MdG – Volume 1 – Capítulo 11 (Parte 1 de 2) – 3Lobos

MdG – Volume 1 – Capítulo 11 (Parte 1 de 2)

— Eu deveria fugir? O que? — A garota que estava na cozinha fazendo o café da manhã — a Vaqueira — ficou surpresa com as palavras. — Por que?

— Eu encontrei pegadas. — Ela entendeu, vagamente, o que isso significava.

Alguém que não entendia bem, poderia assumir que eram pegadas de crianças ou alguma brincadeira das fadas.

Eram pequenos passos, feitos por pés descalços que tinham sidos cobertos de lama e excrementos. Os pés de alguém que não dava bola se pisavam na grama do pasto.

Ela sabia. Ela confiava nele para saber o que era. Ambos sabiam que o tempo finalmente havia chegado — por mais fervorosos que fossem em desejar que não fosse.

— Goblins.

Ele — Matador de Goblins — que sempre falava de goblins. Ele estava junto à mesa do café da manhã em sua armadura e elmo. Era bizarro, sim, mas também era o que ele fazia todos os dias.

O que ele não fazia todos os dias era abandonar a inspeção da fazenda para vir e lhe dizer que ela deveria fugir.

Ela parou de cozinhar e olhou para as mãos dela. O que ela deveria fazer? Ela achou as palavras certas.

— Mas… você pode detê-los, não pode?

Ela queria que ele dissesse algo normal em resposta. — Sim, — ou — Eu posso, — ou — Essa é a minha intenção. — Ela precisava ouvir o seu tom calmo.

— Não, — ele disse, — Eu não posso. — Sua voz parecia tão fraca. Parecia que as palavras estavam sendo forçadas para fora dele.

O que? Uma expressão de confusão e surpresa escaparam de seus lábios. Ela se virou de repente e viu ele se mover ligeiramente, como se estivesse tremendo.

— Em uma caverna, eu poderia lutar com uma centena de goblins e ganhar. De alguma forma.

Ele estava com medo?

Ele?

Os olhos da Vaqueira se arregalaram, surpresos.

Sua fazenda estava cercada por uma cerca, por um muro de pedra, barreiras que ele havia reforçado. Havia algumas armadilhas, também, para pegar animais intrometidos.

Ela estava longe de ser perfeita. Mas, ela sabia que ele tinha feito tudo o que podia para protegê-los.

Ela olhou para ele, ele olhou para baixo uma vez, como se hesitasse, mas depois, ele encontrou os olhos dela diretamente. Ou, pelo menos, ele estava tentando.

— Nosso inimigo é um senhor, — ele disse brevemente.

Havia dez conjuntos diferentes de pegadas. Uma horda que poderia decidir atacar um assentamento bem defendido — e então, enviar dez goblins para explorar o lugar — deveria ter um líder. Um hobgoblin ou um xamã talvez, mas não. Nessa escala, tinha de ser…

Um senhor goblin.

Alguém que não conhecia bem os goblins, poderia zombar da ideia. Mas ele sabia bem. Ele sabia exatamente o que isso significava. Provavelmente, a horda teria mais de uma centena de goblins fortes. Se os batedores tivessem passado, o ataque poderia vir hoje, amanhã, ou mais tarde. Não havia tempo para pedir ajuda aos governantes ou ao Estado. Mesmo que tivesse — os nobres nunca se incomodariam com meros goblins.

O Matador de Goblins sabia de tudo isso. A Vaqueira também sabia.

Porque tinha sido o mesmo há dez anos.

— Uma horda de goblins…?

Cem ou mais criaturas viciosas e malignas vindo diretamente a eles?

— Eu não sou um ranque Platina… não sou um herói.

Eles não tinham quantidade.

Eles não tinham força.

Isso significava…

— Eu não posso.

Era isso.

Você deve fugir.

Agora, enquanto ainda há tempo.

A Vaqueira se moveu para ficar bem em frente dele. Ela olhou para o seu elmo. Quando ela tinha certeza de que ele não tinha mais nada a dizer, ela murmurou:

— Tudo bem.

— Você está decidida?

— Sim. — Ela respirou fundo e suspirou.

Havia três coisas em seu coração, três coisas que ela precisava de coragem para dizer.

— …Eu sinto muito.

Agora que ela tinha dito a primeira, o resto seria mais fácil.

— Eu não vou sair.

Ela forçou seu maxilar rígido a se tornar um sorriso. Ela não permitiu que ele perguntasse por quê. Ele sabia porquê.

