MdG – Volume 1 – Capítulo 10 (Parte 2 de 3) – 3Lobos

MdG – Volume 1 – Capítulo 10 (Parte 2 de 3)

A brisa. Seus passos. Suas respirações. O ruído das rodas girando.

Um pássaro cantava em algum lugar. Uma criança gritou ao brincar. O tumulto da cidade ainda estava longe.

— Isso é bom. — O murmúrio de repente veio de seus lábios.

— O que…?

— Isso é mais agradável do que caçar goblins.

— Nossa, você realmente sabe como encantar uma garota.

— É…

Aparentemente, ele ainda não se comunicava com clareza.

Se você não soubesse o que dizer, era melhor não dizer nada. Do canto de seus olhos, ele obteve sua expressão confusa. Ele continuou empurrando a carroça em silêncio.

— Heh-heh! — ela riu de repente. Quase como se ela mesma não esperasse.

— O que?

— Nada!

— Sério?

— Sério.

Ela caminhou, cantarolando uma melodia que ele não reconhecia. Ainda assim, ele não precisava conhecer. Ela estava feliz. Isso era o suficiente.

Eles estacionaram a carroça na entrada de trás e entraram na Guilda. Tudo estava calmo. Era quase meio-dia, então, é claro, a maioria dos aventureiros já havia partido. Ou talvez, todos eles estivessem na Capital, que estava tendo muitos problemas ultimamente. Ele não sabia. Na Guilda, havia alguns provedores de missões fazendo o trabalho administrativo, e alguns aventureiros que ele sabia estarem descansando os pés. Poucas pessoas pareciam estarem sentadas à espera de alguém, e a fila para  consultar a Garota da Guilda era pequena.

— Perfeito, — sua velha amiga disse batendo palmas com alegria. — Eu não vou ter que esperar para sempre para obter a assinatura de que eu preciso. Eu cuidarei disso e voltarei, mas… você disse que tinha algo a fazer também, não?

— Sim.

— Certo. Bem, quando terminar, podemos nos encontrar aqui e ir para casa juntos!

— Tudo bem.

Ele a observou correr sorrindo, em seguida, deu uma olhada ao redor do saguão.

Ele não viu quem estava procurando. Talvez ele chegou um pouco cedo.

Nesse caso, ele esperaria no seu assento habitual perto da parede. Ele se dirigiu a ele com seu passo ousado característico…

— Grh…?

…e quase bateu em uma pessoa sentada na cadeira. Essa pessoa olhou para ele com suspeita. Era o aventureiro com lança.

O Lanceiro caiu da cadeira, com as mãos no quadril, olhando abertamente para ele.

— Nunca vi alguém tão em forma, mas tão pálido. Não reconheço o seu rosto. Você é novo por aqui?

— Não. — Ele balançou a cabeça uma vez enquanto falava. Claro, o homem o reconhecia. E, claro, ele não era novo.

Mas, parecia que o Lanceiro se recusou a acreditar que era realmente ele sem a sua armadura habitual. O Lanceiro se dirigiu a ele com um tom a quem alguém poderia usar com um colega desconhecido.

— Imagino que você não seria. Os aventureiros que querem ganhar dinheiro estão hoje na Capital, né? — ele disse. — Você deve estar aqui para uma pausa ou algo assim.

O recém-chegado acenou com a cabeça como se dissesse “algo assim”, e o Lanceiro riu.

— A Capital é um lugar bruto. Eu posso entender por que você gostaria de uma folga. — Com um movimento ágil, ele se endireitou e ajustou seu aperto na lança. — Ouvi dizer que todos estão preocupados com espíritos malignos ou algo assim. Uma batalha para salvar o mundo? Soa como uma maneira infernal de tomar um nome para si.

— Você não vai até lá?

— Eu? Não seja ridículo. A única coisa pela qual eu luto é por mim. Não pelo dinheiro ou o destino do mundo. Bem, — o Lanceiro mudou o tom, — por mim e… — Ele deu um olhar significativo para a Garota da Guilda.

Quando o recém-chegado deixou seu olhar se dirigir para a recepção, ele viu a Garota da Guilda correndo atrás dele como uma cachorrinha excitada. Aparentemente, uma multidão de aventureiros não era a única coisa que mantinha a Guilda ocupada.

— … por razões pessoais, — o Lanceiro finalizou. — Eu não preciso de algum lema, algum grito de guerra.

assim, o Lanceiro voltou para cadeira.

Ambos viram a Bruxa sensual vindo até eles de forma provocativa.

— Bom, até breve, — o Lanceiro disse. — Eu tenho um encontro com… ou devo dizer em… algumas ruínas. Me deseje sorte!

— Desejarei. — Ele assentiu calmamente.

