MdG – Volume 1 – Capítulo 10 (Parte 3 de 3) – 3Lobos

MdG – Volume 1 – Capítulo 10 (Parte 3 de 3)

— Este é um lugar agradável, — a elfa disse, — muito confortável. Mas, o que você está fazendo? — Ela se inclinou a ele com grande interesse.

— Eu estou descarregando essa carroça.

— Hmm… Espere, não me diga que… Você está precisando de dinheiro, então, você pegou um emprego de entregador?

— Não, — ele disse aborrecido. — Você quer alguma coisa?

— Ah, sim. Esse cara, uh… — A elfa se afastou significativamente, assinalando com o seu polegar o Lagarto Sacerdote.

A língua do homem-lagarto sacudia para cima de seu nariz e para baixo. Suas mãos estavam incessantemente inquietas.

— Meu senhor Matador de Goblins, eu… hum…

— O que?

— Eu humildemente solicito, alguns… haa…

— O que é isso? — O Matador de Goblins perguntou.

O Anão Xamã interveio com um sorriso.

— O Escamoso aqui quer um pouco de queijo.

— Ele deveria ter simplesmente dito isso, — a Alta-Elfa Arqueira, estreitou os olhos como um gato.

O homem-lagarto silvou para eles, mas os dois não pareceram se importar. Talvez eles ficaram satisfeitos ao ter visto esse lado de seu imperturbável companheiro. Normalmente, era o homem-lagarto que era o mediador do grupo.

O Matador de Goblins podia ver que ele não ia sair dessa. Eles estiveram juntos por apenas uma missão até agora. Havia muitas coisas que ele não sabia.

— Isso irá servir?

Ele abriu um dos pacotes na carroça, tirou uma roda de queijo e jogou para ele.

— Oh-ho! — O homem-lagarto pegou e seus olhos se alargaram em sua face.

— Você pode pagar a Guilda por isto.

— Sim, sim, entendido, meu senhor Matador de Goblins! Oh, doce néctar! Seu valor é maior que o ouro! — Ele estava praticamente dançando. Ele abriu a boca e deu uma grande mordida no queijo.

A elfa deu um sorriso impotente.

— Eu acho que mesmo os caras mais sérios, tem que se deixar levar de vez em quando, — ela disse.

— Entendo. — O Matador de Goblins assentiu.

Ele não se sentia mal com isso. Ele foi para o próximo item na carroça.

Ele segurou a caixa de madeira, pegou, e a abaixou. Então, o próximo e o próximo. Era um trabalho simples, mas ele não gostava disso. Quando ele olhou para algumas caixas adiante, estava a elfa, ainda parada ali.

Ela se movia inquieta enquanto o observava em seu trabalho repetitivo.

— O-o que? Eu não deveria estar aqui?

— Não. — Ele balançou sua cabeça ligeiramente. — Mas ficará quente hoje.

— Ou… ouça! — Sua voz estava um pouco alta demais. Suas orelhas se moviam para cima e para baixo, para cima e para baixo.

— O que é agora? — Ele perguntou com um suspiro.

— Hum, estamos… estamos investigando algumas ruínas…

— Ruínas.

— Sim, como a que nós fomos em nossa última missão. Tentando descobrir o que os espíritos malignos estão planejando e tudo mais…

— Entendi.

— Mas, o nosso grupo não tem ninguém bom para proteger a vanguarda, certo? — Quero dizer, eu sou uma guardiã; ele é um sacerdote. O Baixinho é um lançador de feitiços. Ela brincava com os seus cabelos enquanto falava e não olhava para ele.

— Certo, — ele concordou. Tudo o que ela disse era verdade.

— Então, eu queria dizer… — Ela parou e olhou para o chão. Ele esperou que ela continuasse. — Eu pensei que talvez… talvez deveríamos falar com você…

Ele ficou em silêncio. Era isso? Ele levantou outra caixa sem falar.

As orelhas da elfa caíram, e ele colocou a caixa para baixo.

— Eu vou pensar sobre isso.

Ele podia ouvir praticamente suas orelhas florescerem.

