MdG – Volume 1 – Capítulo 10 (Parte 1 de 3) – 3Lobos

MdG – Volume 1 – Capítulo 10 (Parte 1 de 3)

Mesmo agora, ele se lembrava de uma vez em que sua irmã mais velha o tinha repreendido firmemente.

Foi quando ele fez aquela garota, sua velha amiga, chorar.

Por quê? Bom… Porque ela estava indo viajar para a cidade. Ela estava indo morar em uma fazenda.

Ela estava contando a ele todos os detalhes. Ele tinha ficado com ciúmes. Ele não pôde evitar sentir isso.

Ele não sabia nada sobre a vida fora de sua aldeia. Ele não conhecia o nome das montanhas ao longe, ou qualquer coisa que estivessem além delas.

Ele sabia que, se seguisse a estrada o suficiente, chegaria-se a uma cidade, mas o que isso significava, ou que tipo de cidade era, ele não sabia.

Em uma idade tão jovem, ele pensava que se tornaria um aventureiro. Ele deixaria a aldeia, talvez matasse um ou dois dragões, e depois voltaria para a casa como um herói — um aventureiro de ranque Platina.

Claro, depois de ele ter visto alguns de seus aniversários indo e vindo, ele percebeu que era impossível.

Não — não era impossível.

Mas ele teria que deixar sua irmã. A irmã que o criou depois que sua mãe e seu pai morreram.

Ele poderia ter se tornado um aventureiro. Mas ele decidiu não escolher esse caminho.

Por isso, ele estava com raiva de sua amiga.

Enquanto sua irmã o levava para a casa segurando sua mão, ela o repreendeu.

— Quando você se irrita com alguém, você se torna um goblin! — dizia ela, bem como — Você deveria proteger as mulheres!

A sua irmã era sábia.

Não que ela tivesse muito conhecimento, mas sua mente era perspicaz. Talvez, a mais perspicaz da aldeia. Na verdade, ela conseguia seu ganha-pão ensinando as crianças locais a ler e escrever. As crianças eram necessárias para trabalharem nas fazendas de suas famílias, mas, a alfabetização também era importante.

A todo momento, ela tentava transmitir a seu irmãozinho a importância de usar sua cabeça.

— Se você continuar a pensar — ela disse a ele —, você eventualmente encontrará algo.

Sua irmã deveria ter sonhado em ir à cidade para estudar. Mas ela ficou na aldeia por sua causa. Então, ele também ficaria. Por ela.

Para ele, isso era a coisa mais óbvia.

Quando eles chegaram em casa, sua irmã fez para ele um guisado de carne de frango ao leite. Ele adorava o ensopado de sua irmã. Ele pediria outra tigela, e depois outra, mas, agora, ele não conseguia se lembrar de seu sabor.

Sem dúvida, porque foi a última vez que ele experimentou, antes d’eles chegarem…

Ele abriu os olhos lentamente.

Ele se levantou do tapete de junco e olhou para o teto familiar.

Seu corpo ainda doía. Ele gradualmente esticou seu corpo, então, calmamente, pegou suas roupas com a mão. Uma camisa de cânhamo sem adornos. Ela estava desbotada por ter sido lavada repetidas vezes e cheirava ligeiramente a sabão. A camisa o impedia de se queimar ao sol. E cobria as cicatrizes que estavam por todo o seu corpo.

Ele colocou a camisa de cânhamo simples, depois o jaquetão de algodão.

Ele ia colocar seu elmo e a armadura de aço, então, se lembrou de ter entregue a uma loja para repará-los.

Ele também não tinha um escudo. Ele tinha tomado um golpe crítico daquele ogro.

— …Hmph.

Não havia nada a fazer sobre isso. Ele colocou sua espada no quadril, para ter o mínimo de segurança. Seu campo de visão parecia estar excepcionalmente grande e brilhante, sua cabeça também estava leve, e isso o incomodava.

— Bom dia! Você certamente dormiu bem! — A voz chegou a ele como um ataque surpresa.

Era aquela garota, sua velha amiga, se inclinando em seu quarto, com seu peito apoiado no peitoril da janela aberta.