— Você é realmente um bom camarada, — o Lanceiro disse com uma risada, e — Isso não é de todo ruim.

Quando os dois saíram da sala, a Bruxa olhou para trás e essa “bom camarada”, deu uma grande e significativa piscadela e uma risada.

— Tome cuidado, — ela disse.

— Eu vou.

E então, ele se sentou na cadeira recém-vazia.

Ele olhou distraidamente para o topo da Guilda. Foi só agora que ele entendeu que o Lanceiro e a Bruxa estavam juntos em um grupo. E ele tinha pensado que ele os conhecia bem.

— Hum, senhor Matador de Goblins! Senhor Matador de Goblins, você está aqui?

Desta vez, uma voz hesitante. Ele moveu seu olhar em direção ao som, mas não moveu a sua cabeça, um habito seu de usar o capacete por tanto tempo.

Ele viu o garoto aprendiz da oficina, parado ali, com um avental de couro manchado com graxa.

— Este sou eu.

— Oh, graças a Deus. Eu não sabia quem você era. O chefe está perguntando por você. Ele diz que o trabalho está pronto.

— Tudo bem. Já estou indo.

A Guilda dos Aventureiros não era apenas para entregar missões; ela hospedava todos os tipos de atividades de empreendedorismo. Além dos escritórios, havia uma pousada, uma taverna, uma loja de itens e uma loja de equipamentos. Claro, não era absolutamente necessário que lojas como estas fossem parte do edifício da Guilda. Mas, no que diz respeito ao Estado, era conveniente manter os rufiões em um só lugar, tanto quanto possível, em vez de os ter vagando pela cidade.

Quando ele se levantou e saiu, ele foi para uma das oficinas da Guilda. Através do prédio, em outro compartimento, mais adiante. À frente de uma forja radiante, um homem velho movia implacavelmente um martelo, trabalhando em uma espada que acabara de sair do molde, uma verdadeira espada temperada.

Outorgado, era uma espada de produção em massa que não demorava muito para ser forjada; nada em comparação com as espadas de lendas. Mas, também, a capacidade de forjar essencialmente a mesma espada, uma e outra vez, com quase nenhuma variação, era um talento notável.

— …Você chegou. — O velho olhou para ele.

Os pelos faciais do ferreiro eram tão abundantes que ele poderia se passar por um anão. Talvez por ter passado longas horas na forja o fez ter um olho tão estreito a ponto de quase fechá-lo e o outro tão aberto fora da normalidade. Não era uma aparência atraente.

— Você faz pedidos após pedidos, mas, apenas para produtos bem baratos. Me diga, como eu deveria encher meus bolsos desse jeito?

— Desculpe.

— Não se desculpe. Apenas tenha mais cuidado com seus objetos.

— Tentarei.

— Hrmph, — o velho murmurou, — não o reconheceria se ele não caísse na piada… Hmph. Aqui. — Ele acenou.

O Matador de Goblins se aproximou, o ferreiro o entregou a armadura e o capacete.

— Devem estar bons, mas vista eles para ter certeza. Eu vou ajustá-los, se necessário. Sem nenhum custo.

— Obrigado.

Sua armadura suja, amassada e quebrada tinha ficado tão boa quanto — Bem, nem tão boa quanto uma nova, mas, tão boa quanto antes do encontro com o ogro. Pelo menos, ele poderia confiar nela com sua vida mais uma vez.

— E um pergaminho? Você foi capaz de obter um?

— Você me deu ouro, então eu obterei os bens. Mas, pergaminhos são raros. E caros.

O homem velho deu um resmungo irritado e voltou para a forja. Ele tirou a simples espada de ferro que criou, a inspecionou e a pôs de volta no fogo com um estalo de sua língua.

— Quando algum aventureiro encontrar um e vender, eu vou comprar ele para você, mas isso é o máximo que posso fazer.

— Eu sei. Isso é o suficiente. — Ele passou um saco de moedas de ouro para o aprendiz, então, ele caminhou até um canto da oficina onde ele ficaria fora do caminho.

O ferreiro tinha anexado um novo jaquetão acolchoado com algodão para usar como proteção sob sua armadura. Que gentileza.

Luvas, cota de malha, armadura, peitoral de placas e depois o elmo. Ele colocou o equipamento mecanicamente, em sua ordem já costumeira. Ao fazê-lo, ele ouviu a voz intrigada do aprendiz.

— Ei, chefe. Esse cara é um aventureiro ranque Prata, não é?

— Foi o que ouvi.

— Por que ele usa essa armadura? Se ele quisesse se mover em silêncio, teríamos a malha de mithril ou…

— Você não sabe, garoto?