— Certo! Com certeza! Faça isso! — Com um pequeno aceno, ela partiu para a frente da Guilda.

O anão a seguiu, acariciando a barba com uma mão e puxando o homem-lagarto — ainda fascinado com sua deliciosa conquista — com a outra.

— Que tal isso, Corta-barba? A vida é tão difícil para a orelhuda. Ela deveria apenas ir e te convidar!

— Quieto, anão. Eu ainda não estou sem flechas.

— Estou tremendo na base, moça.

Parecia que a elfa não estava fora do alcance de seus ouvidos. O Matador de Goblins observou os dois se afastarem discutindo alto.

Antes que ele percebesse, ele estava quase terminado de descarregar a carroça. Ele soltou um pouco de ar e sacudiu o elmo. O sol estava alto no céu. Era quase verão.

Então…

— Yaaah!

— Heeeeyah!

De repente, gritos ressoaram, acompanhados pelo barulho claro de metal se chocando.

O som de uma luta de espadas. E não era repentino. Ele só não havia prestado atenção.

Ele ergueu seu pescoço para encontrar a fonte do distúrbio. Ele vinha da praça atrás do edifício da Guilda, bem em frente a ele.

— Ha-ha-ha, você chama isso de ataque? Você não poderia matar um goblin dessa forma!

— Droga! Ele é muito grande; e ele está entrando na minha guarda! Cerque ele pela direita!

— Tudo bem, aqui vamos nós!

Um guerreiro de armadura pesada estava empunhando uma espada larga tão facilmente quanto um palito de fósforo, e acabando com a pressão dos dois garotos. Um dos meninos era o batedor do grupo do guerreiro de armadura pesada, e o outro… ele era o guerreiro novato que tinha ido aos esgotos. Seus movimentos tinham as características de um ranque Porcelana inexperiente, mas ele estava indo bem tentando encontrar o fluxo de combate.

— Não é um plano ruim, — respondeu o guerreiro de armadura, — mas isso não vai funcionar se você gritar para o seu adversário!

— Yrrrahhh?!

— Waaagh!

O abismo da experiência e da força era simplesmente muito grande. O guerreiro lidava com eles com facilidade.

Parecia que o Matador de Goblins estava um pouco evidente demais enquanto ele ficou observando o treinamento deles.

— Bem, se não é o Matador de Goblins, — disse uma voz baixa com mais indício de suspeita.

Era a mulher na amadura de cavaleiro. Como ele se lembrava, ela também fazia parte do grupo do guerreiro de armadura.

— Não o vi por alguns dias, — ela falou. — Eu estava começando a pensar que o ogro tivesse acabado com você. Mas aqui está você, vivo e bem.

— Sim.

— …É assim que você fala com todos que você conhece?

— Sim.

— …É, estou vendo… — A cavaleira franziu a testa balançou a cabeça como se estivesse com uma baita dor de cabeça.

Ele não achava que era tão estranho assim, mas ele guardava isso para si mesmo. Ele disse, no entanto:

— Não pensei que o guerreiro fosse um membro de seu grupo.

— Ah. Ele não é. Nós estávamos treinando um pouco aqui com o garoto… — Aparentemente, eles notaram que o outro jovem guerreiro praticando seu trabalho com a espada nas proximidades e o convidou para se juntar a eles.

A maioria dos aspirantes a guerreiros que surgiam no país com uma espada e um sonho, eram autodidatas no uso de suas armas. Mesmo essa chance de treinar com um verdadeiro aventureiro poderia salvar a vida do garoto algum dia.

— Agora eu tenho que ensinar essas garotas a agirem como senhoritas…

Em frente ao lugar onde o batedor e o jovem espadachim estavam corajosamente encarando o Guerreiro em sua armadura pesada, uma clériga e uma druida estavam encostadas em uma pequena parede, observando o confronto com uma excitação indisfarçada.

— Esse cérebro cheio de músculos provavelmente está ficando cansado agora. Talvez eu deva entrar, — a Cavaleira disse, com um sorriso maroto.

Ela ergueu seu enorme escudo e sua espada — seu orgulho e alegria — e saltou sobre a parede e entrou no confronto.

