Goblins apesar da máscara.

— Eu não sei o que diabos você está pensando.

O Matador de Goblins não disse nada.

— Eu entendi que você está falando sério.

— Sim. — Ele assentiu calmamente. — Eu estou.

— Puta merda! — O Lanceiro disse, puxando os cabelos.

Ele começou a andar de um lado para o outro na frente do Matador de Goblins, batendo no chão com a ponta de sua lança. O momento agonizante se prolongou. Finalmente, o Lanceiro suspirou e disse com uma voz cheia de resignação:

— O que eu faria com sua vida mesmo assim? …Contudo, você me deve uma bebida.

Ele bateu seu punho uma vez contra o peitoral de placas de couro do Matador de Goblins.

O Matador de Goblins cambaleou. O elmo de aço olhou vagamente para o Lanceiro.

O Lanceiro olhou para ele. Algum problema?

— Um aventureiro ranque Prata acabou de assumir a sua missão de matança de goblins. No preço normal de mercado, não menos. Você deveria ser grato.

— …Eu estou. — O Matador de Goblins assentiu com firmeza. — Me perdoe. Obrigado.

— Guarde esse obrigado para depois de ter matado alguns goblins. — Os olhos do Lanceiro se arregalaram um pouco, e ele coçou sua bochecha em desconforto. Ele nunca pensou que chegaria o dia em que ele ouviria “obrigado” deste homem.

— Eu-eu também estou com você! — Uma voz clara soou através da Guilda. Todos se viraram para olhar para uma elfa arqueira que tinha derrubado sua cadeira e se posto de pé. Ela olhava amedrontada, suas orelhas compridas estavam tremendo. — Eu… eu matarei esses goblins com você. — Sua coragem parecia ter aumentado, e ela caminhou em linha reta através do salão até o Matador de Goblins e colocou o seu dedo em seu peito. — Então… então, da próxima vez, você tem de vir em uma aventura comigo! Eu encontrei algumas… algumas ruínas.

— Muito bem. — O Matador de Goblins assentiu imediatamente. As orelhas da elfa ficaram em pé. — Se eu sobreviver, eu irei com você.

— Nossa, você não precisava dizer isso, — a elfa bufou, olhando para o capacete. Ela girou. — Vocês estão vindo também, certo?

O anão respondeu primeiro, suspirando enquanto acariciava a barba com um pouco de aborrecimento.

— Acho que eu não tenho escolha alguma. Mas, eu não posso ser comprado com uma bebida, Corta-barba. É melhor me trazer um barril inteiro!

— Você o terá, — o Matador de Goblins disse.

— Certo, então! — o anão exclamou feliz. — E… suponho que eu me juntaria a você em sua aventura, orelhuda?

— É claro! Nós somos membros de um grupo, não somos? — A elfa riu, e depois de um segundo, o anão também.

— Nunca disse que eu deixaria meus companheiros para trás. — O homem-lagarto se situou lentamente. Ele tocou a ponta de seu nariz com a língua. — Nem que eu recusaria um amigo em necessidade. Mas, falando em recompensas…

— Queijo?

— Exatamente. Ah, eu posso prová-lo agora!

— Isso não é meu, mas ele é feito na fazenda que está como o alvo do ataque.

— Serio? Mais um motivo para destruirmos aquelas bestas comedoras de merda! — Os olhos do homem-lagarto se reviraram, e ele juntou suas palmas para o Matador de Goblins. O último entendeu que esta era uma forma de humor do homem-lagarto.

Então, quatro aventureiros se reuniram em torno do Matador de Goblins.

Ele não via a Sacerdotisa em lugar algum.

— Então, nós temos cinco…

— Não. Seis. — A Bruxa se levantou com um sussurro. Ela caminhou e ficou ao lado do Lanceiro, seus quadris balançaram por todo o caminho. — Poderia ser muito bem sete… no entanto, eu não posso ter certeza, — ela disse significativamente; então, ela tirou um longo cachimbo de seu peito. — Inflammarae. — Ela girou o cachimbo, encheu ele com um pouco de tabaco, depois o acendeu com um toque de seu dedo e respirou fundo. A fumaça com aroma adocicado flutuou em torno da Guilda.

Os outros aventureiros balbuciaram excitadamente. Não era que eles queriam abandonar a fazenda da destruição. Muitos deles simplesmente não estavam prontos para arriscarem suas vidas por uma miséria. E quem poderia os culpar? Todos valorizavam suas próprias vidas.

Eles só precisavam de mais um incentivo…

— A Guilda está… A Guilda está oferecendo uma missão também!

Esse empurrão veio de uma voz energética. A Garota da Guilda veio saltando da sala dos fundos, agarrando um maço de papéis. Ela estava respirando intensamente, seu rosto estava vermelho, suas tranças saltavam descontroladamente para cima e para baixo.