— Não, senhor. Por que não uma boa espada mágica em vez de um pergaminho ou…

— Porque apenas uma criancinha seria burra o suficiente para levar uma lâmina encantada para lidar com os goblins! — O ferreiro atingiu o ferro com toda a sua força, um som nítido soou quando o martelo encontrou a espada.

— Esse é um homem que conhece seu trabalho.

Não sou popular hoje? —  ele pensou. Quando voltou da oficina para o saguão, ele viu alguém se aproximando em sua direção. Tap-tap-tap os passos eram acompanhados por um salto de peitos bonitos e um rosto envolvido em um sorriso.

— Senhor Matador de Goblins! — A Sacerdotisa acenou enquanto ela se dirigia até ele.

— Sim, o que?

— Aqui, olhe para isso!

Ela alcançou a sua manga sem folego e puxou sua insígnia de ranque. Não era mais o branco de porcelana, mas sim uma obsidiana reluzente.

Oh. Era disso que se tratava?

Ele assentiu para sua companheira animada.

— Você subiu do décimo ranque para o nono.

— Sim, senhor! Eu fui promovida!

O sistema de ranque que os aventureiros viviam era baseado na quantidade de bem que um aventureiro fizera ao mundo — alguns se referiam a isso como “pontos de experiência” ou algo similar, mas, em essência, era baseado nas recompensas que eles ganhavam pelas missões. Aqueles que ganhavam uma certa quantia, poderiam ser promovidos no ranque, no aguardo de uma breve avaliação pessoal. Não poderia haver algum problema para com a personalidade da Sacerdotisa, por isso, essa promoção foi efetivamente um reconhecimento de sua força em crescimento.

— Eu não tinha certeza de que eles me dariam, mas acho que a batalha com o ogro contou muito… — Ela coçou sua face ruborizada com o dedo.

— Entendo.

Novamente, o que é um ogro?

Ah, certo — era aquela criatura que eles encontraram sob as ruínas, não era? Ele assentiu. Então, sua pequena expedição tinha sido bastante importante, no entanto. Após um momento de pensamento, ele acrescentou brevemente:

— Bom para ti.

— Eu devo tudo a você, senhor! — Seu olhar, seus belos olhos, mirando nele.

Ele respirou fundo. O que ele deveria dizer? Houve uma longa pausa.

— De modo algum, — ele finalmente soltou para fora. — Eu não fiz nada.

— Você fez muito! — ela respondeu com um sorriso. — Você me salvou quando nos conhecemos.

— Mas eu não pude salvar seus companheiros.

— É verdade, mas… — Seu rosto se enrijeceu por um momento. Ela não conseguiu terminar sua sentença, o que era compreensível.

Mesmo ele, ainda se lembrava de toda cena horrível claramente. Guerreiro, Maga, Lutadora, que haviam perdido tudo. Seu grupo tinha sido esmagado a pó.

A Sacerdotisa engoliu em seco, mas continuou resolutamente.

— Mas você me salvou. Quero, pelo menos, te agradecer por isso. — Então ela sorriu. Em sua face, seu sorriso era como uma doce flor. — Então, obrigada! — ela disse fazendo uma grande reverência.

O Matador de Goblins, previsivelmente, estava sem palavras.

A Sacerdotisa disse que iria ao Templo e deixaria a Madre Superiora saber sobre sua promoção. Ele ficou parado, a observando partir com seus passos delicados e suas mãos envoltas firmemente ao redor de seu cajado de monge.

Ele estava em silêncio.

Ele olhou para a recepção, onde sua velha amiga ainda parecia estar ocupada com a burocracia.

— Eu vou descarregar a carroça, — ele disse, e ela acenou em resposta.

Ele saiu do átrio e foi para a entrada da Guilda. Ele pegou os vegetais da carroça, uma a um, e os colocou perto da entrada da cozinha. Trabalhando sob o sol quente, o suor começou a pairar em sua testa debaixo de seu elmo em pouco tempo.

Mas, era importante proteger a cabeça. Ele não podia abaixar a guarda. Era o que ele estava pensando quando:

— Ei… Você tem um minuto? — uma voz calma o chamou detrás dele de repente.

Ele desceu a carga e se virou lentamente.

— Orcbolg? O que você está fazendo…? — Era a Alta-Elfa Arqueira. Suas longas orelhas estavam de pé em linha reta.

— O que, o Corta-barba está aqui? Assim o é! Contudo, você deveria estar de pé?

— Eu ouvi dizer que você adormeceu por três dias… mas você parece perfeitamente disposto agora.

— Seus passos o entregaram, não é? — a elfa respondeu ao anão e ao homem-lagarto, que estavam alinhados a ela. Parecia que os três haviam se instalados na cidade após a sua viagem de extermínio de goblins.

Tradicionalmente, os aventureiros sempre foram andarilhos, mudando sua base de operações sempre que era conveniente ou necessário.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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