— Tudo bem, agora vocês estão com problemas! Pensei ter ouvido falar de alguns guerreiros aqui, mas tudo o que vejo são alguns fracotes!

— O quee? Como você pode ser uma paladina falando desse jeito?!

— Aqui está a minha resposta!

— Finalmente, ação! — o Guerreiro suspirou.

Ele que sempre atacou da frente — era por isso que as pessoas gostavam dele. Sua grande espada girou como um furacão, seu enorme escudo o impedindo um golpe atrás do outro. Ele bailou para longe de cada golpe perspicaz e encontrou uma abertura com brinde. A clériga e a druida estavam apenas auxiliando os rapazes pressionados quando…

— Essa cavaleira não consegue ficar quieta no seu canto, consegue? — Uma risada tão clara quanto um sino o alcançou. Quando alguém apareceu ao lado dele?

— Perdão pela intrusão, meu querido Matador de Goblins, mas que tal você beber isso? Está muito quente aqui fora… — Ela saiu da porta da cozinha. Agora lhe oferecendo um copo.

— Obrigado, — disse ele, o pegando. Ele o engoliu em um grande glub em seu capacete. Era frio e doce.

— Tem um pouco de limão e mel nele, — a Garota da Guilda disse. — Dizem ser bom para a fadiga.

Ele concordou com a cabeça. Isso faria um bom complemento para o seu setor de suprimentos. Ele teria que lembrar disso.

— Houve algumas conversas ultimamente sobre um novo edifício que seria dedicado a esse tipo de treinamento, — ela disse, acenando com a cabeça para o grupo treinando.

— Oh? — Ele tirou as gotas do líquido em seus lábios.

— Poderíamos contratar alguns aventureiros aposentados para ensinar. Existem tantos novatos que simplesmente não conhecem nada.

Se pudéssemos ensinar a eles pelo menos um pouco, talvez mais deles voltariam para casa.

Ela olhou distante e sorriu. A Garota da Guilda viu muitos aventureiros chegarem… e irem. Apenas a papelada que ela teria que lidar não suavizava o golpe. Não era difícil de entender por que ela queria ajudar os recém-chegados.

— E…, — ela acrescentou. — Mesmo depois de se aposentar, você ainda precisa viver. Todo mundo precisa de algo para preencher o tempo.

— É mesmo? — Ele devolveu o copo vazio para ela.

— Sim, é, — ela insistiu com seu habitual aceno animado de cabeça, suas tranças saltavam. — Então, é melhor cuidar de você mesmo, está bem?

Ele ficou calado por um momento.

— Parece que todos estão me aconselhando isso ultimamente.

— Eu vou esperar até que você esteja curado antes de lhe dar mais missões. Talvez um mês.

— Erk… — Ele gemeu.

— E da próxima vez você trabalha até colapsar, seis meses.

— Isso seria… um problema.

— Seria, não seria? Então, por favor, aprenda sua lição desta vez. — Ela riu.

Então, ela disse que tinha terminado com a burocracia das entregas. Ela se virou para voltar à Guilda, os gritos e tinidos dos jovens aventureiros que voavam em seu mentor ainda soava atrás dele.

A garota, sua velha amiga, estava esperando impacientemente ao lado da carroça. Quando ela viu o Matador de Goblins, seu rosto se iluminou. Ele a chamou em voz baixa:

— Vamos para casa?

— Sim, vamos!

A carroça estava mais leve do que tinha estado pela manhã.

Quando ele voltou para a fazenda, ele buscou algumas pedras queimadas pelo sol e começou a construir um muro de pedras. As bases do muro já estavam no lugar, mas com os goblins, você nunca seria muito cuidadoso. Até o Tio reconheceu, relutantemente, a importância do muro, com a lógica de que isso ajudaria a manter longe os animais selvagens.

O Matador de Goblins trabalhou silenciosamente até que, após o sol ter passado de seu zênite, sua velha amiga veio com uma cesta em seu braço. Eles se sentaram na grama juntos, comendo sanduíches e bebendo vinho de uva fria como almoço. O tempo passou a um ritmo lento.