Uma brisa soprou no quarto. Ele não sentia o ar do início do verão em sua pele da nuca como agora há muito tempo.

Sua amiga estava com suas roupas de trabalho. Um pouco de suor pairava em sua testa. Da luz que se espalhava, ele adivinhou que o sol já estava alto no céu.

— Desculpe, — ele disse, oferecendo sua lacônica palavra em desculpas pelo excesso de sono. Parecia que ela já havia começado a cuidar dos animais. Ele havia perdido sua chance de ajudar.

Ela acenou com as mãos, sem nenhum indício de incomodo em seu tom.

— Ah, não, tudo bem. Você precisa descansar mais do que qualquer coisa. Eu sei que você precisa disso, pois se não fosse assim, você não perderia sua inspeção matinal. Você dormiu bem?

— Sim.

— Parece que vai ser um dia quente hoje. Você tem certeza de que não sentirá muito calor nessas roupas?

— …Talvez você esteja certa, — ele disse acenando lentamente.

Ela estava certa. E, na realidade, o volumoso algodão ficaria em seu caminho enquanto ele estivesse trabalhando. Então, ele arrancou a armadura interior que ele tinha colocado a momentos atrás, e jogou sobre a cama.

— Caramba, você não precisa ser tão violento com ela. Você vai rasgá-la.

— Eu não me importo.

— É claro que não… — Ela deu de ombros profundamente e cerrou os olhos, como se ela estivesse de babá cuidando de uma criança. — Bom, por mim tudo bem. Eu estou com fome. O Tio deve estar de pé agora. Vamos nos apressar e tomar o café da manhã.

— Certo, — ele respondeu calmamente e saiu de seu quarto. Ele caminhou pelo corredor.

O dono da casa, que já estava sentado na mesa na sala de jantar, ficou com os olhos arregalados quando viu a figura na entrada.

— Bom dia, senhor.

— Si… sim. Bom dia.

Ele não prestou atenção na reação do Tio, mas apenas deu um aceno de cabeça cortês e se sentou de frente para ele. O Tio se ajustou desconfortavelmente.

— Você, uhh, você acordou um pouco tarde hoje…

— Sim. — Ele assentiu firmemente. — Eu dormi demais. Eu farei minha inspeção mais tarde.

— Entendi… — A confirmação saiu quase como um gemido. Ele abriu a boca, e a fechou novamente e depois franziu as sobrancelhas. — Você deveria… descansar por um tempo. Não é possível trabalhar se você não tiver força, certo?

Ele ficou em silêncio por um tempo, depois assentiu.

— Verdade.

Isso foi o mais perto de uma conversa que eles tiveram.

Ele sabia que o dono da fazenda era uma boa pessoa. Ele tratava a garota, sua sobrinha, como sua própria filha. Mas, ele também sabia que o dono não gostava dele, ou, pelo menos, o achava desconfortável.

Era uma escolha de cada pessoa a quem gostar ou não gostar. Ele certamente não precisava tentar convencer o Tio de um jeito ou outro.

— Ufa! Desculpe por demorar tanto! Eu vou trazer a comida em um segundo, então saboreiem!

Sua velha amiga veio correndo momentos depois e começou a preparar os pratos na mesa. Queijo, pão e uma sopa cremosa. Tudo feito na fazenda. Ele comeu avidamente, como sempre. Quando ele terminou, ele empilhou os pratos vazios, empurrou a cadeira para trás de forma barulhenta e ficou de pé.

— Eu estou indo.

— O quê? Ah, porcaria, já é hora de fazer as entregas? — Com suas palavras, ela começou a se apressar.

Ela enfiou um pedaço de pão na boca de uma forma bastante inapropriada. Ao vê-la, o dono da fazenda abriu a boca relutantemente.

— Transporte novamente?

— Ah, Tio, você é tão preocupado. Eu continuo te dizendo, eu sou muito mais forte do que pareço…

— Vou levá-lo, — ele disse brevemente.

A garota e o seu tio trocaram um olhar. Ele não tinha sido suficientemente claro?