— Porque você pretende ficar, não é?

Ele não disse nada.

— Viu? Eu sabia disso. Você sempre se cala quando fica contra a parede. Você sempre fica quieto.

— Eles não irão simplesmente te matar.

— Sim. Eu sei, — ela disse calmamente.

Sua voz soou fria. Ele estava tentando ainda mais do que ela em manter a calma.

— Naquele dia… eu estava observando.

— …Eu sei. — Ela sabia exatamente o que ele queria dizer. Por que ele lutou, por que ele continuou lutando. Ela sabia tudo isso.

— A horda pode ser expulsa algum dia, — ele disse, como se estivesse conversando com uma criança. — Mas não pense que você será salva. Mesmo se você viver muito tempo, seu espírito será quebrado.

A intenção de suas palavras — sua tentativa de assustá-la com a implicação de que Eu não serei capaz de salvá-la — era tão descarado que ela quase riu.

Não, é claro, que ele estava errado. Ele não estava errado, e ainda…

— Então fuja.

— Eu disse, não.

Apesar das circunstâncias, ela achou que estava feliz em saber que ele estava preocupado com ela. E ela estava preocupado com ele. Ela tinha que fazer ele entender isso.

— Eu não quero que isso aconteça novamente. — As palavras saíram dela por vontade própria. — Não haverá nenhum lar para você voltar… — E, em seu coração, ela acrescentou — Ou eu.

Não havia outro lugar que ele pudesse chamar de lar. Fazia mais de dez anos, e nem sequer sabia que poderia chamar esse lugar de lar.

Ele olhou para ela vagamente, sem dizer nada. De algum lugar nas profundezas da escuridão de seu elmo, ele a estava observando. Sob seu olhar, ela sentiu um súbito embaraço se apoderando de si. Ela desviou o olhar e ficou vermelha. Ela olhou para o chão. Mesmo quando ela se repreendeu por ser tão tola, as palavras continuaram, enquanto ela procurava algum tipo de desculpa.

— Eu-eu quero dizer, pense nisso. Mesmo que escapássemos, os animais… as vacas, as ovelhas. Todos desapareceriam.

Ele ficou em silêncio.

— Com isso, quero dizer…

Silêncio.

— Entendo. — Ele sussurrou.

— Sim, — ela murmurou de volta. — Eu realmente sinto muito. Eu sei que estou sendo teimosa.

— …Não faça esse cara. Relaxe.

Ela sorriu. Era um sorriso fraco, lágrimas se formaram nos cantos de seus olhos. Ela deve ter se sentido mal por ele ter dito algo assim.

— Eu farei o que puder, — ele disse.

E então, ele — o Matador de Goblins — se afastou dela.

Ele fechou a porta, caminhou pelo corredor e saiu. Ele olhou rapidamente pela fazenda, gravando o terreno em sua memória, e, depois, pisou sob a estrada para a cidade.

Isso era insensatez.

Ela poderia ter escapado para a cidade.

Ou ele poderia a ter derrubado, amarrado e posto ela em algum lugar seguro.

Por que ele não fez isso? Por que ele não a fez sair?

Havia apenas um motivo. Ele não queria.

Ele não queria fazer ela chorar de novo.

— Eu deveria proteger as mulheres…

— …Você.

O Matador de Goblins estava falando consigo mesmo, e ainda houve uma resposta. De pé, próximo a ele, de braços cruzados, estava o dono da fazenda. Ele estava ouvindo — ou talvez ele simplesmente tivesse ouvido.

— Você deveria, pelo menos, se despedir antes de sair, — ele cuspiu, olhando para o Matador de Goblins, que de fato concordou com ele. O Tio tinha tomado tudo para si, poupando ele o máximo que podia.

— Eu sinto muito. Eu…

O dono da fazenda interrompeu o Matador de Goblins bruscamente enquanto ele se desculpava.

— Ela é uma boa garota. — As palavras saíram forçadas de sua boca cerrada, com um rosto aflito. — Ela cresceu tão bem.

— …Sim.

— Então não faça ela chorar.

O Matador de Goblins ficou em silêncio, sem saber como responder. Se tivesse sido apenas uma questão de dizer algo, qualquer coisa, ele poderia facilmente fazer sua língua se mover e seus lábios falarem.

Mas, depois de uma longa deliberação, ele decidiu apenas dizer a verdade.

— Eu irei… tentar.

Às vezes, ele odiava o fato de que ele não conseguia mentir. Com aquelas palavras murmuradas pesando sobre ele, ele começou a andar.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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