Com o muro quase terminado e as entregas do dia seguinte já transportadas para a carroça, o sol começou a descer abaixo no horizonte. A grama farfalhava suavemente na brisa do início de verão.

Acima dele, brilhava duas luas e um céu cheio de estrelas. As estrelas já deveriam estar em suas novas posições para a nova estação, mas ele não podia dizer certamente. Para ele, as estrelas eram apenas uma forma de se orientar. Quando ele era mais novo, seu coração estava em chamas para com os contos dos antigos heróis, ele tinha a intenção de aprender as histórias das constelações. Mas agora…

— O que foi? — Ele ouviu os passos leves na grama atrás dele. Ele não se virou.

— Hmmm? O jantar está pronto. Mas não se apresse. No que você está pensando?

Quando ele olhou para as estrelas, ela se sentou próximo a ele tão tranquilamente como a naturalidade. Ele pensou por um momento e então, se sentou também. Sua armadura fez um pouco de barulho.

— Sobre o futuro.

— O futuro?

— Sim.

— Hum…

A conversa parou, e eles ficaram em silêncio, olhando para o céu. Não era um silêncio desagradável. Era um silêncio que eles apreciaram; ele era sereno. Os únicos sons era o do vento, o balbuciar da cidade de longe, os insetos e suas próprias respirações. Cada um deles parecia entender o que o outro queria dizer.

E o que ele faria então? Ele não sabia.

Ele é mais fraco do que eu pensava, ela pensou, observando-o de soslaio.

— Eu sinto muito.

As palavras surgiram de repente, espontaneamente a partir de seus lábios.

— Pelo que? — Ele balançou a cabeça fora de sua característica. Talvez por causa de seu elmo, o gesto parecia estranhamente grande e infantil.

— Não… nada. Não é nada.

— Você é estranha, — ele murmurou enquanto ela ria.

Ele está amuado? Era um detalhe, mas não mudou desde que ele era jovem. Com esse pensamento em mente, ela puxou o braço dele.

— Erk… — Ele encontrou sua visão se mover, e então, a parte de trás de sua cabeça estava apoiada contra algo suave. Quando ele olhou para cima, ele viu as estrelas, duas luas — e seus olhos.

— Você ficará lambuzada de óleo.

— Eu não me importo. Essas roupas podem ser lavadas, e eu posso me banhar.

— É mesmo?

— Sim. — Ela apoiou sua cabeça em seus joelhos. Ela acariciou o seu capacete enquanto ela se aproximava e sussurrou, — Vamos pensar sobre as coisas. Podemos ter o nosso tempo.

— Nosso tempo, hã…?

— Certo. Temos todo o tempo do mundo.

Ele se sentiu estranhamente à vontade, como uma corda bem tensionada que finalmente se afrouxou. Quando ele fechou os olhos, ele ainda sabia como ela estava mesmo que não pudesse a ver. Assim como ela sabia como ele estava, mesmo com seu rosto ocultado.

O jantar naquela noite foi guisado.

Um dia como este, se seguiu dessa maneira por quase um mês.

Em algum lugar, a batalha entre os aventureiros e os espíritos malignos estava cada vez mais inflamada…

Então, de repente, acabou.

Era dito que um único novato tinha seguido a orientação de uma espada lendária, e no final de sua aventura havia matado o rei dos demônios. Esse principiante — uma jovem garota, como ocorreu — se tornou o décimo sexto aventureiro de ranque Platina da história.

Uma grande celebração foi proclamada na Capital, e até mesmo o Matador de Goblins que estava fora da cidade, observou alguns festejos.

Isso não queria dizer que isso tinha alguma coisa a ver com ele.

Ele estava interessado apenas no clima, nos animais, nos campos, e nas pessoas ao seu redor. O tempo passou em um ritmo lento. Os dias tinham a qualidade para se tirar uma soneca a tarde.

Mas, muitas coisas deveriam terminar — muitas vezes em breve.

O fim de seu idílio apareceu sob a forma de manchas negras repulsivas em seu pastoreio encharcado de orvalho matinal. Traços de lama e excrementos sob os campos, eram inconfundíveis: pequenas pegadas.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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