Ela começou a amontoar os papéis na recepção.

— Há uma recompensa de uma moeda de ouro por cada goblin que você matar. Essa é a sua chance, aventureiros!

Toda a multidão se agitou. Era claro que, a Guilda quem proporcionaria o dinheiro para a recompensa. A capacidade de trabalho em larga escala era uma das vantagens dessa organização.

Não era possível dizer o quanto a Garota da Guilda havia enfrentado para convencer seus superiores de que esta era uma boa ideia.

— Hm. Parece que eu estou dentro então. — Um aventureiro — o guerreiro de armadura pesada — deu um empurrãozinho em sua cadeira enquanto se punha de pé e pegou uma das folhas de papel. A Cavaleira, sentado ao lado dele, olhou para ele com surpresa.

— Você vai?

— Eu não sou um fã do Matador de Goblins, mas ei… dinheiro é dinheiro.

A Cavaleira, com seu rosto delicado, deu um sorriso diabólico.

— Eu não posso tolerar mentirosos. Você deveria simplesmente admitir que é pelo fato dele ser o único que expulsou os goblins de sua cidade natal.

— Ei, guarde isso para si, mulher! De qualquer forma, ainda vou ganhar uma moeda de ouro por goblin.

Eu também. Sim, conte comigo. Eu devo a esse cara. Um a um, começaram os murmúrios; as pessoas se levantaram.

— E quanto a você? Eu pensei que você odiava sua coragem.

— Eu aspiro me tornar uma paladina. Quando alguém pede por ajuda, eu estou obrigada a oferecê-la, — a Cavaleira disse com um sorriso malicioso, ao qual, o Guerreiro, com armadura, respondeu com um encolher de ombros e uma risada.

— Ah, bem. Se vocês dois estão indo, acho que estamos indo junto.

— Nós estamos?

— Ora, ora, é claro que devemos ajudar!

Apesar de um pouco de discussão, o resto do grupo do guerreiro de armadura se levantou.

— Ei…

— O que?

Os observando, o guerreiro novato que eles haviam treinado há muitos dias, chamou a jovem Clériga.

— Eu nunca fui numa caça de goblins.

— …Eu suponho que não. Eles dizem que é perigoso.

— Mas… eu tenho que tentar isso alguma hora, certo?

— …Você é irremediável, — ela disse.

Mas… se você insiste. E o garoto estendeu a mão para ela.

Alguém os observando deu um pequeno suspiro.

— Eu me tornei um aventureiro no mesmo dia que ele. Acho que isso é o que seria chamado de destino.

— Se eu não ouvisse essa voz perguntando por goblins todos os dias, eu não me sentiria bem.

— Concordo. Ele é tipo… parte daqui… uma fundação, você entende?

— Eu odeio o ter por perto. Mas… eu odiaria não o ter mais por perto.

— Eu estava apenas procurando uma maneira de ganhar algum dinheiro. Um goblin, um ouro, hã? Não é ruim.

— Em toda a minha vida, nunca vi um fornecedor de missão tão estranho, — alguém murmurou. Alguém mais assentiu. Um após o outro, os aventureiros se levantaram.

Sim, eles eram aventureiros.

Eles tinham sonhos em seus corações. Eles tinham princípios. Eles tinham ambições. Eles queriam lutar pelas pessoas.

Talvez eles não tiveram a coragem de dar um passo à frente. Mas, eles receberam esse pequeno impulso. Não havia mais motivos para hesitarem.

Matança de goblins? Bem. Esse era o trabalho deles. Se houvesse uma missão, eles a tomariam.

Alguém levantou sua espada no ar e gritou:

— Nós não somos membros de um grupo, nem somos amigos… mas, somos aventureiros! — Outros se juntaram ao grito. Aqueles que não empunhavam espadas levantaram seus bastões, lanças, machados, arcos e punhos.

Havia iniciantes. Veteranos. Guerreiros, feiticeiros, clérigos e ladinos. Havia humanos, elfos, anões, homens-lagarto e rheas. Os aventureiros reunidos na Guilda, preenchiam o ar com suas vozes, batendo no chão com os pés.

O Matador de Goblins, envolto por seus gritos, examinou a sala. Seus olhos se encontraram com os da Garota da Guilda. Ela estava suando um pouco, mas ela deu a ele uma pequena piscadela. O Matador de Goblins inclinou a cabeça para ela. Ele sentiu que era o mínimo que poderia fazer.

— Isso funcionou bem. — Houve uma pequena risada.

Ele se virou e viu, de pé como uma sombra, a Sacerdotisa.

Claro que ela estaria lá. Como ela não estaria?

— …Sim. Deu. — O Matador de Goblins assentiu.

Naquele dia, talvez, pela primeira vez, não faltaram aventureiros preparados para pegar uma missão de goblins.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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