— Eu vou levá-lo, — ele repetiu.

Ela parecia confusa, sem olhar para ele, então, ela balançou a cabeça.

— Não, você… você não precisa fazer isso. Você precisa descansar.

— Meu corpo ficará mole, — ele disse calmamente. — Além disso, eu tenho negócios na Guilda.

Ele sabia que não falava muito. Ele não conseguia se lembrar se sempre tinha sido assim. Mas ele sabia que por mais breve que ele pudesse ser, ela sempre procuraria maneiras de cuidar dele.

Mais uma razão para ele dizer claramente o que tinha de dizer.

— Está tudo bem, — ele disse, e ele saiu da sala de jantar.

Ele podia ouvir os passos rápidos dela enquanto ela se apressava atrás dele.

A carroça estava parada lá fora. As entregas para a Guilda dos Aventureiros foram transferidas para ela na noite anterior. Ele puxou as cordas para se certificar de que tudo estava seguro, depois, pegou a trave e começou a empurrar.

As rodas rangiam como se estivessem vivas, retumbando ao longo do caminho de cascalho. Ele podia sentir o peso em seus braços.

— Você tem certeza de que está tudo bem? — Assim que ele chegou ao portão, ela veio correndo, respirando com dificuldade. Ela olhou para o rosto dele.

— Sim. — Ele assentiu brevemente, então deu outro empurrão.

A estrada arborizada ia até a cidade. Ele foi devagar, um passo após o outro, sentindo a terra debaixo de seus pés.

Assim como ela havia dito, o dia iria provavelmente esquentar. Ainda não era meio-dia, e os raios do sol já apareciam. Ele estava suando dentro de pouco tempo. Ele deveria ter trazido uma toalha de rosto.

Ele estava apenas pensando que se não entrasse em seus olhos, não haveria nenhum problema, até quando algo suave escovou sua testa.

— Esqueceu que falamos que você devia descansar um pouco? — Suas bochechas estufaram com aborrecimento enquanto ela limpava a testa dele com o seu lenço. — Você desabou no instante em que voltou e dormiu por dias. Você sabe o quanto eu estava preocupada?

Ele fingiu pensar por um momento, então balançou a cabeça. Certamente não era tão importante.

— Isso já foi há três dias.

— Foi apenas três dias atrás! É por isso que eu disse para não exagerar, — ela disse enquanto estendia a mão para enxugar seu rosto. — Você mal conseguia se levantar! Você precisa descansar.

Ainda puxando o carrinho, ele suspirou.

— Você…

— Hã?

— …é muito parecida com seu tio.

Ela parecia não conseguir decidir se isso a deixava feliz ou irritada. De qualquer forma, ela não parecia disposta a desistir.

— É apenas um pouco de trabalho excessivo. Você não precisa se preocupar comigo, — ele explicou com um pouquinho de aborrecimento.

Não. Não era um aborrecimento. Ele simplesmente odiava se lembrar que ele mal podia cuidar de sua própria saúde.

Mas, eu preciso ser lembrado. Para que eu não cometa o mesmo erro duas vezes.

— É isso que a sua amiga Sacerdotisa lhe disse? — A sua voz parecia estar irritada com ele.

Ele olhou para ela pelo canto de seus olhos, e viu que suas bochechas ainda estavam um pouco estufadas.

— Não.

Ele olhou para frente novamente e deu um outro empurrão na carroça.

— Outro membro do grupo disse isso.

— Hmm, — ela disse, apaziguada. — Você está se aventurando com muitas pessoas novas nesses dias.

— Nós só estivemos em uma missão.

— Parece que você está planejando continuar com mais, então?

Ele não podia responder. Ele não sabia o que dizer.

Seria uma mentira dizer que ele não tinha tal intenção. Havia coisas piores. Mas, ele sairia de seu caminho tradicional, para os convidar para sua próxima missão…?

Naquele momento, o vento surgiu. Ele fechou os olhos, ouvindo o farfalhar dos galhos e relaxando com a luz que se infiltrava pelas folhas.

Eles pararam de falar.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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